*por Vítor Antunes
A teledramaturgia brasileira sempre esteve no centro dos debates culturais, e “Garota do Momento“, a novela das 18h exibida pela TV Globo, não fugiu à regra. Entre elogios e polêmicas, a trama ambientada nos anos 1950 vem sendo questionada pela abordagem de um relacionamento homoafetivo em outro contexto histórico. E nesta centralidade está o ator Elvis Vittorio, intérprete de Vinícius, e, na novela, namorado de Guto (Pedro Goifman). Para ele, a abordagem da questão da homossexualidade em uma novela vespertina e de época é fundamental. “É muito necessário estarmos retratando um relacionamento homoafetivo em uma novela das 6, que se passa em 1958. O amor, em todas as suas mais diversas formas, sempre existiu, e a trama vem construindo a descoberta e o relacionamento desses dois jovens de forma cuidadosa, sensível e delicada. É de suma importância retratar e dar voz à causa. Tenho recebido vários relatos de pessoas que se identificaram e que se sentiram encorajadas a serem elas mesmas graças à história que estamos contando. Isso é maior que qualquer coisa”.
Apesar da repercussão positiva entre parte do público, a novela também gerou questionamentos sobre um possível anacronismo na abordagem do tema, já que a sociedade da década de 1950 era notoriamente menos aberta à diversidade. Sobre essa crítica, Elvis argumenta: “Novela é uma narrativa ficcional, tem liberdade de desenvolvimento. O Vinícius, por exemplo, não foi nem um pouco aceito, foi expulso de casa e teve que sobreviver nas ruas sem amparo algum, já o Guto (Pedro Goifman), pelo contrário, felizmente teve uma aceitação maior por parte da mãe e do irmão”.

“Novela é uma narrativa ficcional, tem liberdade de desenvolvimento” (Foto: Divulgação)
A discussão reflete um ponto central do fazer televisivo: a teledramaturgia tem como função não apenas retratar a realidade, mas também estabelecer um diálogo entre passado e presente, promovendo reflexões que ultrapassam a rigidez dos registros históricos. Em meio a essas discussões, Elvis Vittorio fala sobre os desafios de atuar, especialmente para aqueles que, como ele, vêm do Espírito Santo, estado com grande efervescência cultural interna, mas carente de infraestrutura para o teatro profissional e de projeção para além de seus limites. “Não atuei profissionalmente no Espírito Santo, por exemplo. Mas reconheço que o estado como um todo tem uma riqueza cultural enorme, com artistas incríveis e grande potencial. O que se precisa é de mais polos artísticos, maior apoio e investimento em artistas locais e incentivo ao consumo da arte.”
A fala do ator ecoa uma necessidade premente no país: descentralizar a produção artística e fortalecer as expressões culturais além dos grandes eixos como Rio de Janeiro e São Paulo. No estado capixaba, por exemplo, não há nenhuma peça em temporada atualmente. Apenas dois grandes teatros estão ativos – o SESC Glória e o teatro da Universidade Federal do Espírito Santo (UFES) – e estes recebem apenas peças de turnê. Não há grandes companhias de teatro conhecidas nacionalmente, e os artistas capixabas acabam fazendo sucesso quando deixam a região – caso de Chay Suede e Elisa Lucinda.

“Reconheço que o Espírito Santo tem uma riqueza cultural enorme, com artistas incríveis e grande potencial” (Foto: Divulgação)
Essa realidade levanta questionamentos sobre a urgência de políticas culturais mais abrangentes, que incentivem a produção local e criem condições para que os talentos nativos consigam consolidar suas carreiras sem precisar buscar espaço em outros estados. Ator e cantor, tal como seu conterrâneo protagonista de “Mania de Você“, Elvis Vittorio já tem planos bem definidos. Após o encerramento das gravações de “Garota do Momento“, ele embarcará em mais uma turnê musical, desta vez atravessando o Mediterrâneo a bordo de um cruzeiro.
Essa diversificação de atividades artísticas é um reflexo do dinamismo dos profissionais do setor, que muitas vezes transitam entre diferentes formas de expressão para manterem-se ativos e em contato com o público. Por fim, o ator celebrou a histórica vitória do cinema nacional no Oscar, com o filme “Ainda Estou Aqui”, e expressou esperança por um novo ciclo de crescimento da produção audiovisual brasileira: “Espero que haja mais investimento e valorização das nossas próprias produções, das nossas histórias, dos nossos artistas e de todos que escrevem com tanta garra a história do cinema brasileiro.”

“Espero que, com o Oscar, haja mais investimento e valorização das nossas próprias produções” (Foto: Divulgação)
Com talento e engajamento, Elvis Vittorio segue construindo sua trajetória com convicção e paixão pelo ofício, equilibrando-se entre os desafios da dramaturgia, a defesa da inclusão na teledramaturgia e a esperança de um futuro mais promissor para a arte nacional. Em um país que respira cultura, mas que ainda enfrenta desafios estruturais para expandi-la, artistas como ele são fundamentais para fomentar o diálogo sobre a necessidade de um maior apoio às produções locais e à diversidade na representação audiovisual.
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