Eliza Telles encena Nelson Rodrigues no teatro e fala sobre a floresta: “A Amazônia é o Brasil que não querem ver”


Quarenta e cinco anos após a morte de Nelson Rodrigues, sua obra segue provocando o Brasil. A atriz Eliza Telles estrela a nova montagem de ‘Perdoa-me por me Traíres’, reafirmando a atualidade incômoda do dramaturgo. Cineasta e produtora, Eliza também investe em narrativas amazônicas e femininas pela Jamary Films. Para ela, o Amazonas é território de ancestralidade, resistência e magia, revelado por meio do protagonismo das mulheres. Eliza tem formado novos talentos na região, conectando arte e transformação. Entre Nelson e a floresta, sua obra é um grito por visibilidade e escuta profunda do Brasil invisibilizado

*por Vítor Antunes

Quarenta e cinco anos após sua morte, o Brasil segue sendo, nas palavras de muitos, “um moleque olhando o mundo pelo buraco da fechadura” – definição que parece saída diretamente da caneta de Nelson Rodrigues (1912-1980), um dos maiores dramaturgos da história do país. Em agosto, marca-se o aniversário de sua partida, e com ele a estreia de uma nova montagem de “Perdoa-me por me Traíres”, um de seus textos mais contundentes. A peça chega ao palco do Teatro Laura Alvim, no Rio de Janeiro, no dia 9 de agosto, com direção de Miwa Yanagizawa e a atriz Eliza Telles no papel de Glorinha. “A importância de montar e falar de Nelson Rodrigues 45 anos depois da morte dele é que ele revela exatamente a nossa sociedade, o nosso moralismo, e estampa isso na nossa cara. E acho que por isso ele ainda seja tão atual. Mesmo passando tanto tempo, elas continuam extremamente atuais e necessárias no dia de hoje”, afirma Eliza.

Às vezes eu escuto, escutando, ouvindo ou estudando o texto do “Perdoa-me por me traíres”, eu vejo o quanto ele ainda discute coisas que a nossa sociedade precisa ouvir e não quer ouvir. E às vezes por isso, talvez ele também ainda seja uma persona não grata. Nossa sociedade – Eliza Telles

A atriz tem trilhado uma carreira multifacetada. É também cineasta e produtora executiva, com passagens por teatro, cinema e televisão. No audiovisual, participou de séries como “Bom Dia, Verônica” (Netflix), “Não Foi Minha Culpa” (Disney+) e “Sessão de Terapia” (Globoplay). Natural de Campinas, Eliza transita entre o Rio de Janeiro, São Paulo e Manaus, unindo seus caminhos artísticos à pluralidade geográfica e cultural do país.

Eliza Telles em cena de “perdoa-me por me traíres”, que entra em cartaz do Laura Alvim (Foto: Divulgação)

AMAZÔNIDA

Um artigo da Universidade Federal do Pará escrito por Larissa da Silva Sicsú, Pedro Rapozo, e Neila Almeida dos Santos aponta o que seria o ethos amazônida. “Ser amazônida, ser caboclo, ribeirinho, indígena, ser gente”. Por meio da produtora Jamary Films, criada por ela, Eliza tem investido em narrativas amazônicas, periféricas e femininas — eixo central de sua atuação como realizadora. Para 2025, dois curtas-metragens estão em pré-produção, incluindo “YBI”, uma ficção distópica que imagina uma Amazônia desertificada. A proposta é provocar reflexões sobre ancestralidade, futuro e pertencimento. “Os meus filmes, o meu conteúdo, são extremamente voltados para as mulheres do Amazonas. Eu sou filha de uma paraense, mas fui criada no Sudeste, ainda com muitas coisas dessa ancestralidade. Acho que a oportunidade, né, de fazer filmes hoje que falam sobre o Amazonas é fundamental e importante para mim”, diz Eliza.

A artista também reflete sobre a maneira como o Norte do país — e a Amazônia em particular — são frequentemente reduzidos ao exotismo. “Eu acho que quando a gente pensa no Amazonas a partir do folclore, embora ele seja folclorizado de alguma forma, isso seja uma coisa ruim, ele é mágico e eu acho que isso nunca pode ser esquecido. A nossa cultura ancestral, ela é uma cultura mágica, ela é uma. É uma cultura do conhecimento ancestral, do conhecimento das plantas, do conhecimento das mulheres, do conhecimento das magias das mulheres, das benzedeiras”.

Eliza Telles acredita que Nelson Rodrigues é de importante debate contemporaneo (Foto: Priscila Nicheli)

Segundo ela, esse universo mágico e ancestral é a base para a estética fantástica de seus filmes. “Eu falo sobre o universo fantástico a partir do protagonismo feminino. Eu sou apaixonada por essa cultura. Ela revela muito sobre mim. Ela é necessária para mim e ela tem que ser valorizada. E eu acho que uma coisa muito mágica do Amazonas é a força dessas mulheres, que muitas vezes são arrimo de família, que muitas vezes perderam os seus maridos para irem para os garimpos, para irem para trabalhos e estão ali sozinhas cuidando dos filhos, e avós que cuidam dos filhos. E os meus filmes retratam exatamente isso”.

Eliza defende que é preciso olhar para a floresta com outros olhos — especialmente os das novas gerações. “E isso de uma forma mágica, de uma forma muitas vezes a partir da criança. Eu falo muito nos meus filmes sobre o jovem como a jovem. Uma revolução, com uma potência de revolução e eu realmente acredito nisso, no jovem como renascimento, como cuidar, como olhar para dentro dessa floresta, floresta que está sendo cada dia mais devastada, mais destruída e que tem que ser por nós olhado e a gente tem que trabalhar a partir das nossas crianças o como voltar a proteger e salvar essa natureza, como não explorar a partir da degradação, mas sim explorar o que ela tem de rico, o que ela tem de potente, o que ela tem de medicinal, o que ela pode trazer de cura”.

Eliza Telles: “Ela revela muito sobre mim” (Foto: Priscila Nicheli)

Há cinco anos, ela vem consolidando esse trabalho na região: “Além de fazer muitos filmes no Amazonas, também já dei muitas oficinas no Amazonas. Eu já venho, nesse tempo, formando novos atores, novos atores mirins, novos atores adultos. Isso é muito especial e importante para mim: mostrar um Brasil real, que às vezes a gente… que a gente não quer olhar, que às vezes a gente não quer ver, mas que é tão potente, é tão mágico, que para mim é tão importante. E a Amazônia, ela fala por si só o tamanho do poder que ela tem”.

Ao trazer para o palco um texto tão incômodo e revelador como “Perdoa-me por me Traíres”, Eliza Telles reafirma sua inquietação artística. Seja nas tramas rodrigueanas ou nas fábulas contemporâneas da floresta, ela investe no poder de revelação da arte — uma arte que não apenas espelha o país, mas questiona suas feridas mais profundas.