Lorena Comparato volta em ‘Rensga Hits’, vive Elize Matsunaga no streaming e sonha fazer peça assinada por seu pai


Atriz vive um momento intenso na carreira, transitando com naturalidade entre teatro, cinema e streaming. Filha do roteirista Doc Comparato, carrega a herança artística com orgulho e responsabilidade, sem abrir mão de construir sua trajetória pelo próprio trabalho. Em Rensga Hits, destaca-se com a personagem Gláucia, em uma trama que valoriza a cultura sertaneja e a força feminina. No cinema, encara o desafio de interpretar Elize Matsunaga em Uma Garota de Classe, reforçando sua versatilidade. Seus projetos revelam uma artista inquieta, dedicada a contar histórias que refletem a pluralidade cultural do Brasil.

*por Vítor Antunes

Em seus tempos áureos, a TV Manchete ostentava com orgulho o slogan “O Brasil que o Brasil não conhece”. Era mais do que uma frase de efeito: uma declaração de intenções. Na virada dos anos 1980 para os 1990, a emissora ousou revelar o país profundo em produções icônicas como “Pantanal”, “Amazônia” e “A História de Ana Raio e Zé Trovão”. Décadas depois, a Globo parece revisitar esse caminho, agora com outra estética, mas a mesma ambição: contar histórias que nascem longe dos centros urbanos do Sudeste. Regravou “Pantanal”, está no ar com Renascer e lançou a série Rensga Hits”, cuja própria escolha do título – ao usar a expressão tipicamente goiana “rensga” – reafirma o interesse em aproximar o público da diversidade cultural brasileira.

Ainda assim, para Lorena Comparato, o olhar para o interior do país ainda carece de maior profundidade. “ Por muito tempo o interior, o norte-nordeste do país foram tratados pejorativamente, especialmente pelo Sudeste e pelo Sul. Infelizmente esse movimento de falta de valorização da própria nação só enfraquece o nosso país. De alguns anos para cá, o interior tem sido tratado com mais respeito, porém o Brasil todo merece sua devida atenção. Quanto mais as regiões se excluem, mais fraco o nosso país fica e abre precedentes para outros países detonarem a gente. Somos um povo forte, com uma terra firme. Temos coragem, o que nos falta é união! Olhar para o nosso país com bons olhos e orgulho faz com que a gente cresça cada vez mais e o dinheiro não está mais centralizado no sudeste, tá espalhado pelo país. Quanto mais histórias de todas as áreas a gente ver na TV, mais a gente valoriza o povo. Sou muito a favor de um entretenimento plural e inclusivo que possa mudar a visão das pessoas para vivermos num país cada vez mais poderoso e unido. Eu sou criada em cidade grande, mas meu coração é do interior e se eu puder sonhar, é para lá que eu vou para descansar”.

O Brasil está começando a entender que ele tem que se valorizar. Somos um dos melhores países para se viver do mundo, independente de muitas melhorias que podemos ter. O Brasil é único e apaixonante, um dos países mais completos, repletos de fauna e floras únicas, com abundância de água, vegetação e alegria – Lorena Comparato

Lorena fala com a autoridade de quem cresceu em uma casa onde a arte não era apenas uma profissão, mas uma presença constante. Filha do roteirista Doc Comparato, um dos nomes mais respeitados da teledramaturgia brasileira, ela carrega um sobrenome que carrega peso, história e expectativa. “Meus pais tiveram grande influência na minha formação. Acho que o principal foi que eles sempre me incentivaram muito a estudar e não me deixaram ser atriz mirim. Eles enfatizavam que se a minha formação educacional fosse feita com calma e qualidade, isso iria me ajudar futuramente. Eles estavam certos, mas eu neném amaria ter feito muitos trabalhos. Hoje agradeço demais os meus pais por terem sido tão visionários. Minha mãe, Leila Mendes, é na minha opinião uma das maiores fonoaudiólogas do Brasil. Trabalha na Globo em muitas novelas e séries e tem um trabalho incrível com sotaques e composições de personagens através da voz. Eu e minha irmã Bianca, ambas atrizes, aproveitamos demais a facilidade que é ter um privilégio desses em casa. Tenho certeza que os meus pais têm muito orgulho da gente, eles falam isso sempre, mas acho que por medo da instabilidade do mercado do entretenimento, meu pai Doc Comparato, roteirista de muitas séries e peças de teatro, que fizeram muito sucesso, teve medo de seguirmos na carreira artística”.

Ela prossegue: “Eu e minhas irmãs temos muito orgulho do legado deixado pelo meu pai. Bianca já montou uma peça adulta dele chamada lição n18 e eu um infantil baseado em seu livro “Nadistas e Tudistas“. Agora preparamos um novo projeto que, possivelmente, vai unir as três filhas, eu, Bianca e Fabiana, nossa irmã cientista política de formação, poetisa e produtora cultural. Nosso sonho é montar o espetáculo “O Beijo da Louca“. Além disso, sinto que a convivência com o meu pai me inspirou muito a escrever. Os nossos pais nos incentivaram sempre a consumir arte, a cuidar da saúde e cuidar dos afetos. Sobre o retorno de Doc, ele está sempre escrevendo. Tem muitos projetos à disposição dos artistas, um site com todo seu material e muita vontade de conseguir realizar seus projetos. Recentemente ele ganhou um prêmio na ABRA, a associação Brasileira de roteiristas e deu gosto de ver o carinho que as pessoas têm com ele. Nós, filhas, adoraríamos que ele descansasse, mas se o que ele gosta mesmo é trabalhar”.

Lorena Comparato é filha de Doc Comparato, um dos maiores roteiristas no Brasil (Foto: Jorge Bispo)

Para quem conhece o livro “Da Criação ao Roteiro”, referência obrigatória para roteiristas e estudantes de audiovisual, Doc Comparato dispensa apresentações. Médico de formação, adotou o apelido artístico como uma brincadeira com o título de “doutor”, mas sua trajetória o consolidou como mestre de dramaturgia: foi ator de “Lampião e Maria Bonita” – a primeira minissérie da Globo – e um dos autores de “Malu Mulher”, obra seminal da teledramaturgia nacional. Escreveu ainda roteiros de cinema e novelas, além de colaborar, em 2008, com Tiago Santiago na saga “Mutantes”. Desde então, está afastado das novelas, mas seu nome segue reverenciado em qualquer conversa séria sobre televisão.

Esse diálogo constante com o pai moldou seu olhar sobre a dramaturgia. “Tenho certeza que ter o sobrenome que tenho e vinda da família de onde venho, me trouxe vantagens. Só de ser de uma família de artistas, que valorizam a arte e incentivam seus filhos a consumi-la, já me sinto impactada. Porém o nome, principalmente o Comparato, traz um prestígio artístico em conjunto dele. Vivemos no mundo que a indicação é tudo, então, por muitas vezes, o círculo de amizades dos meus pais e da minha família me trouxeram benefícios sim, ao mesmo tempo que nunca tomei isso como garantia”.

Nunca consegui um papel por ser filha de quem sou, conseguia oportunidade de testes, conhecia pessoas que poderiam me ajudar, porém tenho total consciência de que se não fosse a minha obstinação pelo meu trabalho, eu não estaria onde estou. Me sinto muito grata e ter esse sobrenome não é algo que eu possa mudar, mesmo podendo escolher usar outro, usei o que me foi dado e tento seguir com compromisso e o máximo de esforço pela responsabilidade que é vir de uma família de artistas (…), inclusive meu pai sofreu muito como artista, com direitos autorais e projetos descontinuados””- Lorena Comparato

FUTURO E PASSADO

A atriz Lorena Comparato vive um momento fértil na carreira, transitando com naturalidade entre televisão, teatro e cinema, sem perder de vista projetos autorais e novos desafios criativos. No streaming, ela se destaca com a personagem Gláucia, em Rensga Hits, produção original do Globoplay que conquistou o público ao unir humor, drama e uma trilha sonora enraizada na música sertaneja. Agora, com a nova temporada no ar, Lorena antecipa o que os fãs podem esperar. “Essa nova temporada de Rensga Hits vem com uma densidade e uma maturidade sem perder a essência tragicômica musical dessa série tão amada pelo Brasil. Muitas revelações que foram abertas na segunda temporada são solucionadas nessa de agora e, ao mesmo tempo, novas dinâmicas entre os personagens que a gente já conhece. Gláucia e Raíssa (Alice Wegmann) se veem totalmente sem chão depois da morte do pai no primeiro episódio e essa temporada é uma viagem pela relação das duas tentando se entender e se respeitar nas diferenças. A relação das irmãs é a grande história de amor de Rensga Hits. Gláucia se torna empresária e foge dos palcos, mas a dúvida que fica é se ela aguenta muito tempo sofrendo calada e solitária. É, realmente, imperdível”.

Para além da série, Lorena se prepara para uma transformação radical em Uma Garota de Classe, longa-metragem que revisita a trajetória de Elize Matsunaga, mulher condenada por assassinar e esquartejar o marido, o empresário Marcos Matsunaga. Interpretar uma personagem baseada em uma história real de tamanha repercussão exigiu da atriz um mergulho emocional profundo. “É uma responsabilidade muito grande interpretar um filme baseado em fatos reais e numa história tão densa. Foi um processo muito desafiador, e quero muito que o público me veja em um lugar onde ainda não me viu. Foram meses de preparação com uma equipe e um elenco magistral e, agora, fica a espera pelo lançamento, que deve demorar um pouquinho, mas em breve chega para o mundo todo ver”.

Lorena Comparato está em filme que revive Eliza Matsunaga (Foto: Jorge Bispo)

Em “Rensga Hits”, uma das marcas da narrativa é a valorização de vozes femininas no universo sertanejo, um gênero historicamente dominado por homens. Lorena reflete sobre esse florescimento. “Acho que quando a gente fala do florescimento de mulheres em uma área específica a gente também precisa falar sobre o apagamento e a falta de oportunidade. Seja qualquer minoria, que muitas vezes é a maioria, o movimento e a presença feminina em muitas áreas sociais sempre existiu, mas era ignorado. As ondas do feminismo acontecem porque a sociedade permite essa visibilidade em certos momentos, como um pêndulo e cada vez que isso acontece temos mesmo que comemorar. Demorou para as mulheres terem muita visibilidade no sertanejo, mas, ao mesmo tempo, houve uma mudança na aceitação do sertanejo de uma forma geral. Com essa abertura de olhar, as mulheres foram ganhando mais força e lançando moda até em indústrias super machistas, como a da música e do sertanejo. O feminino está se valorizando cada vez mais, estamos acordando para entender que estamos cansadas de sermos reprimidas, ignoradas e violentadas. A arte para mim é uma grande representação de movimentos políticos, afinal, tudo é política. E nós temos na música brasileira grandes nomes femininos, sempre tivemos. De diferentes vozes, formas, discursos e essa pluralidade é apaixonante e muito rica para o nosso país e mundo. Sou MUITO fã das mulheres do sertanejo, me apaixonei tarde por sertanejo e hoje em dia não vivo sem. A maioria das músicas que eu escuto são de mulheres deusas como Marília Mendonça, Maiara e Maraisa, Simone, Ana Castela e tantas outras”.

A agenda de Lorena reflete a multiplicidade de uma artista inquieta. Ela está em cartaz com a peça “Bonitinha, Mas Ordinária”, clássico de Nelson Rodrigues dirigido por Bruce Gomlevsky. “Neste momento, estou em cartaz com Bonitinha, Mas Ordinária no SESC Santo Amaro. Feliz de estar fazendo um texto de Nelson Rodrigues, com direção de Bruce Gomlevsky e um elenco muito apaixonante. Eu estava com saudade de subir nos palcos e o Bruce foi um grande incentivador da minha volta. Fiquei anos sem fazer teatro, mas desenvolvendo alguns projetos que ainda não consegui realizar. Senti muita falta e acho importante essa frequente volta aos palcos. O teatro tem uma magia do presente que eu levo comigo nos meus outros trabalhos, mas que só a presença do público e a efemeridade das apresentações tem. Acho que num futuro próximo teremos um projeto das irmãs Comparato, um solo e possivelmente uma nova peça da Cia de 4. Um grande desejo meu também é começar a dirigir mais projetos e talvez isso seja uma realidade em breve”.

O palco é um lugar onde me sinto muito viva, é um exercício intenso, diário e visceral da nossa profissão. Um grande desejo meu também é começar a dirigir teatro. Tenho me aproximado desse universo, estudado e amadurecido ideias. Espero em breve poder unir atuação e direção no palco – Lorena Comparato

Lorena Comparato: “O palco é onde me sinto viva”(Foto: Jorge Bispo)

Lorena Comparato é um retrato de uma geração de artistas que não se contenta com caminhos previsíveis: transita entre a TV aberta e o streaming, do teatro às telas de cinema, sem perder a inquietação criativa que a formou dentro de casa. Filha de um mestre que ajudou a escrever a história da teledramaturgia, ela parece ter herdado não apenas o talento, mas o senso de responsabilidade de quem entende a arte como legado e ofício. Suas escolhas apontam para um Brasil mais diverso, múltiplo e profundo, onde personagens femininas deixam de ser coadjuvantes e passam a conduzir narrativas. Em tempos de velocidade e excesso, Lorena cultiva o gesto de quem mergulha fundo em cada personagem e se recusa a ser apenas mais um rosto em cena — uma atriz que não interpreta apenas papéis, mas traduz o país que insiste em revelar.