Dudu Pelizzari desabafa sobre amores e feridas e explica por que segue solteiro, longe da imagem de galã “sem camisa”


“Sou um cara comum. Às vezes transmito uma imagem diferente, especialmente porque me colocam muito sem camisa nas novelas, existe um certo apelo fetichizado. Sou simples, embora intenso”, afirma o ator conhecido do grande público desde “Malhação”, e que reforça hoje sua presença na TV com papéis em “O Senhor e a Serva” e “Paulo, o Apóstolo”, na Record, enquanto se prepara para o remake de “Dona Beja”, na HBO. Após tropeços em produções como “Negócio da China”, consolidou sua formação no Teatro Oficina, experiência que transformou sua vida. Aos 40 anos, entre fé, criação e maturidade, afirma encontrar na espiritualidade e no filho a força que guia sua trajetória

*por Vítor Antunes

Para o grande público, Dudu Pelizzari surgiu durante “Malhação”, assim como boa parte dos atores de sua geração. Mas sua trajetória já estava consolidada anos antes, com trabalhos relevantes. Depois da novela teen, passou por “Dance Dance Dance”, uma produção pouco lembrada da Band, e enfrentou outro tropeço em “Negócio da China”. Em seguida, retornou às raízes do teatro, trabalhou com Zé Celso Martinez Corrêa (1937-2023) e reforçou o compromisso com seu ofício. Agora, pode ser visto como “Caius” em “O Senhor e a Serva” e também em “Paulo, o Apóstolo”, na Record. Em breve, estará no remake de “Dona Beja”, da HBO Max, recriação do clássico da Manchete. A intensa movimentação profissional contrasta com a vida íntima, já que o ator está solteiro. “Sou um cara comum. Às vezes transmito uma imagem diferente, especialmente porque me colocam muito sem camisa nas novelas, existe um certo apelo fetichizado. Sou simples, embora intenso. Quando conheço alguém, gosto de viver aquilo profundamente.

Gosto do estado de estar apaixonado. Me preocupa essa descartabilidade das relações. Acho que quando a gente se consome e se deixa consumir o tempo todo. Isso revela algo interno, existencial. Por isso escolho com muito cuidado as pessoas com as quais vou me relacionar — e, quando escolho, vou até o fim. Gosto de experimentar e ser experimentado, viver com presença. O mundo está tão descartável que olhar nos olhos e escutar alguém virou algo raro e precioso. Então valorizo demais isso. Quanto a um novo relacionamento, estou tranquilo: deixo a vida me levar. Minha prioridade hoje é meu filho – Dudu Pelizzari

Dudu Pelizzari está solietrio: “Deixo a vida me levar” (Foto: Pablo Alcantara/Grotto)

A fala sobre o filho, porém, revela um outro registro: “A paternidade trouxe uma cura muito profunda para mim. Meu pai não me viu crescer. Ele trabalhava muito e foi um pai ausente — uma ausência com presença. Cresci com essa ferida. Sempre quis curar essa relação sendo um bom pai, sendo o pai que eu não tive: jogar bola, estar junto, compartilhar momentos. E Deus foi tão bom que não só me deu um filho maravilhoso, como fez meu filho ser completamente apaixonado pelo meu pai — e meu pai, completamente apaixonado por ele. Isso nos aproximou. Deu ao meu pai uma segunda chance de ser pai. Quando estou no Rio, é ele quem busca meu filho na escola; o Ben ama dormir na casa do avô. Meu pai foi comigo ver jogo de handebol recentemente. Esse vínculo curou algo profundo em mim. A paternidade me deu mais amor, mais conexão com meu próprio lugar infantil, que talvez estivesse adormecido, e transformou também minha relação com meu pai. Era algo que precisava ser curado.”

É natural perceber que o tempo passa e que deixamos coisas para trás. Mas penso muito mais no que ainda está por vir. Tenho 40 anos, trabalho com o que amo, tenho um filho maneiro, conquistei meu primeiro apartamento — talvez eu seja o primeiro da minha família a comprar um imóvel próprio, porque venho de uma família simples. Também perdi amigos no caminho, gente que morreu cedo. Então encaro a vinda dos 40 com otimismo. Se eu chegar aos 80, já está ótimo — e, quando chegar, vou querer mais uns quatro, cinco anos. Quero ter tempo de ver meu filho crescer, me tornar avô – Dudu Pelizzari

Dudu Pelizzari: “Meu pai era uma presença ausente” Pablo Alcantara/Grotto)

CHINA-PORTUGAL-ISRAEL

Dudi Pelizzari dá vida a um dos papeis protagonistas de dois trabalhos de época na Record, “O Senhor e a Serva” e “Paulo, o Apóstolo“. Segundo ele, estar nesses dois trabalhos é profundamente desafiador. “Algumas passagens bíblicas precisam ser seguidas à risca. Eu nunca tinha feito um personagem que exigisse tantas narrativas, tantas citações e tantas referências textuais. O que tento é contemporaneizar a interpretação sem perder a linguagem épica. Busco uma embocadura mais contemporânea — não desleixada — porque gosto do desafio. É como trabalhar Shakespeare: existe uma dimensão épica, mas sempre é possível aproximar do cotidiano. Quanto mais conseguimos tornar o vocabulário acessível, mais o público se conecta.”

“Por ser um homem controverso, eu visto a camisa do personagem e não me limito a pensar em mocinho ou vilão. Acredito que todo vilão tem um lado bom e vice-versa. No Caius, enxergo muito do homem contemporâneo, especialmente em suas dores e frustrações. Ele perde a esposa — a mulher que amava, mãe de suas filhas — e tenta ocupar o vazio existencial com outras mulheres, o que o homem moderno faz com frequência: cobre a dor com prazeres imediatos, com bebida, droga, festa, dinheiro, trabalho ou relacionamentos. Em vez de olhar para a própria dor, ele tenta anestesiá-la. Vejo o Caius como um exemplo desse homem que evita encarar suas próprias feridas e prefere abafá-las da forma que consegue.”

Ele fala sobre como o convite surgiu: “A Christiane Cardoso, que me viu interpretando Abner em Reis, gostou do meu trabalho e me deu essa oportunidade. As gravações duraram três meses, antecedidas por mais três meses de preparação. Esse período foi essencial para criar intimidade com o elenco, com as atrizes que fazem minhas filhas, com a família do personagem e com meu par romântico. Fui muito bem amparado e cheguei ao set completamente apropriado do personagem, da história e do propósito por trás dela.”

O ator diz que seu personagem, nas tramas bíblicas tem elementos contemporâneos (Foto: Pablo Alcantara/Grotto)

Dudu, porém, participou de uma novela marcada pelo insucesso: “Negócio da China”, a única experiência de Miguel Falabella no horário e uma das audiências mais baixas da faixa. Segundo o ator, o que permaneceu daquele trabalho foram as amizades — e a curiosa salada étnica proposta pela trama: “Foi uma novela que reuniu o núcleo português com o núcleo de kung fu. Eu interpretei um personagem de uma família muito interessante, formada por muitos atores de teatro. Durante a preparação, tivemos aulas de kung fu — eu, Thiago Fragoso, Raoni Carneiro — e isso acabou criando uma atmosfera amistosa desde o início, o que considero fundamental para o trabalho”.

E acrescenta: “Foi muito bacana ter esse contato com a arte marcial e com aquele grupo. A novela não foi um grande sucesso, não teve enorme popularidade, mas foi uma experiência muito valiosa. Não me lembro de ter sentido pressão direta por audiência. Talvez por eu ser muito jovem, isso não chegava até mim e não era algo que me preocupasse. Não houve pedidos para recalcular rota ou alterar linhas de personagem. Lembro apenas que, na época, incluíram o Dalton Vigh para intensificar a trama entre a Grazi Massafera, o Fábio Assunção e o Ricardo Pereira. Fora isso, não recordo nenhum movimento urgente para tentar melhorar a audiência. O elenco era muito alternativo, muito diferente. O Joaquim Monchique, ator português, fazia meu pai.”

Essa entrega ao processo criativo se reproduziria de maneira ainda mais intensa no Teatro Oficina, onde ele viveu uma das experiências decisivas de sua formação. “Sempre gostei de me jogar nos processos. O Teatro Oficina foi uma das experiências mais preciosas que tive. Eu conhecia e estudava a história do Oficina desde a época em que era estudante de teatro, no curso técnico do Macunaíma, em 1999. Já assistia às montagens havia muito tempo. Quando dei um tempo na televisão, há uns dez ou doze anos, e resolvi fazer minha graduação, fui assistir a uma peça do Oficina; fui apresentado ao Zé e ele me convidou para fazer a trilogia da Cacilda Becker. Fiquei muito nervoso, porque ainda não entendia totalmente aquele formato dionisíaco — o vinho, as bacantes, o coro grego. O mais impressionante é que, por trás daquilo que muitos enxergam como ‘loucura’, havia um comprometimento artístico gigantesco. Chegávamos às cinco da tarde, fazíamos uma hora e meia de preparação vocal; o Zé chegava com o texto e ficávamos até uma ou duas da manhã compondo músicas e ensaiando cenas. Todos dizem — e eu concordo — que existe um artista antes e um depois do Teatro Oficina. Ele mudou minha arte. O teatro permite um tempo maior de criação, de maturação, de repetição, algo que a televisão não oferece”.

Ele explica: “O teatro, com sua arte da repetição, faz a gente se compreender melhor, compreender o público, os colegas e a narrativa. Na televisão, o processo é muito imediatista: pouquíssimo tempo de preparação, quase nenhuma repetição, e uma série de fatores técnicos interferindo — câmera, iluminação, boom, erro de texto. A repetição fluida acontece raramente. A televisão é um jogo para quem está pronto; não há espaço para escorregar muito, senão você vira uma ‘figurinha problemática’ dentro do formato. O Zé tinha total consciência de quem eu era como artista. Eu havia feito três novelas e cerca de 25 peças de teatro; com 30 anos. Embora ele me visse também pelo olhar do jovem ator da televisão, entendia meu lugar no teatro, respeitava muito isso e usava esse meu physique. Ele me colocava, muitas vezes, num lugar mítico da representação. Eu era quase um ‘anticristo’ nas narrativas dele. No “Banquete”, por exemplo, interpretava um ator que entrava em cena para criticar o próprio formato do Teatro Oficina. Ele só brincou comigo quando fui para o SBT logo depois: como meu tempo no Oficina tinha acabado, ele disse: ‘Pede pro Silvio Santos (1930-2024) liberar o terreno para a gente”. A brincadeira remete a uma disputa jurídica de longa data pelo terreno onde hoje está o Teatro Oficina, reivindicado também pelo Grupo Silvio Santos.

Dudu Pelizzari e a liberdade de ser o que é (Foto: Pablo Alcantara/Grotto)

Para encerrar, o ator recomenda uma leitura — e deixa nela um espelho do próprio pensamento artístico e identitário. “Li um livro do Rick Rubin chamado “O Ato Criativo: Uma Forma de Ser”. Ele fala de um conceito muito bonito: toda obra de arte já existe numa espécie de atmosfera energética, criada por uma fonte inesgotável de criatividade — algo que podemos chamar de divino, criador. Nós, artistas, apenas materializamos aquilo que já existe nesse plano. Por isso, devemos estar conectados com a espiritualidade, para receber do divino e transformar em poema, música, pintura, personagem, história. Recomendo esse livro: O Ato Criativo é realmente uma forma de ser.”

A trajetória de Dudu Pelizzari parece guiada pela mesma força invisível descrita por Rick Rubin, uma energia criativa que o levou das primeiras aparições populares em Malhação aos riscos profundos do Teatro Oficina. Ele atravessou tropeços, descobertas e desafios que hoje se expandem nos personagens épicos que interpreta na televisão. Entre mundos ficcionais e territórios íntimos que a paternidade abriu, segue construindo sua história como quem recompõe uma tapeçaria antiga, com cortes, remendos, coragem e silêncio. Aos 40 anos, fala como alguém que ainda inicia uma jornada, consciente da passagem do tempo, mas certo de que há muito por viver. O artista que diz ser comum revela, na verdade, alguém em constante formação, alguém que escreve o futuro enquanto cura o passado e que encontra no filho, no trabalho e na espiritualidade o caminho para seguir sempre mais fundo, mais inteiro e mais verdadeiro.