“Domingo Espetacular” é revelação: melhor dominical da Record e o que mais se aproxima do que o Fantástico já foi


O Domingo Espetacular foi apontado como o herdeiro mais fiel do formato original do Fantástico, resgatando o espírito de revista eletrônica inspirado na antiga Revista Manchete. No entanto, o programa da Globo está até hoje engessado no formato de um telejornal como qualquer outro. Mesmo registrando audiência entre 5 e 6 pontos e ficando muito atrás da Globo durante a Copa, o dominical da Record apresentou uma edição marcada por reportagens exclusivas e criativas. Entre os destaques estiveram a emocionante matéria de André Tal sobre sua cirurgia para Parkinson, a investigação sobre o “vicaricídio”, a cobertura do crime organizado em Cariacica e a análise do caso da mulher que fingia ser adolescente. O programa também abordou o novo surto de Ebola, trouxe pautas leves como o fenômeno do X-Bolo e investiu em humor com o quadro “Descredenciados”, de Maurício Meirelles e Felipe Andreoli. Com reportagens exclusivas, como a entrevista de Roberto Cabrini com Monique Medeiros, o Domingo Espetacular une atualidade, qualidade editorial e renovação do gênero das revistas eletrônicas

*por Vitor Antunes

Quando estreou, o Fantástico era muito mais moderno do que é hoje. As matérias se sucediam de forma encadeada e sem necessariamente retornar ao estúdio para aquela pequena apresentação da reportagem seguinte feita pelos apresentadores. Uma das inspirações de Boni para conceber o programa era que ele funcionasse como uma revista eletrônica, tendo como referência maior a Revista Manchete. Hoje, o Fantástico está engessado no formato de um telejornal como qualquer outro. O Domingo Espetacular, por sua vez, parece muito mais fiel ao espírito-revista que o Fantástico um dia encorporou — e a edição do último domingo (14) foi aquilo que os acadêmicos chamariam de “uma edição revista e atualizada” do formato original.

Quando surgiu, o programa da Record era uma cópia declarada do da Globo. A ironia da história: hoje, quem se assemelha mais ao Programa de Domingo — o dominical de prestígio e bom gosto da antiga Manchete — é justamente o “Domingo Espetacular”. Com relação à audiência, o programa variou entre 5 e 6 pontos na prévia, disputando com o SBT o segundo lugar, mas ainda assim, a audiência era três vezes menor que a da Globo, que transmitia a Copa.

Pelo menos quatro matérias da edição foram exclusivas e criativas. Entre elas, a reportagem produzida por André Tal, parte da série “Superação em Ação” — sobre uma cirurgia de estimulação cerebral profunda para pacientes com distúrbios neurológicos. Como ele próprio. O repórter convive com o Parkinson, e fez uma matéria emocionante sem ser piegas, executando com precisão aquilo que os antropólogos chamam de observação participante: era, ao mesmo tempo, autor e personagem. A narração era do repórter — que também era o protagonista. A reportagem surpreendeu.

Emocionado, André Tal é consolado pelo entrevistado: Observação participante (Foto: Reprodução/Record)

Merece destaque também a matéria sobre “vicaricídio” — terminologia jurídica que define os casos em que o parceiro mata alguém próximo à mulher com quem tinha — ou tem — envolvimento, como forma de puni-la. Uma reportagem original e exclusiva, sem abrir mão da emoção na medida certa. Trouxe casos de Goiânia e do Rio Grande do Sul como ilustração. Na mesma linha, uma outra reportagem sobre o crime organizado em Cariacica (ES) manteve o mesmo padrão de qualidade editorial.

O programa também se debruçou sobre o caso que dominou os debates da semana: o da mulher que se passava por uma menina de 13 anos. Sem julgamento das vítimas, a reportagem pautou a narrativa sobre a personagem em si — sua longa ficha criminal, os diferentes perfis que adotou ao longo da vida e as cidades por onde passou. Também merece destaque a reportagem especial sobre o novo surto de Ebola na África — e o alerta implícito: poderia este ser o próximo coronavírus?

Domingo Espetacular é destaque na programação do domingo (Foto: Reprodução/Record)

No campo das soft news, Michael Keller foi às ruas provar o X-Bolo — que há algumas semanas tenta roubar o posto de fenômeno gastronômico do morango do amor, consagrado no ano passado. Michael já passou pela Globo, onde foi subaproveitado. O humor ficou por conta de Maurício Meirelles e Felipe Andreoli, que reviveraram os tempos áureos do CQC. Sem credenciamento e impedidos de cobrir a Copa, os repórteres criaram uma versão cômica e transgressora do evento no quadro “Descredenciados”. Maurício chegou a entrevistar Tiago Medeiros, da Globo — e “negociou” com ele a credencial e/ou o ingresso para a Copa. Bola dentro.

Na semana anterior, Roberto Cabrini havia conseguido uma entrevista exclusiva com Monique Medeiros, mãe do menino Henry Borel. O programa conduzido por Cabrini e Camila Busnello  está, portanto, conectado às demandas da semana, como toda revista deve ser. Cabrini não é um apresentador brilhante — e isso todos sabemos —, mas não compromete. O que prevalece, e deve prevalecer, é o jornalista de excelência que ele é. Não abandonou a reportagem: prova disso foi ter entrado na Venezuela, há cinco meses, logo após a deposição de Maduro. A Record tê-lo na equipe do dominical fez diferença, diferença positiva. O “Domingo Espetacular” traz um fôlego novo às revistas eletrônicas. Uma novidade que olha para o passado como referência, mas não se ancora nele.