*por Vítor Antunes
Ele apareceu na televisão antes de completar 10 anos — assim como a mulher com quem viria a se casar. André Luiz Frambach e Larissa Manoela cresceram sob os holofotes e aprenderam cedo a administrar um tipo específico de pressão: a de permanecer em evidência enquanto tentam proteger algum território íntimo. Sabem, como poucos, o custo de equilibrar o que é público e o que deve permanecer privado. Desde o casamento, tornaram-se alvo constante de especulações, comentários e projeções alheias. Ainda assim, optaram por um caminho pouco ruidoso, marcado por discrição e controle cuidadoso da própria exposição.
“Eu acredito que o impacto, para não falar sob a perspectiva do negativo, foi muito positivo. Recebemos muito carinho dos fãs, muito apoio, afeto, mas, ao mesmo tempo, aprendemos a blindar o lado pessoal, levando em conta a vida como casal. É o meu relacionamento com ela e o dela comigo, é um relacionamento de nós dois só. O que as pessoas opinam ou deixam de opinar só diz respeito a elas e, muitas das vezes, falam muito mais da vivência delas do que propriamente da nossa”, diz o ator.
Tendo gravado o piloto de um “dorama”, formato de dramaturgia inspirado nas produções coreanas, André antecipa detalhes sobre “Vidas Paralelas”, trama de Walcyr Carrasco, e comenta a expectativa de que o projeto avance para a grade. “Vidas Paralelas” é um projeto para o qual fui convidado por Walcyr Carrasco, Adriano Melo e Amora Mautner, que também esteve envolvida no início do desenvolvimento. Foi um convite muito especial, que me deixou extremamente orgulhoso de participar da gravação do piloto. Espero que ele seja, de fato, desenvolvido e que eu possa integrar o elenco”.

André Luiz: “Torço para que os doramas saiam do papel” (Foto: Camille Frambach)
PRODÍGIO
Um dos primeiros trabalhos de André foi em 2007, ainda muito criança. O que implica numa infância vivida sob regras pouco comuns, em que o trabalho artístico coexistia com uma tentativa consciente de preservar a experiência de ser criança. Ele descreve um percurso marcado por autonomia precoce, mas também por limites claros, estabelecidos sobretudo dentro de casa. Desde cedo, aprendeu que o set não era um espaço de exceção, e sim um ambiente profissional regido por responsabilidades semelhantes às do mundo adulto.
“Eu cresci muito dentro do universo artístico, mas, ao mesmo tempo, também cresci sendo muito criança. Eu tive a liberdade de poder fazer as minhas escolhas, tanto em relação ao trabalho quanto às escolhas pessoais de vida. Eu sempre lidei com todos os ambientes de igual para igual. Não era porque eu era uma criança que eu era tratado diferente no meu meio de trabalho. Inclusive, meus pais sempre deixaram isso muito claro: a partir do momento que eu entrava na Globo, ou em qualquer outro trabalho, aquele era o meu ambiente profissional. Eu tinha que aprender a lidar com as adversidades, e o papel deles, ali, como pais, era só me apoiar. E sempre foi assim na vida, sempre fazendo as minhas escolhas e também sofrendo as consequências dessas escolhas, sejam elas boas ou ruins. Isso me ajudou a crescer, a entender o universo, o mundo e o que são as pessoas, e a amadurecer também”.
O saldo, no entanto, é positivo. Mesmo com 20 anos de carreira e ainda antes dos 30, André Luiz avalia a própria trajetória a partir de um critério que foge da pressa comum ao meio artístico: o respeito ao tempo das coisas. “Eu sempre soube dividir muito bem o profissional do pessoal. Eu nunca pulei etapas; tudo aconteceu no seu tempo. Fiz tudo o que era próprio da infância, da adolescência e, depois, da vida adulta. Aprendi muito no trabalho e aprendi muito na vida pessoal, e consegui levar a maturidade adquirida nesses dois universos para ambos. Tanto da vida pessoal para o profissional quanto do profissional para o pessoal. Tive uma escola de vida muito forte. Na arte, contracenei com atores incríveis, como Glória Pires, Tarcísio Meira, Tony Ramos e Osmar Prado. Isso me permitiu crescer cercado de valores, afeto e cuidado. Aprendi a dividir o tempo da escola, da faculdade e de cada etapa da vida. Por isso, quando olho para a minha trajetória, aos 28 anos de vida e com 20 de carreira, considero o resultado muito positivo.”

André Luiz: ” “Eu sempre soube dividir muito bem o profissional do pessoal, e isso sempre foi muito claro na minha vida” (Foto: Camille Frambach)
TÓXICO
Vivendo Gabriel no longa “Traição entre Amigas”, André Luiz fala sobre o desafio de interpretar um homem tóxico — um personagem que flerta com a vilania e que está mais próximo desse território do que qualquer outro papel de sua carreira, marcada majoritariamente por rapazes que orbitam a bondade e o bom-mocismo. No filme, Gabriel surge como um sujeito ambíguo, movido por escolhas que produzem danos sucessivos, tanto nos outros quanto em si mesmo.
“O filme é o retrato do que é a humanidade. Acho o Gabriel, meu personagem, em si, é mais retratado pela forma negativa, como os erros falam mais do que os acertos, e como o caráter do ser humano é moldado pelas suas escolhas. Então, eu acredito que ele seja mais para vilão de filme ou de novela. Um personagem muito humano, com muitos erros. As atitudes e os erros que ele comete durante o filme, muito mais do que mudar e machucar a vida do outro, ele também muda e machuca a própria vida”, diz ele.
Ao falar sobre relações abusivas — tema que atravessa o debate público e também a construção de personagens no audiovisual —, André Luiz evita o lugar da autoridade e se coloca mais como observador atento do que como portador de certezas. “Graças a Deus, eu nunca vivi um relacionamento tóxico, mas a gente sabe que eles existem. E o nosso papel, como sociedade, como seres humanos, ao enxergar isso, é simplesmente servir como alicerce, como apoio, como base para que a pessoa possa acordar e tomar as suas próprias atitudes, sejam elas profissionalmente ou pessoalmente. E seja também como personagem ou como pessoa”.

André Luiz: “Graças a Deus, eu nunca vivi um relacionamento tóxico” (foto: Camille Frambach)
A trajetória de André Luiz Frambach parece menos guiada pela urgência do estrelato do que por uma pedagogia silenciosa do tempo. Entre a infância vivida sob regras adultas, a escolha consciente pela discrição na vida íntima e a curiosidade artística que o leva a personagens mais ambíguos, o ator constrói um percurso raro em um meio afeito ao excesso. O que permanece não é a soma de papéis, rumores ou projeções alheias, mas a tentativa constante de manter intacto aquilo que não cabe na vitrine: a maturidade, o afeto e a convicção de que nem tudo precisa ser visto para existir.
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