Em duas tramas, Luciano Quirino de “Êta Mundo Melhor” rebate escalação de negros ricos em “Dona Beja”


O ator, prestes a completar 40 anos de carreira, reflete sobre as transformações no audiovisual brasileiro, com destaque para a representatividade negra. Ele relembra o impacto de interpretar um médico em Laços de Família (2000), papel raro para atores negros na época, e celebra avanços, mesmo que tímidos, com seu retorno em Êta Mundo Bom!. O ator também integra a aguardada novela Dona Beja, elogiando sua densidade artística e defendendo a liberdade criativa ao retratar personagens negros em papéis de poder. Além disso, atua em uma série sobre Elize Matsunaga, ressaltando a complexidade do gênero true crime. Quirino se reconhece herdeiro de ícones como Ruth de Souza e Milton Gonçalves, e reafirma seu compromisso com a abertura de caminhos, permanência e protagonismo para artistas negros

*por Vítor Antunes

Luciano Quirino já é um veterano da atuação e carrega na trajetória o peso de ter atravessado inúmeras transformações do mercado audiovisual brasileiro, especialmente aquelas que dizem respeito à representatividade dos artistas negros. No início dos anos 2000, ele deu vida a um médico na novela “Laços de Família” (2000), um feito raro na televisão da época. Agora, mais de duas décadas depois, retorna aos consultórios fictícios como outro profissional da saúde em “Êta Mundo Melhor!” , novela das seis. Para ele, a presença de atores negros em papéis antes reservados majoritariamente a atores brancos é um avanço que merece ser celebrado. “Fico feliz em ver esse movimento, mesmo que tímido ainda. Quando eu fiz o médico em “Laços de Família”, era no começo dos anos 2000 e era raro você ver um ator preto nesse tipo de papel. A maioria dos personagens negros era, enfim, aqueles estereótipos que a gente já conhece: empregado, motorista. Agora, em “Êta Mundo Melhor!”, interpreto novamente um médico, mas num contexto de humor, com uma liberdade um pouco maior para criar um tipo mais inusitado, engraçado, com personalidade. Acho, sim, que há um avanço”, afirma.

Não se trata só de ter um ator negro num papel de médico, mas de naturalizar a presença negra nesses papéis de autoridade, de inteligência, em personagens mais complexos, que não necessariamente tenham só esse conflito do racismo, mas que tenham os seus problemas e complexidades como todo ser humano. Acho que a arte tem esse papel de refletir, de fazer refletir, de transformar a sociedade. E a TV, por ser um veículo de massa, tem esse compromisso, tem que assumir esse compromisso com mais coragem – Luciano Quirino

Além do sucesso da reprise, Quirino está no elenco de “Dona Beja”, superprodução que estreará na Max. Gravada em 2023 e ainda inédita, a novela já acumula expectativas e polêmicas, sobretudo por propor novas leituras para a história brasileira. O ator, porém, prefere destacar a densidade e a riqueza artística do projeto. “Foi um trabalho intenso e com muitas camadas. Dona Beja é uma obra grandiosa, com uma personagem histórica forte, num Brasil profundamente racista e patriarcal. Então a produção foi cuidadosa com todos os detalhes: figurino, linguagem, elenco, dramaturgia. Tem que ter coragem para enfrentar todos esses dilemas contemporâneos a partir de uma narrativa de época.”

Luciano Quirino viver personagens médicos em algumas novelas e acredita que seja importante essa mudança de paradigma (Foto: Marcio Farias)

Um dos pontos mais comentados da nova versão de “Dona Beja” foi a escolha de escalar atores negros em papéis de destaque, inclusive em personagens ricos, algo pouco comum em novelas de época. A decisão gerou debate e críticas sobre possível “anacronismo”, mas Quirino discorda dessa visão: “A arte não deve ser um espelho limitado do passado. Ela tem esse poder – e até a obrigação – de propor outros olhares, outras possibilidades de representação. É claro que nós precisamos respeitar marcos históricos, lógico. Mas nós não estamos fazendo um documentário, estamos contando uma história, com liberdade poética e a intenção de provocar reflexão. Quanto a haver atores negros em papéis de poder no século XIX, pode parecer anacrônico, mas não é, por incrível que pareça. Acho que está na hora de a gente ressignificar essas narrativas todas do povo preto. Agora as pessoas vão se surpreender com esse tipo de narrativa, certamente. E acho também que é justamente aí que mora a provocação: se existem outras narrativas, e se revisitássemos o passado com um olhar crítico e criativo? Isso, para mim, é dramaturgia viva, pulsante, capaz de mexer nas estruturas.”

Quirino também mergulha em outra produção de grande impacto: uma série biográfica sobre Elize Matsunaga, a mulher que assassinou o marido, o empresário Marcos Matsunaga, caso que chocou o país e se tornou símbolo do chamado true crime. Para o ator, o gênero ganhou força porque revela uma inquietação profunda sobre a natureza humana. “O true crime ganhou força porque existe uma curiosidade quase visceral por entender o limite entre o humano e o monstruoso. No caso da série sobre Elize, nós mergulhamos em uma história real, com muitas camadas psicológicas e sociais. Não é sobre glamorizar o crime, mas sobre tentar compreender os fatores que levaram alguém a romper com a lógica moral e legal. Para nós, artistas, é um território delicado, claro, mas muito desafiador. Exige respeito às vítimas, complexidade na atuação e um senso ético muito apurado. O streaming nos permite aprofundar essas histórias com mais tempo, mais nuances, mais liberdade narrativa.”

Luciano Quirino: “O true crime ganhou força porque existe uma curiosidade quase visceral por entender o limite entre o humano e o monstruoso” (Foto: Marcio Farias)

Às vésperas de completar 40 anos de carreira, Luciano Quirino faz um balanço das mudanças que presenciou no cenário artístico brasileiro. O ator, que já percorreu teatro, cinema e televisão, enxerga a evolução tecnológica como uma transformação inevitável, mas ressalta que o maior impacto está na consciência social que hoje permeia a produção cultural. “O que eu mais notei foi a tecnologia, que mudou tudo, desde as câmeras até o modo de consumir conteúdo. Mas eu acho que a maior transformação, na minha visão, é a consciência. Eu acho que as pessoas estão tendo mais consciência sobre esses debates todos de representatividade, equidade, de oportunidades e diversidade de narrativas. Eu acho que cresceu bastante também. Na cena artística agora, eu acho que a gente se tornou mais plural. A gente está mais atento às vozes todas que estão aí, que foram silenciadas durante muito tempo. Eu acho que está tendo um espaço grande para elas, para essas vozes. Anos, eu vi o teatro, o cinema e a televisão se abrirem, né, para histórias que escapam desse eixo hegemônico. A gente tem aí artistas negros, indígenas, LGBTs, periféricos, chegando com o seu trabalho, com a sua linguagem. Acho que abriu muito, né. E claro que é um tempo mais desafiador, mas também fértil, com muita coisa boa acontecendo, muita coisa boa para a gente consumir. Eu tô muito grato por estar ainda em atividade, com quase 40 anos de carreira. Tô produzindo, tô dirigindo, tô atuando, tô abrindo caminhos aí, assim como abriram para mim.”

Luciano se vê como parte de uma corrente histórica de artistas negros que abriram portas – ou, como ele mesmo define, “escancararam trincheiras” – para que outras vozes pudessem surgir. “Nenhum de nós chega sozinho. Eu sou herdeiro de Ruth de Souza (1921-2019), de Grande Otelo (1915-1993), de Zezé Motta, Milton Gonçalves (1933-2022), Léa Garcia (1933-2023), Antônio Pitanga. Esses nomes não abriram só portas. Eles escancararam trincheiras com muito talento, coragem e dignidade. E hoje eu carrego essa memória como um compromisso. Quero que os mais jovens olhem para mim e saibam que também podem. Que o palco, a tela, os bastidores e os créditos também pertencem a nós. A gente não luta só por espaço, a gente luta por permanência e protagonismo”.

Luciano Quirino não fala apenas de papéis, mas de territórios conquistados à força de talento e persistência. Sua trajetória, que atravessa quase quatro décadas de um Brasil em transformação, é também um arquivo vivo da luta por visibilidade e pluralidade na arte. Ao olhar para trás, ele reconhece as trincheiras abertas pelos que vieram antes; ao olhar para frente, assume o papel de quem segue abrindo caminhos. Entre reprises, estreias e personagens complexos, o ator se firma como um narrador de muitas histórias — as suas, as de seu povo e as de um país que ainda aprende a se enxergar com verdade.