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Em dia de “Criança Esperança”, conversamos com o diretor Rafael Dragaud, que disse: “Nós, que temos o canhão da comunicação, temos que saber falar com as pessoas, mover corações”

O diretor, que assumiu o programa no ano passado – quando o “Criança Esperança” completou 30 anos – e mudou diversos elementos, destacou a liberdade que tem dentro da emissora: “A Globo acha importante que as pessoas tenham liberdade de falar o que pensam. Nunca fui censurado”

Publicado em 02/07/2016 | Por Karina Kuperman

Rafael Dragaud é o nome por trás do “Criança Esperança” e garantiu: o show, que vai ao ar nesse sábado, 2, é apenas parte de uma grande plataforma de mobilização. No ano em que completa 31 anos, a campanha da Globo com a Unesco, que atua na defesa dos direitos da criança e do adolescente, terá uma programação intensa com a missão de estimular o espírito solidário de qualquer espectador. O diretor, que está em seu segundo ano à frente do projeto, recebeu HT nessa sexta-feira, 1, nos Estúdios Globo, e, durante ensaios, listou o que mudou do ano passado para esse. “Antes, a gente tinha o compromisso com a ruptura da narrativa e, agora, isso já foi feito. Então é quase como se pudéssemos, dali, andar para frente, nos permitir certas ousadias”, destacou ele, que acredita que é papel da arte engajar as pessoas. “E esse é um desafio que eu considero fascinante, porque, de certa forma, penso nisso há mais de 20 anos. Existe uma questão que chamo de narrativa social, que é como você engaja e envolve as pessoas que não concordam com você. Todo mundo quer um mundo melhor. Então, por que ele não existe? É que temos valores, práticas e disposições diferentes. Não gosto de apontar o dedo, mas nós, que temos o canhão da comunicação, temos que saber falar com as pessoas, mover o coração na direção de certos valores para falar sobre assuntos que transformem nosso país. Existem questões de gênero, cultura do estupro e outros milhões de temas que o ‘Criança Esperança’ pode incorporar, mas temos que tomar cuidado, porque no fundo é uma grande festa”, explicou.

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Rafael Dragaud é o nome por trás do “Criança Esperança” (Foto: Reprodução/Bárbara Lopes)

E haja animação! “Tem muitos momentos legais que vocês vão ver no palco. O que posso adiantar é que vamos ter VTs provocativos que vão às ruas levantar questões, ao encontro da sociedade, ou de encontro a ela. Não é um povo fala, é mais complexo, dentro do show ao vivo”, contou ele, que, recordista de doações, sabe que 2016 é um ano complicado. “Mudamos a forma de pedir as doações. Na propaganda começa falando ‘0 é quanto você está pensando em doar para o ‘Criança Esperança’, ‘500 são os motivos que você tem para repensar, 2016 é por que é agora, tem gente precisando, e aí tem 7, 20 ou 40 reais, ou então na internet’. Sair de um lugar monárquico e falar um papo reto com a realidade do brasileiro, com a situação econômica como está, é fundamental. O projeto ‘Criança Esperança’ não é de arrecadação, é de solidariedade, mobilização e que também procura arrecadar pra criar uma rede de apoio para instituições escolhidas pela Unesco”, disse ele, que foi além: “Muitos conceitos estão se movendo ao mesmo tempo na sociedade, muitos acordos que passam pela escola, família, jornalismo, percepções, estão vencendo seus prazos de validade. Os conceitos que nos trouxeram até aqui estão caducando na sociedade. Que tipo de coisa se compartilha na internet, o que falar ou não pra um filho, tudo mudou ao mesmo tempo. O que antigamente era normal na forma de o ‘Criança Esperança’ ser feito, porque atendia aquele sistema de valores, foi, atualmente, migrando para algo mais contemporâneo. O ‘Criança Esperança’ dialoga com a sociedade, então, se os problemas são mutantes, o programa tem que ser também”, defendeu.

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Lázaro Ramos, Leandra Leal, Beatriz Azeredo, Marlova Jovchelovitch Noleto, Rafael Dragaud, Dira Paes e Flavio Canto (Foto: Reprodução/TV Globo)

E Dragaud tem liberdade de mexer no formato como quiser. “Eu trabalho na área de entretenimento, não sou um jornalista. Estou em um lugar da TV Globo onde as autonomias editorias e artísticas são muito respeitadas. Não estou dizendo das outras, porque eu não sei. Mas aqui, ao contrário da fantasia que muita gente tem, o artista, o diretor, o autor, tem muita autonomia para escrever o que quer. Não tenha dúvida de que autores de novela escrevem coisas que nem sempre a diretoria da emissora está de acordo – seja com encaminhamento do assunto ou nível de importância dado. Mas a empresa acha importante que as pessoas tenham liberdade de falar o que acham. Nunca fui censurado, isso não quer dizer que eu nunca tenha sido chamado pra explicar, porque o nome disso é divisão de responsabilidade. E é bom que exista, até porque não quero sequestrar a TV durante 70 minutos, seria extremamente irresponsável, até porque as consequências que podem vir, eu não aguentaria sozinho. Quero que meus pares estejam junto comigo para o que o ‘Criança Esperança’ precisa falar. Isso as vezes significa um trabalho de convencimento, sim (risos), explicou.

O diretor sabe que a Globo é “uma empresa feita com muitas pessoas que discordam entre si”. “Às vezes o povo vê a TV Globo como uma emissora com direção militaresca e eu não entendo isso como verdade. Temos uma liberdade muito grande de atuação, mais do que as pessoas gostam de ver do lado de fora. Eu não estou aqui para defender a Globo, estou falando do lugar onde estou. Consigo trabalhar com meus valores, liberdade e respeito. Estou aqui há 23 anos, nunca fui censurado e não sou exatamente um funcionário adequado”, disse. Adequação, aliás, não é uma palavra que ele goste. “Não acho elogio para ninguém, não entendo adequação como valor. Basta olhar para o mundo. Se você está feliz do jeito que está, tem algo errado em você. Esse sentimento de inadequação é elogioso”, analisou.

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Lázaro Ramos, Dira Paes, Rafael Dragaud, Leandra Leal, Beatriz Azeredo e Flávio Canto (Foto: Reprodução/TV Globo)

Afirmação que explica o porquê de suas inovações – e ele não foge de polêmicas. “A televisão é ingrata. Às vezes fazemos algo com pretensão de chocar o mundo e nada acontece, outras, fazemos com naturalidade e o povo se choca. Eu, na verdade, adoro polêmica. Fui formado por pessoas que, se a gente falasse essa palavra, era elogio. Roberto Talma, que foi muito importante na minha formação, dizia isso, e o que eu busco é impactar. Fazer algo que não faz diferença a vida de alguém é chato, a TV fica bege. Meu objetivo é que comentem no dia seguinte”, garantiu. Palavra de quem bateu recordes em 2015. “Na comemoração de 30 anos, tivemos o maior número de arrecadação em um ano que já era de crise, mas que, se colocarmos perto desse, parece brigadeiro. Mudei questões estruturais, não só narrativas. Tento modernizar a plataforma de doação, vamos atuando em tudo, não só em botar um programa na TV. Não tenho uma meta a bater, o que me foi cobrado é posicionamento, mobilização, reputação, criar agenda, pautar discussões na sociedade. Esta é a tarefa do projeto. E também arrecadar, para criar uma rede de apoio às instituições escolhidas. Em ano de crise, os patrocinadores fugiram do terceiro setor, que está abandonado todo dia. Nunca foi tão importante o dinheiro do ‘Criança Esperança’. Mas o mais importante é disseminar o espírito de solidariedade, que não é o forte do brasileiro”, disse.

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Lázaro Ramos, Leandra Leal, Beatriz Azeredo, Marlova Jovchelovitch Noleto, Rafael Dragaud, Dira Paes e Flavio Canto assistem Renato Aragão em “Diálogos da esperança” (Foto: Reprodução/TV Globo)

Pilotado por Dragaud, a inovação foi além. Renato Aragão deixou de ser mestre de cerimônias e Flávio Canto, Dira Paes, Lázaro Ramos e Leandra Leal viraram mobilizadores da causa. “Maldosamente falam de substituição do Renato. Mas, para mim, ele é personagem símbolo disso tudo. Ainda assim, eu sentia falta de personagens que representassem uma nova forma de estar na sociedade. O Renato faz parte do show e sempre fará. Temos que mostrar que, para viver em sociedade tem que ser atuante, participante. Olhei para o lado nas vivências sociais e acho que temos artistas que tangibilizam bem o perfil novo em que eu acredito, que estão atuando mesmo quando ninguém está gravando. Eu criei esse conjunto de mobilizadores e o Renato não tem nada a ver com isso porque ele é o símbolo de tudo”, explicou o diretor, que quer ir além: “Meu orgulho foi transformar um programa de TV em uma plataforma de solidariedade. Em vez de 70 minutos, que é o que o programa tem, temos a série no ‘Fantástico’, uma narrativa diferente que da conta de outros conteúdos, um debate na Globo News e a figura dos mobilizadores. No que depender do meu ânimo, essa plataforma vira um polvo cheio de braços”, garantiu.

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Rafael Dragaud posa entre os mobilizadores Flávio Canto, Dira Paes, Leandra Leal e Lázaro Ramos (Foto: Reprodução/TV Globo)

A grande ideia de Dragaud é “trazer quem não pensa como ele”. “Quero falar com quem ainda não concorda comigo. Quem já está no barco da preocupação social, qualquer bobagem que eu fizer no ‘Criança Esperança’, vai gostar”, analisou ele, que “toca na ferida, mas com amor”. “Saio da minha casa e, se uma moto passa do meu lado, fico desesperado. Não acho que o rapaz que pode me machucar é mau, ele é um vilão circunstancial. A sociedade se organizou de um jeito que a gente se choca. O grande vilão é a desigualdade no país. Sou a favor de colocar o dedo nesses assuntos de forma afetuosa”, explicou ele, que vai além: “Muita gente se pergunta ‘ah, mas o que a TV Globo tem a ver com essa história?’. Eu respondo: tudo. Na época de seca do Nordeste, há mais de 30 anos atrás, o Renato Aragão e o Boni criaram o ‘Nordeste já’, acharam legal ter prestação de serviços dentro da televisão. Desde então começamos e o papel da TV é, de fato, usar a potência e o alcance que tem para mobilizar a sociedade. Eu sou diretor artístico e uso ferramentas narrativas e técnicas para falar com o povo. É verdade que a emissora não tem expertise de administração de instituições, por isso, quem faz essa parte é a Unesco. A gente toca os corações”. Verdade.

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