‘Dona Xepa’ volta ao Globoplay! Nos bastidores, Censura, brigas entre atrizes, autor e diretor e troca de elenco


Novela escrita por Gilberto Braga em 1977 retorna ao Globoplay em versão preservada, após ter ganhado duas refilmagens sem grande repercussão. Primeira trama contemporânea no horário das seis, foi um sucesso de audiência, impulsionando Braga ao horário nobre, apesar de bastidores conturbados e trocas frequentes de elenco. A protagonista Yara Cortes mergulhou no universo popular para compor a feirante, incorporando expressões, trejeitos e até um amuleto típico. A censura interferiu em cenas de conflito familiar, e o autor chegou a ditar capítulos devido a um deslocamento no braço. A trilha sonora, pioneira em formato LP para novelas das seis, vendeu 91 mil cópias e marcou a época com músicas como “Pela Luz dos Olhos Teus” e “Você Abusou”

*por Vítor Antunes (com Tião Uellington)

Depois de ter sido alvo de duas refilmagens — a primeira em 1990 e a segunda em 2013 —, chega ao público a oportunidade de conhecer, enfim, a versão original de “Dona Xepa”, novela de Gilberto Braga (1945–2021) inspirada na peça homônima de Pedro Bloch (1914-2004). A história, que já havia rendido outras adaptações para a televisão, ganhou uma releitura na própria Globo (“Lua Cheia de Amor”, 1990) e outra na Record (2013), ambas sem repercussão significativa. Agora, “Dona Xepa” retorna ao Globoplay em versão integral ou ao menos majoritariamente preservada, permitindo que novas gerações tenham acesso ao trabalho como foi concebido. A trama, exibida originalmente em 1977, foi protagonizada por Yara Côrtes (1921–2002) e representou uma das primeiras obras contemporâneas de Gilberto Braga na TV. Até então, o autor se dedicara sobretudo a histórias de época, e “Dona Xepa” foi a primeira oportunidade de se afastar do século XIX — algo que, segundo sua biografia, já era seu desejo havia algum tempo.

A novela, no entanto, enfrentou bastidores conturbados: um deslocamento de braço de Gilberto Braga, um certo desgosto pessoal com o rumo da obra, além de diversas trocas de elenco ao longo da produção. Um dos episódios mais curiosos envolveu a personagem Rosália, vivida por Nívea Maria, que ambicionava ascender socialmente e, por isso, se recusava a passar a lua de mel em Cambuquira (MG), cidade que considerava “pouco elegante”. A fala ofendeu moradores locais e obrigou o autor a se retratar publicamente. A Censura, porém, interferiu em diversas cenas que retratavam conflitos familiares. O ataque cardíaco do personagem Saraiva (Fregolente) não pôde ser mostrado, e as brigas entre Rosália e Xepa não foram exibidas integralmente.

Nívea Maria em ‘Dona Xepa’: jovem ambiciosa que buscava ascensão social através do casamento (Foto: Divulgação)

Nívela Maria celebra a parceria com Yara Côrtes: “Era Yara uma companheira, meu Deus do céu! Uma das grandes atrizes da época, de teatro, de televisão. Dividimos com muita alegria, muito prazer a novela inteira. E eu espero que a novela possa conquistar novos espectadores no Globoplay, com esta trama que é um ícone dentro da teledramaturgia brasileira”.

A atriz conta que “Dona Xepa” foi “um dos maiores sucessos do Gilberto Braga e com um elenco fantástico. Era uma novela que deu muito certo em tudo, que mostrava a sociedade, o comportamento dos jovens e das pessoas mais velhas, e uma protagonista que era feita pela Yara Côrtes”. A atriz relembra ainda que realmente havia sido cotada a fazer a personagem que ficou com Fátima Freire: “Quando fui convidada, eu lembro como eu vinha de heroínas românticas e boazinhas. Eu realmente fui até o Gilberto Braga para fazer a outra personagem, Rosália. Não era vilã, mas que seria a antagonista da história”.

Rosália era uma menina ambiciosa. Uma menina que tinha vergonha da mãe porque ela era feirante,  morava numa vila e foi procurar por amigos que tinham de uma classe mais alta tentar entrar na sociedade. Enfim, ela tinha desafios – Nívea Maria

Sob a direção de Herval Rossano (1935-2007), “Dona Xepa” foi a primeira novela contemporânea exibida às seis horas na Globo — faixa que, desde sua implantação em 1975, vinha sendo ocupada apenas por produções de época. O êxito da obra carimbou o passaporte de Gilberto Braga para o horário nobre, o que acabou provocando um rompimento entre ele e Herval. O próprio Herval havia sido o responsável por levá-lo à faixa nobre, mas não escondeu o incômodo com a ascensão do autor. A última reprise de “Xepa” foi em 1980.

Dona Xepa. Novela de 1977 está de volta no Globoplay (Foto: Reprodução/Globo)

QUEM AQUI ESTÁ VENDO DONA XEPA?

A frase, que nada tem a ver com a obra de Gilberto Braga, tornou-se um meme nas redes sociais em 2013, quando o ator Maurício Mattar, durante a divulgação da versão da Record, perguntou ao vivo quem estava acompanhando a novela, recebendo resposta tímida do público. Diferentemente dessa adaptação e de “Lua Cheia de Amor” (protagonizada por Marília Pêra [1943-2015]), a versão de 1977 foi um sucesso retumbante: registrou média de 46,5 pontos, equiparando-se ao fenômeno “Escrava Isaura”, do mesmo autor e faixa horária, e chegou a alcançar picos de 59 pontos. Curiosamente, uma das amigas de Xepa na versão setentista era vivida por Ângela Leal — que, décadas depois, se tornaria a própria protagonista na Record. Cláudio Cavalcanti (1940-2013) foi o único ator a participar das duas produções da trama da Globo.

A presença de Yara Cortes como protagonista era uma das poucas certezas do elenco. Nívea Maria, inicialmente anunciada como mocinha, pediu para interpretar a vilã, e a personagem mais “heroína” ficou a cargo de Fátima Freire. Segundo a biografia de Gilberto Braga, escrita por Artur Xexéo e Mauricio Stycer, Yara e Nívea não se davam bem — nem em cena, nem nos bastidores, o que Nívea nega.

Ângela Leal fez uma amiga de Xepa na Globo e a própria Xepa na Record (Foto: Divulgação/Globo)

Houve ainda várias mudanças de elenco:

  • Cyll Farney (1925-2003) foi o primeiro nome cogitado para o ricaço Henrique Becker. O papel chegou a ser cogitado para Sérgio Britto(1923-2011) e Gilberto Martinho (1927-2001), este último afastado por problemas renais. Ficou com Ênio Santos (1922-2002).

  • A personagem Glorita foi disputada entre Dayse Lucidi (1929-2020) e Renata Fronzi (1926-2008), mas acabou com Ana Lúcia Torre, que estreava em novelas na Globo. Renata não foi liberada de seus compromissos na linha de shows.

  • Ísis Koschdoski interpretou Helena, papel que passou por Denise Bandeira e Elizabeth Savalla — esta última afastada por gravidez.

  • Reynaldo Gonzaga foi escalado para o personagem Ivan, que acabou ficando com João Paulo Adour; Reynaldo assumiu outro papel, Edson.

  • Tony Ramos faria o papel inicialmente previsto para Edwin Luisi, mas foi deslocado para Espelho Mágico. Uma das versões da época apontam que Tony não pôde assumir por precisar concluir “O Julgamento”, na Tupi. O mesmo personagem chegou a ser cogitado para Reynaldo Gonzaga.

Reynaldo Gonzaga esteve entre dois personagens em “Xepa (Foto: Divulgação/Globo)

Em entrevista ao O Globo, Pedro Bloch descreveu sua protagonista com palavras que se tornaram uma espécie de manifesto da personagem:

Dona Xepa é a mulher do povo, criatura que procura ocultar na exuberância dos gestos e nas explorações sua alma pura, imensa e simples. Rústica, primitiva, humana, direta, sem complexos e sem recalques, sem problemas psicológicos aparentes (para quem só lhe olha o lado de fora), mas de coração rico e solidário, pronta a manifestar a maior ternura metamorfoseada em bronca. Diz o que sente e sente o que diz. É a mãe que se realiza com a ascensão social dos filhos. O que dá de si nunca é sacrifício.”

Para compor a personagem-título de Dona Xepa, Yara Cortes decidiu mergulhar no universo popular que Pedro Bloch havia criado para o teatro e que Gilberto Braga adaptou para a TV. Um dos detalhes que adotou foi usar “um alho de arruda atrás da orelha” — amuleto comum entre feirantes para afastar mau-olhado. “Para andar com o corpo mancando, deixando os calos nos pés, procurei ver pessoas que andavam assim pelas ruas. Sempre faço isso na composição de personagens. A única dificuldade que encontrei foi na maneira de falar”, contou Yara.

Era a primeira vez que a atriz interpretava um papel mais próximo da comédia, segundo ela própria. A preparação incluiu visitas a feiras livres para observar a maneira como os feirantes falavam, davam troco e usavam expressões características.

Reynaldo Gonzaga esteve entre dois personagens em “Xepa (Foto: Divulgação/Globo)

Outras curiosidades

Durante as gravações, a atriz Ísis Koschdoski prestou vestibular para Direito, mas acabou seguindo a carreira artística, tornando-se mais tarde uma renomada dubladora.

Na peça original, a personagem de Ângela Leal era uma atriz que encenava Casa de Bonecas, de Henrik Ibsen. As cenas da montagem fictícia foram gravadas no Teatro do Colégio Divina Providência.

Gilberto Braga, por sua vez, sofreu um deslocamento no braço durante a produção. Ainda assim, a novela ganhou mais 12 capítulos além do previsto. Impossibilitado de escrever, o autor ditava os textos para uma taquígrafa datilografar.

Ísis Koschdoski hoje é dubladora (Foto: Divulgação/Globo)

Em entrevista à Revista Amiga, Braga descreveu Dona Xepa como: “Foi uma novela alegre para divertir a audiência. Prevaleceu a imagem, a superficialidade, o encontro vazio de namoricos, de sofrimentos rasos, beijos roubados e encontros acidentais (…) O desempenho de Yara Cortes superou isso tudo — as dificuldades pessoais, o clima de animosidade e o cansaço”. O crítico e pesquisador Nilson Xavier lembra que o próprio autor, anos depois, seria ainda mais duro com sua criação. Em 1994, ao fazer um balanço da carreira, Braga afirmou: “É muito tosca. (…) É boa até o capítulo 40, mais ou menos. Depois, vira uma bagunça”.

A decisão de adaptar a peça foi do próprio Gilberto Braga, então cansado de trabalhar com romances de época — ele havia escrito Helena, Senhora e Escrava Isaura. No livro Autores, Histórias da Teledramaturgia, do Projeto Memória Globo, ele relembra: “Sugeri que a minha próxima novela das seis fosse baseada em uma peça de teatro: Dona Xepa, de Pedro Bloch. Para novela, basicamente, só dava para aproveitar a personagem central, que era ótima. Seria uma oportunidade de fazer alguma coisa atual, sair do século 19. A ideia foi bem aceita e a novela estourou. Com Dona Xepa, pude mostrar serviço com diálogos contemporâneos”.

Nívea Maria e Rubens de Falco eram um casal em “Xepa” (Foto: Divulgação)

A trilha sonora de Dona Xepa foi lançada em um long-play com 14 faixas — um diferencial para a faixa das 18h, até então marcada por adaptações literárias de época e cujos discos eram compactos com apenas quatro a seis músicas. Foi o primeiro LP de uma novela das seis. Entre as canções, estava Pela Luz dos Olhos Teus”, com Tom Jobim e Miúcha — que anos depois se tornaria tema de abertura de Mulheres Apaixonadas, de Manoel Carlos.

Segundo Vincent Villari e Guilherme Bryan no livro “Teletema”, o compositor Jocáfi, da dupla com Antônio Carlos, recorda que a música “Você Abusou” “tocou desesperada” na novela. O disco com a faixa vendeu cerca de 91 mil cópias.