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‘Era apaixonado por cinema, mulheres e pela vida’, diz a atriz Patricia Niedermeier sobre François Truffaut

Peça-filme mistura dança, música, projeção de vídeos e recitação para lembrar as seis décadas de ‘Os Incompreendidos’, primeiro filme do cineasta francês, e os 35 anos de sua morte

Publicado em 06/12/2019 | Por Heloisa Tolipan

*Por Jeff Lessa

O ano que se encerra trouxe duas datas “redondas” ligadas ao cineasta francês François Truffaut (1932-1984). Em junho de 2019, completaram-se seis décadas do lançamento de seu primeiro filme, “Os Incompreendidos”, uma das obras seminais da Nouvelle Vague. Além de premiar um diretor estreante no Festival de Cannes, “Les Quatre Cents Coups” (no original) marcou o começo da colaboração visceral entre o diretor e Jean-Pierre Léaud, que interpretou durante anos seu alter-ego, o personagem Antoine Doinel. A outra efeméride é mais triste: em 21 de outubro passado, fez 35 anos que ele morreu aos 52 anos, de um câncer devastador.

Truffaut, Patricia e o ator Jean-Pierre Léaud, que interpretou por anos o alter-ego do diretor, Antoine Doinel (Divulgação)

Esses foram os motes para que três apaixonados por Truffaut se unissem a fim de homenagear o réalisateur lembrando sua obra e seu legado. A ideia partiu do jornalista e crítico Rodrigo Fonseca, que propôs ao cineasta Carlos Vinícius Borges, o Cavi, e à mulher dele, a atriz e bailarina Patricia Niedermeier, a montagem de uma peça-filme sobre o cineasta no espaço intimista da Sala 4 do Estação Botafogo. Sala 4? Sim: a locadora instalada na galeria da Rua Voluntários da Pátria onde o Grupo Estação começou suas atividades nos anos 1980 foi transformada numa sala com apenas 21 lugares, um toca-discos e um bom projetor. No entanto, o cineminha, que deveria exibir filmes com a curadoria da Cinemateca do MAM, permaneceu sem uso até ser transformado no atual cine-teatro, por sugestão de Cavi: “A Patricia vinha procurando um palco fazia tempo, mas tudo estava ocupado ou muito caro. A ideia do cinema-teatro veio dessa carência, da falta de grana. Usamos a precariedade a nosso favor, para nos forçarmos a ser criativos”, conta.

Patrícia acrescenta: “Nós construímos o palco com cenotécnico, fizemos um grid, ficou muito bom. Aí o Rodrigo veio com essa ideia de fazermos a peça-filme sobre o Truffaut. Como já tinha visto a nossa primeira encenação aqui em abril, sabia que a sala funcionaria para o que tinha em mente. Já temos uma parceria há um tempo. Participamos de um grupo de pesquisa formado por nós dois, Cavi, o ator Jorge Caetano e o diretor Alexandre Varella. Ele é um profundo conhecedor de Truffaut e da Nouvelle Vague. O recorte da peça trata, basicamente, de paixões. Truffaut era um apaixonado pelo cinema, pelas mulheres, pela vida, pelas pessoas, pelas crianças. Ao mesmo tempo, o cineasta era muito racional, estudava muito antes de fazer cada filme…”, comenta a atriz, que fará o papel do diretor em “François Truffaut, o Cinema é Minha Vida”, que estreia no sábado (7).

O espetáculo se divide em três atos. No primeiro, François Truffaut, já próximo da morte, está sozinho num camarim da Cinemathèque Française preparando-se para dar uma entrevista, lembrando de fatos de sua vida e revendo sua história. No segundo, acontece a entrevista. No terceiro e último, ocorre uma epifania e ele é tragado pela tela de cinema. “A dramaturgia renova a forma clássica de se fazer teatro, trazendo transdisciplinaridade ao misturar dança, música, projeção de vídeos e recitação. Esses braços plurais espelham o espírito transgressor de Truffaut”, explica Rodrigo Fonseca, que assina o texto, criado a partir de palavras do próprio homenageado em entrevistas que concedeu ao longo da carreira.

Cavi assina as projeções. E conta que as imagens vêm de produções do cineasta, de cenas de bastidores (Truffaut dirigindo, por exemplo) e de filmes de diretores que ele admirava ou que o influenciaram: “Antes de a peça começar, rola um pot-pourri só com trechos dos 25 filmes que ele fez editado por mim. Depois tem cenas de filmes de diretores que o influenciaram, como Hitchcock, os Irmãos Lumière, Rossellini, os neorrealistas italianos do Pós-Guerra. Tem uma cena linda da Jeanne Moreau cantando e, nesse momento, a Patricia dança com a projeção. Tem cenas de bastidores, com o próprio Truffaut dirigindo. E tem o teste de elenco do Jean-Pierre Léaud muito jovem, para ‘Os Incompreendidos’, raríssimo, algo que pouca gente viu”.

Para Patricia, uma das características que mais encantam em Truffaut é a delicadeza com que tratava os outros. Para interpretar o cineasta, ela leu muito sobre ele e viu todos os seus filmes. “Fiz a minha antropofagia de toda essa quantidade de informação”, brinca. “Ele fez a besteira de entrar para o Exército. Sofreu muito, além do que já havia sofrido em casa, na periferia de Paris. Poderia ter voltado à vida civil querendo dar o troco. Pelo contrário. A primeira carta que ele escreveu para o Hitchcock mexeu com o inglês de tão bonita. Quando se encontraram, o Hitch disse ‘Senhor Truffaut, sua carta me trouxe lágrimas aos olhos’”, conta, rindo.

A atriz e bailarina Patricia Niedermeier estudou a vida e a obra do cineasta francês para interpretá-lo na peça (Divulgação)

A atriz dispensou artifícios para interpretar o mito: “Não vou me caracterizar. É só a roupa e a corporalidade. Quero um distanciamento brechtiano”, revela. “O corpo de cada ator… cada um tem o seu caminho, faz a sua pesquisa. A minha é através da dança, pois trabalho há muitos anos com a (coreógrafa, diretora teatral e analista de movimento) Regina Miranda. E é como o próprio François dizia, ‘todas as individualidades têm o direito de se expressar’. Ou seja, o que importa, no fim, é o resultado”.

SERVIÇO

François Truffaut, o Cinema é Minha Vida

Estação Botafogo: Rua Voluntários da Pátria 88, Botafogo – 2226-1988

Sáb e dom, às 20h

R$ 50

Estreia sábado, 7 de dezembro. Até 26 de janeiro.

60 minutos.  14 anos

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