Edson Celulari revela bastidor da estreia como diretor de cinema e critica arquivos apagados de novelas em que atuou


O ator prestes a completar 50 anos de carreira na televisão, construiu uma trajetória que atravessa emissoras, formatos e gerações, sem deixar de lado o teatro e o cinema. Aos 67 anos, dedica-se a novos projetos, como um filme espírita em que interpretará Emmanuel e uma série sobre a construção de Brasília, sob a ótica dos candangos. O ator também reflete sobre a fragilidade da memória cultural brasileira, lembrando novelas em que atuou perdidas e acervos destruídos. Em sua vida pessoal, a convivência com a mãe de 90 anos e a filha pequena fortalece sua visão sobre memória e continuidade. Sereno, afirma não se sentir limitado pelo tempo e mantém o desejo de dar vida a grandes papéis, de Shakespeare a Graciliano Ramos

*por Vítor Antunes

Um nome que se consolidou na televisão brasileira, muito além do rosto bonito que estampou capas de álbuns de trilhas sonoras e protagonizou novelas. Edson Celulari, 67 anos, está às vésperas de completar 50 anos de carreira apenas na TV – 42 deles na Globo -, uma trajetória que atravessa emissoras, formatos e gerações. “Recentemente dirigi o filme “Área de Risco”, primeiro exercício como diretor, diante de outra perspectiva, após estar quase 50 anos trabalhando como ator. Nesse trabalho, atuei enquanto dirigi e é uma dureza”, confessa. Sobre as novas empreitadas, ele revelou em primeira mão que dará vida ao espírito Emmanuel, que esteve presente na atividade mediúnica de Chico Xavier (1910-2012) em um filme de temática espírita, além de desenvolver uma série sobre a construção de Brasília.

“Estou fazendo um projeto do ponto de vista dos operários. O longa vai contar com a produção do meu filho, Enzo Celulari. Esse momento histórico do Brasil, em particular, já foi muito mostrado pelo ponto de vista do poder, do Juscelino Kubitschek (1902-1976), das séries, mas nunca do ponto de vista dos candangos. Inédito e muito rico, porque é um encontro de tantos brasileiros vindos de todos os lados do país. A construção obviamente tinha o sonho do Juscelino, mas se não fossem esses operários sonharem o sonho dele, Brasília não teria saído do papel.”

Edson Celulari passa pela maturidade com sabedoria (Foto: Dani Badaró)

A estreia de Celulari nas novelas foi em “Salário Mínimo” (1979), de Chico de Assis, exibida pela TV Tupi. Ali, também participou de “Gaivotas”. Em 1980, já na Globo, integrou o elenco de “Marina”. Essas primeiras experiências, no entanto, carregam uma dimensão de perda. A história da televisão brasileira não cuidou de preservá-las devidamente. “Salário Mínimo”, com 162 capítulos, tem apenas nove preservados. De “Gaivotas”, perdeu-se apenas um episódio entre 131. Já “Marina” foi quase totalmente apagada: dos 137 capítulos, apenas seis resistiram. “Que pena saber disso [que Marina foi apagada]. Lembra que  há poucos anos o museu pegou fogo. O Brasil tem um certo descuido. Preservar memória custa empenho econômico. Isso é uma memória curta, uma memória pálida. Falar que ‘pegou fogo num museu’ é uma crueldade. Ou que tal novela se perdeu por ser mal acondicionada é uma loucura”.

Depois de inúmeras produções em quase todos os principais canais do país, o ator decidiu desacelerar o ritmo no meio que o consagrou, sem, contudo, abrir mão de novos desafios. “Para novela, eu estou sempre disponível. Eu recebi algumas propostas que não me interessaram, também não podia, mas eu adoro fazer novela. O meu ritmo agora é outro. “A realidade em que eu vivo hoje é bem mais ampla, mais complexa do que a que eu vivia apenas como ator – ainda que eu continue sendo ator. Agora estou também como ator no cinema ator, só que produzindo as minhas ideias. Eu sempre fiz isso em teatro e produzi os meus espetáculos”.

A gente vive não só um desleixo com relação a isso, como a de uma deturpação do passado, da memória. E isso não é no mundo todo. A gente tem que responder a esse movimento com maior apego, com responsabilidade, com as memórias – Edson Celulari

Edson Celulari e Cristina Mullins no primeiro capítulo de “Gaivotas” (Foto: Reprodução/Cinemateca)

Esse senso de preservação também aparece em sua vida pessoal. A mãe de Celulari, dona Enoy, de 90 anos, acaba de se mudar para a casa do ator, no Rio. “Ela mora conosco há poucos dias. Ela está com 90 anos e a preciosidade de ouvi-la falar ou dela pegar umas fotos e relembrar, não é só afetivo. Isso faz parte de mim também, mas é mais do que isso. É um contexto familiar e um contexto social. É um ponto de vista que me enriquece. Vai enriquecer os meus filhos, está enriquecendo e vai enriquecer mais ainda a minha atual filha de 3 anos”.

Hoje, aos 67 anos, Celulari fala com serenidade sobre amadurecimento e sobre o lugar do idoso na sociedade brasileira. “A questão da terceira idade, acho que há uma falta de respeito. Há uma falta de espaço para a terceira idade e, especialmente, uma tirada de voz dessas pessoas. Somos um país em que a população de terceira idade hoje está muito maior do que já foi, e estará maior ainda, será a maioria daqui a pouco. E a memória é fundamental para qualquer história, de qualquer país, de qualquer cultura”.

Sobre os efeitos da passagem do tempo, ele é pragmático, sem deixar de lado a leveza. “Eu começo a sentir um peso maior físico, já dói um pouquinho mais na lombar, na cervical. É um conjunto de coisas: a sua alimentação, a atividade física e  a sua parte afetiva, familiar. A sua socialização também. O que eu ganho a cada dia vivendo nesse estágio da minha vida é um convívio inteligente. É preciso, também, ter maturidade, aprender a pedir desculpas, ter inteligência emocional para socializar melhor, para ter empatia, para aceitar o outro, olhar o outro. Cada vez mais, na terceira idade, se você ficar ali no seu núcleo, com muros enormes, com carro blindado… você não convive com a sua cidade, com as pessoas que moram nessa cidade e profissionais que cercam o seu segmento”.

Edson Celulari acreditar ser um desleixo que bens materiais e imateriais se percam (Foto: Dani Badaró)

UM ARTISTA BRASILEIRO

Dos quase 50 anos de carreira, Edson Celulari passou 42 sob o guarda-chuva da TV Globo. Uma ligação duradoura que não o impediu de cultivar, em paralelo, projetos no cinema e no teatro. “Durante todo esse tempo, eu sempre realizei os meus projetos fora da televisão, seja cinema ou teatro. E agora eu tenho contratos eventuais, o meu tempo está inteiramente projetado para isso, para poder realizar com maior intensidade os meus projetos, inclusive no audiovisual”.

Na memória de Celulari há também experiências singulares. Logo após o estrondoso sucesso de “Que Rei Sou Eu?” (1989), foi — em suas próprias palavras — “cedido” à dramaturgia do SBT, na tentativa da emissora de consolidar um núcleo de novelas. Coube a ele protagonizar “Brasileiras e Brasileiros” (1990), que, apesar do elenco estrelado, acabou considerado um fracasso. “Minha passagem pelo SBT foi uma aposta de que o Silvio Santos queria montar um núcleo mais forte, porque ele era bem sazonal, sempre foi, com novelas. E aí o Walter Avancini (1935-2001) veio com essa proposta e resolveu co-escrever a trama ao lado do Carlos Alberto Soffredini (1939-2001). A realização não foi o que todos nós esperávamos. Foi uma pena, mas foi uma tentativa de reforçar um núcleo de teledramaturgia no SBT. Eu tenho o maior orgulho disso e de ter trabalhado com Avancini, que era um diretor com quem eu queria muito trabalhar”.

Edson Celulari em “Brasileiras e Brasileiros” no SBT (Foto: Reprodução)

Recentemente, a reexibição de “Plumas e Paetês”, no Globoplay Novelas, reacendeu lembranças em torno de sua trajetória, embora o ator confesse não rever suas produções. “Eu particularmente vejo muito pouco. Mas eu acho que tem uma importância histórica. Esses trabalhos devem ser vistos. Quem fez, quem já tinha assistido ou quem está assistindo pela primeira vez… é o tempo. O tempo estabelece um conceito da época em que foi feito. Há de se treinar o olhar para não sofrer. Eu pouco vejo do meu trabalho e de colegas. Tem momentos que eu me emociono, não só pela cena, mas pela realidade da época. Eu também não tenho uma vontade de saudosismo de ver.”

Entre as passagens mais intensas de sua carreira, ele recorda a série “Decadência” (1995), de Dias Gomes (1922-1999), na qual interpretou o pastor Mariel, um personagem que beirava o escândalo ético. “Eu tive que fazer uma pesquisa oculta. Ia a alguns encontros nessas igrejas, pesquisava disfarçado, com seguranças da Globo, e depois me surpreendi com o resultado na época da estreia. Esse foi o trabalho mais polêmico, sem dúvida alguma, que eu já fiz na televisão, porque causou uma discussão mais acalorada. A série foi ao ar na mesma época em que houve o chute a uma santa, transmitido pela TV.”

“Houve uma vez em que eu estava em cartaz com uma peça na Brigadeiro Luís Antônio, e fiéis de uma igreja próxima ao teatro jogavam dezenas de bíblias à noite no saguão, junto com jornais. Em um deles, havia uma foto minha desenhada como um demônio. Cheguei a ficar assustado, mas não passou disso. Acho que esse é um exemplo, 30 anos depois, de uma temática que continua muito viva. Recentemente um líder religioso foi flagrado em uma ligação, e isso gera o questionamento: é um líder, com esse vocabulário, com essas intenções, com esse tom? Então eu acho que este é um trabalho de 30 anos de vida que continua com uma temática muito viva – Edson Celulari

Edson Celulari em “Decadência”, de 1995 (Foto: Reprodução/Globo)

Aos 67 anos, o ator não se considera limitado pelo tempo. “Não há papel que eu tenha querido fazer e não fiz. Mas ainda há muitos que posso interpretar. Acho que tem Graciliano Ramos, temos Esperando Godot, tem o Rei Lear ou qualquer outro texto do Shakespeare que eu possa fazer em teatro. O Brasil é um livro de possibilidades imenso, de personagens incríveis, de momentos históricos e não históricos, de situações políticas e não políticas, de vitórias, de derrotas. É um universo tão amplo. Se deixei de fazer alguma coisa que eu queria, ainda poderei realizar. Isso me dá esperança.”

Na lembrança dos tempos de estudante na ECA-USP, há também o convívio com colegas que viriam a se tornar grandes nomes da cena nacional, como Lilia Cabral. Celulari lembra com afeto a rotina no trajeto até a faculdade. Perguntado se aquele jovem Edson poderia imaginar a dimensão da carreira que teria, ele responde com simplicidade e lucidez: “A diferença que eu vejo entre aquele Edson… é claro, as idades são outras, o tempo é outro, o cabelo é outro, o corpo é outro, o pensamento é outro, amadureceu. A vida me ensinou, eu sou um homem mais sapiente hoje do que fui. Mas onde eu vejo aquilo que preservei são os sonhos, a vontade de trabalhar, o gosto pelo trabalho coletivo. Eu acho que isso eu já tinha lá e preservei, porque faz parte da minha essência. E isso eu cuido, é uma coisa que eu não quero perder até os meus 150 anos, pelo menos”.

Edson Celulari: “Quero viver até os meus 150 anos” (Foto: Dani Badaró)

A travessia de Edson Celulari é, em si, uma metáfora do ofício do ator: feita de permanências e reinvenções, de memórias apagadas e de lembranças que resistem, de sucessos consagrados e experiências arriscadas que também moldam um artista. Aos 67 anos, ele fala de futuro com a mesma nitidez com que reconhece o passado, preservando sonhos como quem preserva um território íntimo e coletivo. Entre Shakespeare e Graciliano Ramos, entre Brasília e Emmanuel, entre a memória de sua mãe e a inocência da filha pequena, Celulari parece continuar a se mover no espaço onde vida e arte se confundem. E é nesse lugar, tão vasto quanto o Brasil que ele insiste em narrar, que sua trajetória se revela não apenas como carreira, mas como herança viva.