Entre novela e ‘Tremembé’, Bruno de Mello defende visibilidade para mulheres 60+ e novas narrativas na TV


O ator vive um momento de expansão na carreira, conciliando a novela “Êta Mundo Melhor”, na Globo, com projetos streaming e cinema.Em “Tremembé”, da HBO Max, analisa o impacto social das produções de true crime e a importância da memória e da reflexão coletiva Integra o elenco de “Rio de Sangue”, filme rodado na Amazônia que aborda o garimpo ilegal e a exploração ambiental, e de “Sexa”, estreia de Gloria Pires na direção, que discute a sexualidade feminina na maturidade. O ator também reflete sobre o próprio processo de envelhecimento, defendendo a valorização de diferentes faixas etárias na dramaturgia

*por Vítor Antunes

Para além do destaque na novela de sucesso “Êta Mundo Melhor“, exibida às 18h, Bruno de Mello amplia seu campo de atuação e investe em novos projetos no audiovisual. Integra o elenco de Tremembé, série da HBO Max que se consolidou como um dos títulos de maior repercussão da plataforma ao apostar no gênero true crime, centrado em crimes reais. O ator poderá ser visto em breve em “Rio de Sangue”, longa-metragem dirigido por Gustavo Bonafé, ambientado em Santarém e Alter do Chão, no interior do Pará. O filme propõe um olhar contundente sobre a exploração ambiental e o garimpo ilegal na região amazônica.

Sobre a experiência e a relevância da obra, o ator comenta: “Trata-se de um filme muito especial que gravei no Pará, no meio da floresta amazônica. A história aborda a questão do garimpo ilegal na Amazônia. O povo indígena participou de forma bastante ativa do filme, o que contribuiu para que a narrativa ficasse muito próxima da realidade. Quando li o roteiro e compreendi o tema, pensei que era algo sensacional, justamente por ser tão atual. Acredito que o filme vai gerar bastante repercussão. É uma obra extremamente contemporânea. Meu personagem trabalha em uma ONG que atua em regiões de difícil acesso do estado. Em muitos casos, são as ONGs que realizam esse tipo de trabalho, o que exige muita coragem, já que o crime organizado domina essas áreas”.

Bruno também detalha o processo de preparação e os bastidores da produção, marcada por uma vivência intensa em meio à natureza. “Ficamos dormindo em um barco, no meio da floresta, o que foi uma experiência incrível para mim. Foi lá que vi um dos pores do sol mais bonitos da minha vida, no meio da Amazônia, muito longe dos centros urbanos”. Além desse trabalho, o ator também integra o elenco de “Sexa”, longa de estreia de Gloria Pires na direção, no qual a cineasta também atua como protagonista.

Ao comentar a experiência no set e a condução da diretora, Bruno destaca: “Trata-se de uma novidade na carreira dela. Ela é uma atriz e artista fora de série. Demonstrou uma tranquilidade impressionante no set, uma leveza e uma generosidade raras. Chegava sabendo exatamente o que queria, de forma objetiva, dinâmica e acolhedora. O ambiente de trabalho era muito respeitoso, com uma equipe majoritariamente formada por mulheres, o que gerou uma energia muito positiva. Foi possível sentir um clima de cuidado e colaboração no set. Diferentemente da urgência comum em muitas produções, houve tranquilidade durante todo o processo, e o filme foi rodado em cerca de duas semanas.”

Bruno de Mello e Glória Pires em “Sexa”(Foto; Divulgação)

Bruno chama atenção para o tema central do filme, que lança luz sobre uma dimensão ainda pouco explorada no cinema brasileiro: a sexualidade feminina na maturidade. “Eu acredito que a afetividade e a sensualidade das mulheres acima dos 50 anos ainda sejam pouco exploradas. Raramente se vê uma mulher de 60 anos como protagonista. Em geral, essas personagens aparecem como mãe ou avó da protagonista, em papéis coadjuvantes, sem interesse romântico ou vida afetiva e sexual retratada”.

Uma mulher de 60 ou 65 anos está muito viva e ativa. Precisamos explorar diversas camadas etárias: a mulher de 65, o homem de 70, o homem de 40, a mulher de 20. Essa diversidade é fundamental – Bruno de Mello

O ator reflete sobre o próprio processo de maturidade, que se intensificou com a chegada aos 40 anos, e comenta como essa fase tem exigido uma relação mais atenta com o corpo e com o tempo. Ao abordar o tema com franqueza e humor, ele afirma: “Eu confesso que sempre me cuidei muito, pratiquei atividade física a vida inteira e tive atenção com a alimentação. Tenho um lado vaidoso que me ajuda a manter esse cuidado, então o processo chegou de forma relativamente natural. No entanto, aos 41 anos, comecei a brincar dizendo que apareceu o ‘PVC’. Quando perguntam o que é, explico: ‘é a p0rr4 da velhice chegando’. As lesões demoram mais a melhorar, surgem exames adicionais, cuidados que antes não eram necessários. O corpo começa a pedir atenção em aspectos que antes não exigiam esse acompanhamento. Também é inevitável perceber mudanças físicas, como a diminuição do cabelo, que exige tratamentos. As rugas, por outro lado, não me incomodam. Acho que fazem parte da vida e do processo natural de envelhecer. Recentemente, fui à formatura do meu filho de 18 anos e tive uma sensação muito forte da passagem do tempo. Fiquei feliz por estar ali para viver esse momento e espero acompanhar muitos outros. Para isso, é preciso envelhecer. Filmes como os da Glória ajudam a perceber que há vida e potência em todas as fases da idade. Ver os amigos do meu filho, já adultos, de beca e canudo, reforça essa percepção de que o tempo passa rapidamente.”

Entre novela e Tremembé, Bruno de Mello defende visibilidade para mulheres 60+ e novas narrativas na TV brasileira (Foto: Vinicius Mochizuki)

NOVELA

Na trama das 18h, o ator interpreta Paulo Aguiar, um ator de radionovela, personagem que resgata a criatividade, a técnica vocal e o imaginário dos intérpretes dos anos 1950. Ele comenta ainda a decisão dos autores Walcyr Carrasco e Mauro Wilson de ampliar o núcleo da radionovela na nova fase da história. “De “Êta Mundo Bom!” para “Êta Mundo Melhor“, entraram novos núcleos e houve pequenas mudanças. Nesse processo, Walcyr e Mauro tiveram a ideia de ampliar a presença da radionovela na trama. Em Êta Mundo Bom!, os atores não apareciam fazendo a radionovela na televisão; o público apenas ouvia as transmissões pelo rádio. Houve até uma radionovela produzida paralelamente, mas apenas para o Gshow.

“Como Walcyr gostou da possibilidade de mostrar esse imaginário, criou o núcleo da radionovela aparecendo no ar, com os atores interpretando as cenas no momento da gravação. A preparação foi muito interessante, envolvendo um trabalho intenso com a voz e uma metalinguagem bastante rica. Em alguns momentos, eu precisava me lembrar de que também estava sendo filmado, não apenas interpretando para o rádio. Fiz acompanhamento com fonoaudiólogo para trabalhar a voz e as mudanças rápidas entre personagens, além de uma preparação específica com sonoplastia e uma pesquisa aprofundada para entrar nesse universo de uma geração que não é a minha.”

Na avaliação do ator, o sucesso da novela está diretamente ligado à forma como a narrativa dialoga com o público contemporâneo. Ele conclui destacando a recepção positiva da obra: “Tanto é que a novela tem feito grande sucesso em seu horário. Está batendo recordes e figura entre as mais bem-sucedidas dos últimos anos. Acredito que isso aconteça porque trabalha a fábula e a ambientação de época com leveza. Em um contexto de tantas notícias pesadas, o público tende a acolher bem uma narrativa mais leve. Esse tipo de respiro acaba sendo muito bem recebido.”

Bruno de Mello vive um radioatr em “Eta Mundo Melhor” (Foto: Vinícius Mochizuki)

TRUE

Bruno atua em “Tremembé”, série da HBO Max que se consolidou como um dos títulos de maior repercussão da plataforma ao apostar no gênero true crime. A produção tem provocado debates sobre os limites desse tipo de narrativa, especialmente no que diz respeito à exposição de criminosos e ao risco de idolatria por parte de uma parcela do público. Ao comentar o tema, o ator defende a importância da memória e da reflexão coletiva sobre esses episódios.

“Eu acho que esses crimes bárbaros precisam ser relembrados de tempos em tempos, porque isso faz com que, como seres humanos e como sociedade, a gente não esqueça. Caso contrário, há o risco do apagamento. É importante lembrar como esses crimes foram terríveis e como são terríveis os atos cometidos. Em alguns casos, é profundamente injusto que essas pessoas já estejam soltas. É inadmissível imaginar que a mãe de uma menina possa andar na rua e encontrar o homem que jogou sua filha pela janela, ou situações semelhantes envolvendo madrastas e outros responsáveis. Isso é algo realmente assustador. Esse é um tema complexo, porque cada pessoa terá a sua própria opinião. Há quem ache que esse tipo de abordagem pode gerar idolatria, mas considero isso uma parcela muito pequena da sociedade. É algo que me causa estranhamento, como no caso de pessoas que idolatrizam o goleiro Bruno. Eu não tenho contato com esse tipo de pensamento e não consigo compreender o que se passa na cabeça de quem age dessa forma. Para mim, isso representa uma grande distorção. A humanidade, ao longo de séculos, sempre foi formada por diversas camadas sociais e por pessoas com visões muito diferentes, e isso sempre existirá. Em qualquer área de atuação, haverá quem elogie e quem critique. Por isso, acredito que o mais importante é fazer o trabalho. Se você não faz, ninguém fala nada; se você faz, haverá elogios e críticas. Não faz sentido sofrer com as críticas, assim como também não é saudável se engrandecer excessivamente com os elogios”.

Bruno de Mello fala da onda dos crimes verdadeiros: (Foto: Vinícius Mochizuki)

Fazendo esse paralelo, entendo que sempre existirão diferentes olhares sobre uma obra, e cada pessoa tem o direito de interpretá-la como quiser. Trata-se de uma obra de arte, e a arte cumpre seu papel quando provoca reflexão. É positivo que essas narrativas façam as pessoas se indignarem novamente, inclusive diante do absurdo de se idolatrar algo que é essencialmente ruim. Ao mesmo tempo, elas lembram que esses acontecimentos existiram e ajudam a conscientizar sobre o quanto são errados. Casos como o daquele médico que violentava mulheres [Roger Abdelmassih] também cumprem essa função ao mostrar que esse tipo de crime é real e existe. Isso contribui para que as mulheres fiquem mais atentas, assim como para que a sociedade, de modo geral, tenha mais cuidado, inclusive em relação aos filhos e às pessoas em quem confia. A sociedade tem um interesse evidente por esse tipo de conteúdo. Os jornais abordam esses temas com frequência justamente porque despertam atenção. Programas de grande audiência mostram que situações de conflito e exposição do lado mais sombrio da humanidade atraem público. Existe uma curiosidade inerente ao ser humano em observar esse universo, inclusive em relação ao sistema prisional. A maioria das pessoas nunca esteve em uma cadeia, nunca viu como é esse ambiente, mas sente curiosidade em saber como funciona, quais são as regras e como as pessoas vivem ali dentro. Há também um interesse quase antropológico em entender esses contextos. Por isso, quando esse tipo de conteúdo é levado à televisão, é natural que as pessoas queiram assistir.”