*por Vítor Antunes
Em 1986, cantava-se, na abertura, “Beija-flor, beija-menina… Quem a fez assim tão divina?”. Havia ali um Brasil que se anunciava em tom de folhetim grandioso, com um tom barroco, melodrama e excesso. Agora, quase quatro décadas depois, a reapresentação começa de outro modo: entra uma versão menos rock’n’roll do “Blues da Piedade”, de Cazuza (1957-1990). O gesto é simbólico. A novela mudou de época, de ritmo e de chave estética, mas a mulher que um dia escandalizou Araxá permanece no centro da cena. “Dona Beja” está lá, agora vivida por Grazi Massafera, numa releitura que troca a reverência pelo risco. Assim como Dona Beja, outros personagens ganharam novos rostos e novos contornos na versão que a HBO Max fez do clássico da TV Manchete. Um deles é Vado, vivido agora por Nikolas Antunes, papel que, na versão original, coube a Mário Cardoso.
A novela, cercada por atrasos, reformulações e uma sucessão de polêmicas nos bastidores, finalmente vê a luz do dia. Antunes relativiza o percurso tortuoso. “A gente grava uma coisa e acaba assistindo outra. Esses processos que vêm no pós, seja por edição ou, às vezes, por mudanças estruturais, são naturais. Os projetos passam por alterações, e todo esse percurso faz parte do processo para a gente”. Para ele, a ideia de obra fechada e imutável nunca existiu de fato, sobretudo em projetos seriados de grande escala. Ele prossegue, sublinhando o grau de complexidade envolvido na produção de uma novela, que por si só é extensa, ”Muita gente tem a falsa impressão, especialmente quem está muito envolvido com o mercado, de que fazer novela é fácil. Na verdade, fazer novela é provavelmente o mais difícil. É uma indústria enorme, que exige uma velocidade de produção muito intensa. São muitas frentes, muitos capítulos. É quando se começa a rodar que as dificuldades aparecem”.
Eu, particularmente, acho que cada projeto oferece seus próprios desafios, sejam quais forem. Nunca trabalhei em algo sem obstáculos, com um percurso plano do início ao fim. Sempre há dificuldades, de naturezas diversas. Encaro isso como parte do processo e entendi isso desde muito cedo – Nikolas Antunes
O longo intervalo entre gravação e estreia tampouco parece tê-lo afetado. Nikolas trata a espera como parte do ofício. “Quando a gente faz cinema, principalmente, isso é comum. Já houve vezes de eu esperar três ou quatro anos para ver um filme pronto. Eu faço, viro a página e sigo. Até para poder assistir com o máximo de surpresa possível, porque a gravação aconteceu há tanto tempo que, quando chega o momento, a gente se surpreende. A gente esquece do que fez, esquece do personagem, esquece do texto. Por isso, fico sempre muito animado e acho essa espera algo saudável.””

Nikolas Antunes em “Dona Beja” (Foto: Divulgação)
Na primeira versão de “Dona Beja”, exibida há cerca de 40 anos, Vado foi interpretado por Mário Cardoso. Antunes não chegou a ter contato direto com o ator, e sua relação com o trabalho anterior se deu apenas por meio do material gravado. “’Não tive troca direta com ele. Vi, sim, alguma coisa da primeira versão, e acho muito interessante. Existe essa maneira clássica de fazer, que hoje chamamos de novelão, e que funciona muito bem. É algo bonito, o público adora. O que eu assisti e a inspiração que tivemos me ajudaram bastante, sempre com a responsabilidade de contar uma história que já foi muito aplaudida pelo público, que tem um corpo sólido por trás e carrega esse caráter de clássico. Revisitar um clássico é sempre muito difícil. A história é parecida, embora seja uma releitura, mas não acho que exista obrigação de fazer algo semelhante. Acho saudável saber que estamos contando uma história forte, com esse background de sucesso, e respirar nela novamente para entender o que pode surgir de novo. É isso que as pessoas querem ver. Elas não querem uma cópia, querem o que vem de novo.””
Entre as novidades mais relevantes da nova “”Dona Beja”” está a reorganização do lugar ocupado pelos personagens negros na narrativa. Diferentemente da tradição de subserviência que marcou grande parte da teledramaturgia brasileira, os atores negros aparecem agora em posições centrais, disputando poder, ambição e protagonismo. Eles querem ser políticos, liderar famílias influentes, conduzir a ação dramática. Antunes observa esse deslocamento como uma escolha narrativa e histórica.
“Acho extremamente interessante termos um núcleo preto de poder, com famílias poderosas em posições de destaque, inclusive com representatividade política. O personagem do Davi Junior, o Antônio, tem aspiração política, estuda na Europa e retorna ao país com esse objetivo. Para além de provocar reflexão, isso retrata algo que existia de fato. Existiam famílias pretas poderosas naquela época, com propriedades e influência política. Apesar dos movimentos de apagamento dessas características e desses acontecimentos, isso é histórico. Há um esforço para apagar essas narrativas, como aconteceu com Machado de Assis, dentro de um movimento da branquitude que tentou quase transformá-lo em uma pessoa branca.””
OS LEÕES E OS NORTES
Nascido no Recife e transferido para o Rio de Janeiro ainda muito jovem, Nikolas Antunes fala com clareza sobre um tema que atravessa sua trajetória pessoal e profissional: o preconceito linguístico dirigido aos nordestinos, ainda hoje naturalizado no cotidiano brasileiro. Não se trata apenas de uma questão de sotaque, mas de um sistema de estigmas que associa origem geográfica a ignorância, erro ou inadequação social. Ele enumera exemplos corriqueiros, quase sempre ditos em tom de brincadeira, mas carregados de hierarquia. ”A gente sofre um pouco de preconceito. Há quem diga, por exemplo, que se você comete uma barbeiragem no trânsito está fazendo uma ‘baianada’. Há também quem afirme que todo mundo que nasce no Nordeste é ‘Paraíba‘. Eu amo o povo da Paraíba. No filme, “O Agente Secreto””, vencedor de vários prêmios e indicado ao Oscar, o diretor é pernambucano como eu e o ator protagonista, Wagner Moura, baiano. Esse preconceito existe e, no meu caso, acaba funcionando como uma mola propulsora, como cutucar onça com vara curta.””
Ele observa que, no seu caso específico, o impacto foi atenuado por circunstâncias biográficas. Chegou cedo ao Rio de Janeiro, passou também por São Paulo, e esse deslocamento precoce foi diluindo marcas mais evidentes do sotaque pernambucano. Ainda assim, ressalta que essa não é a regra, nem deveria ser um requisito tácito de sobrevivência profissional.
“Eu vim para o Rio de Janeiro ainda pequeno. Isso acabou influenciando no meu percurso, porque neutralizei o sotaque mais rapidamente. Antes disso, também passei um período em São Paulo, o que fez com que esse sotaque fosse se dissipando. Ainda assim, até hoje, muitas pessoas enfrentam dificuldades por terem um sotaque mais proeminente. Existe uma expectativa de que ele seja deslocado para o eixo Sudeste, como se fosse necessário falar como paulista ou adotar o carioquês. Isso se tornou uma convenção implícita, mas está mudando. O Brasil é essa miscelânea.”‘

Nikolas Antunes é do Recife e foi morar jovem no Rio (Foto: Brunno Rangel)
Durante décadas, a televisão, o cinema e a publicidade reforçaram a ideia de uma fala neutra que, na prática, nunca foi neutra: era a fala do Sudeste, elevada a padrão nacional. Ao apontar que essa convenção começa, lentamente, a se desfazer, o ator sugere uma mudança de paradigma ainda em curso, frágil, mas perceptível.
Eu acho que os nascidos no Nordeste, enquanto artistas e também por carregarem sangue nordestino, especialmente em um filme que se passa em Pernambuco, traz uma força muito particular. Há o Wagner, que é baiano, há o Kléber, que é pernambucano, está tudo ali misturado. Esse grupo é muito aguerrido. Eles fazem arte de maneira intensa, com uma disposição de quem está acostumado a construir tudo com as próprias mãos. Acho bonito ver o Brasil sendo representado justamente pelo povo nordestino. Não é preciso ter os melhores caminhos ou todo o dinheiro do mundo. Existe algo cultural ali que pulsa com muita força, e essa energia encontra vazão nesses profissionais fantásticos envolvidos na produção. O filme se manifesta neles. Há também uma estética, uma linguagem muito particular – Nikolas Antunes
BELO
O ator começou a trabalhar cedo. Aos 14 anos, entrou no mercado como modelo, uma profissão que, à primeira vista, parecia oferecer um caminho relativamente estável. Havia agência, contratos, campanhas de grande alcance. Mas, à medida que a engrenagem girava, ficou claro que aquele não era o destino final. Estruturado nesse universo, ele acabou se deslocando para as artes dramáticas, que desde o início apareciam menos como alternativa e mais como vocação.
“Eu comecei como modelo muito jovem, com cerca de 14 anos. Parei de modelar por volta dos 17 ou 18. Fui convidado a integrar uma agência após uma entrevista, comecei a trabalhar e, aos poucos, surgiram oportunidades com maior expressão. Fiz comerciais para a Coca-Cola e percebi que havia ali um retorno real, que era possível construir uma carreira. Recebi um convite para ir para a Itália, para uma agência que hoje não existe mais. No entanto, eu já fazia teatro na escola e optei por não ir. Essa decisão abreviou minha carreira como modelo, mas, em compensação, entrei na faculdade, cursei publicidade e teatro, estudando em duas frentes. A partir daí, comecei a me profissionalizar. Fiz minha primeira participação em uma novela da Rede Globo em 2007/2008, em “Duas Caras“. E, desde então, não parei mais.””
A escolha de não seguir para a Itália, recusando um passo que poderia consolidá-lo definitivamente no mundo da moda, marca um ponto de inflexão. Em vez do glamour previsível, vieram a sala de aula, o palco escolar, a formação simultânea em publicidade e teatro. O percurso, menos linear, revelou-se mais fértil. A estreia na televisão, em “Duas Caras”, em 2008, abriu uma sequência contínua de trabalhos, sem hiatos prolongados, algo raro em uma profissão marcada pela intermitência.
O fato de ser um homem considerado bonito jamais funcionou como obstáculo ou prisão simbólica. Ao contrário do estigma frequentemente associado à imagem, ele diz nunca ter se sentido reduzido a ela. “Isso nunca me trouxe incômodo. Nunca. Talvez por sorte ou talvez porque eu carregue uma certa gravidade nos trabalhos que faço, o fato é que isso sempre me abriu portas para personagens que fogem do arquétipo da beleza pela beleza. Isso aconteceu de maneira muito orgânica ao longo da minha carreira. Em uma novela recente, faço o Valdo, um sujeito completamente descompromissado”.
Acrescenta que, “em “O Rebu“, interpretou “um cozinheiro meio bandido, ex-presidiário, todo tatuado, que trabalhava na cozinha de uma mansão. Em “Liberdade, Liberdade“, vivi o Simão Caolho, um personagem cheio de cicatrizes, cego de um olho, com uma fala estranha, quase animalesca. Sou muito feliz fazendo esse tipo de trabalho. Não tenho nada contra interpretar o galã, pelo contrário, é algo interessante também, mas sempre tive a oportunidade de transitar pelo oposto. Sempre naveguei bem nessa mistura, e isso me deixa muito feliz.””

Nikolas Antunes não validou seu talento pela beleza (Foto: Brunno Rangel)
O que emerge desse relato é uma carreira construída menos sobre a repetição de tipos e mais sobre o atrito entre expectativa e escolha. Os personagens citados formam uma galeria de figuras deslocadas, marcadas por falhas físicas, morais ou sociais, distantes da idealização estética. A beleza, quando presente, aparece como detalhe secundário, nunca como eixo central da dramaturgia. Fora de cena, o ator descreve um movimento de transformação mais silencioso, guiado por leituras e práticas filosóficas. Nos últimos anos, esse deslocamento ganhou contornos mais definidos.
“Eu, ultimamente, tenho me aproximado do hinduísmo. Tenho estudado e lido bastante sobre o tema. Venho avançando nesse caminho. O ano de 2025 foi muito importante para mim, um período de crescimento intenso. Eu me surpreendo constantemente com a vida e procuro estar sempre atento. Às vezes nos achamos velhos, às vezes jovens, e esquecemos que estamos aprendendo o tempo todo. Sou alguém que mantém as antenas ligadas para aprender, para entender a vida de outras formas e me tornar uma pessoa maior, com uma compreensão mais sábia, mais respeitosa, mais interessante. Alguém com silêncios mais interessantes também. Meu interesse é seguir curioso”.
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