*Por Brunna Condini
Às vésperas do Dia Internacional da Mulher, celebrado neste domingo (8), falamos aqui de uma atriz que faz da sua visibilidade um espaço de posicionamento diante do mundo, e dos temas que atravessam o feminino. Erika Januza é dessas artistas que não se limitam à atuação: usa a voz, a presença pública e muitas das personagens que escolhe para ampliar debates sobre a representação das mulheres negras. Não por acaso, vive hoje dois papéis no audiovisual que tocam em feridas e conquistas, em contextos históricos distintos, mas conectados por um eixo comum: resistência, poder e voz. E ao falar do espaço conquistado ao longo de quase 16 anos de trajetória, celebra: “Fico muito feliz por encontrar pessoas que falam que se sentem representadas por mim. Ainda temos passos largos para dar, mas o hoje já é melhor que o ontem. E espero que o amanhã seja melhor“.
A partir de 16 de março, em ‘A Nobreza do Amor’, nova trama das seis da Globo, Erika será a rainha Niara; simultaneamente, também pode ser vista como Candinha em ‘Dona Beja’, novela da HBO Max, uma personagem atravessada por tensões sociais e raciais no Brasil do século XIX, que sem alternativa após uma tentativa de abuso, se torna prostituta. A atriz vê em Candinha um espaço de denúncia e reflexão histórica. “Ela me permite fazer denúncias. A gente vê o que mulheres negras gostariam de dizer, ou o que passaram e não puderam dizer”, afirma. E acrescenta que esse trabalho carrega consigo uma dimensão coletiva. “É mais uma mulher preta que representa toda mulher preta que passou por violências e injustiças”. Sobre ‘A Nobreza do Amor’, que marca seu retorno às novelas na TV aberta após cinco anos, diz:
Pedi para fazer parte dessa novela. Ver pessoas pretas vestidas como realeza, livres e felizes no set de gravação é algo muito poderoso e inédito no Brasil – Erika Januza

Erika Januza celebra representatividade ao viver Candinha em ‘Dona Beja’ e a rainha Niara em ‘A Nobreza do Amor’ (Foto: Felipe Costa)
Erika também está na quinta temporada de ‘Arcanjo Renegado‘, que estreia ainda este ano no Globoplay, e continua no elenco do ‘Saia Justa‘, no GNT, mas está empolgada mesmo com sua volta à TV. “Podemos fazer série, filme, mas as perguntas são sempre sobre a volta às novelas, porque é um produto que tem um lugar diferente no coração do brasileiro. Estou felicíssima com o meu retorno e mais ainda por ser uma novela que fala sobre a África, algo inédito”.
E ao falar de ‘A Nobreza do Amor’, conta que os tecidos, cores e padrões vistos em cena com sua personagem, são semelhantes a peças que já fazem parte de sua própria vida. “Tem coisas que tenho em casa que são parte de Niara e que fazem parte do Carnaval. Então, de alguma forma, mesmo sem eu pensar, olhando para a nossa estética, muita coisa está ali juntinha, ligada”. Para a atriz, essa descoberta revela algo maior:
É muito bonito ver como, de uma forma ou de outra, a África está em nós no dia a dia, e muitas vezes a gente nem se dá conta. O nosso cotidiano tem referências e influências africanas – Erika Januza

Erika Januza em ‘Dona Beja’, sucesso da HBO Max (Foto: Divulgação)
E se em ‘Dona Beja’ Januza mergulha nas feridas históricas de mulheres negras submetidas a violências e apagamentos, em ‘A Nobreza do Amor’ ela vive um movimento simbólico inverso: o de colocar uma mulher negra no lugar de poder absoluto dentro da narrativa. Sua Niara governa o reino fictício de Batanga ao lado do marido, o rei Caimã III (Welket Bunguê), até que um golpe de Estado liderado por Jendal (Lázaro Ramos) muda o destino da família e a força a fugir com a filha, a princesa Alika (Duda Santos), para o Brasil. A própria construção da personagem também exigiu um exercício criativo pouco comum na teledramaturgia brasileira, justamente pela escassez de referências de realeza africana no audiovisual. “Niara é uma rainha para a qual não existem muitas referências de atuação, o que me levou a misturar influências europeias e criar minha própria interpretação”, explica. “É uma guerreira, depois se torna uma rainha que sempre é ouvida pelo seu rei, além de ser mãe e amiga da filha”.

Erika Januza na pele da rainha Niara em ‘A Nobreza do Amor’ (Foto: Divulgação/Globo)
Erika fala também sobre o impacto emocional de participar de uma trama que reposiciona a forma como a África é representada na televisão brasileira. “Desde que soube da existência dessa novela, fiz contato com a Duca (Rachid, uma das autoras) e disse que ainda que eu não fizesse, seria telespectadora, porque é algo que a gente quis ver por muito tempo e nem imaginava que seria possível”. E observa que a experiência no set foi marcada por um sentimento de reconhecimento e de reconstrução simbólica:
Quando olho tudo isso acontecendo, acho que estamos fazendo história. A gente ainda não sabe de audiência, não sabe de nada, mas já estamos fazendo história por contar o nosso ponto de vista de um outro lugar – Erika Januza

“Fico muito feliz por encontrar pessoas que falam que se sentem representadas por mim” (Foto: Felipe Costa)
Esse “outro lugar”, segundo a atriz, passa por mostrar um passado que não se resume à dor e à escravidão. “O passado que contamos é sempre triste, de dor, nos diminui. Então chegou a hora de mostrarmos para as novas gerações que existe outro passado. Fomos muito mais do que foi apresentado pra gente até hoje”.
Assim, entre Candinha, mulher que expõe injustiças históricas, e Niara, rainha que simboliza poder e ancestralidade, Erika ocupa dois territórios narrativos complementares: o da denúncia e o da reconstrução de imaginários, ambos fundamentais para ampliar as representações de mulheres negras na dramaturgia brasileira. “É um momento muito forte, estou emocionada. Acredito mesmo que ‘A Nobreza do Amor’ vai fazer história, ainda que seja dentro de cada um de nós, quando ligarmos a televisão e nos vermos com o mais bonito que tem o ancestral”.
Uma rainha construída coletivamente
A jornada da personagem de Erika Januza em ‘A Nobreza do Amor’ é intensa. A rainha Niara vê o seu reino, a fictícia Batanga, sofrer um golpe de estado orquestrado por Jendal (Lázaro Ramos) e se torna viúva quando o rei Cayman III (Welket Bunguê) é assassinado no meio da ação. Niara e a filha, a princesa Alika (Duda Santos), são obrigadas a fugir às pressas do país rumo ao Nordeste brasileiro, onde tentam reconstruir a vida e, ao mesmo tempo, organizar uma forma de reaver o trono. Dentro dessa proposta, a personagem surge como uma figura de equilíbrio e força política. “Ela começa guerreando ao lado do marido para salvar o reino dos colonizadores. Depois, assume meio que um papel de conselheira dentro da família e da corte. É aquela voz da matriarca, que observa, ouve e na hora certa solta uma palavra de sabedoria ou um puxão de orelha”, detalha.
Segundo a atriz, a personagem reflete uma forma de liderança que passa pela escuta e pela observação: “Acho que ela seria muito uma mãe que eu seria, sabe? De olhar e na hora certa falar o que tem que ser falado. Deixar voar, mas tem que ter de olho”.

Erika Januza e Duda Santos são mãe e filha na próxima trama das seis da Globo (Foto: Divulgação/Globo)
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