Do perigo das linhas 0900 nos anos 1990 às bets na CazéTV: velhas fórmulas de lucro voltam a expor público a prejuízos


As transmissões da Copa pela CazéTV, especialmente nos jogos Canadá x Suíça e Escócia x Brasil, foram marcadas pelo elevado número de propagandas de casas de apostas, em um cenário que especialistas associam ao avanço da ludopatia no país. A reportagem destaca que odds altas, frequentemente anunciadas como vantajosas, representam justamente resultados considerados menos prováveis pelas próprias plataformas. O fenômeno é comparado à febre dos serviços telefônicos 0900 dos anos 1990, que movimentaram milhões com sorteios, entretenimento, telessexo e interação com personagens infantis. Na época, cobranças elevadas geraram contas que chegaram a R$ 7 mil, equivalentes a cerca de 70 salários mínimos. As bets reproduzem uma lógica semelhante: ampliar o consumo por meio da mídia de massa, agora com alcance potencial de milhões de espectadores nas transmissões esportivas

*por Rodrigo Otávio

Durante as transmissões de Canadá x Suíça e Escócia x Brasil, na Copa do Mundo pela CazéTV, o volume de inserções publicitárias ligadas a casas de apostas chamou atenção não apenas pela frequência, mas pela naturalidade com que o discurso das bets passou a ocupar o espaço esportivo. Em um país já afetado pelo avanço da ludopatia, ou seja, o vício em apostas, a presença constante dessas plataformas levanta uma questão incômoda: até que ponto a cobertura esportiva está exagerando em divulgar apostas?

A CazéTV está longe de ser um caso isolado. Hoje, praticamente todas as emissoras de televisão aberta convivem com publicidade de casas de apostas espalhada pela programação. O fenômeno lembra, em muitos aspectos, uma febre comercial que tomou conta do Brasil nos anos 1990: os serviços telefônicos 0900.

Naquela década, emissoras de rádio e TV usavam muito a modalidade para interagir com o público (por exemplo, ligar para votar em paredões ou responder a perguntas e concorrer a prêmios). Naquela década, empresas de telefonia, como a Telesp e outras operadoras, passaram a oferecer linhas tarifadas por minuto, cujo valor era posteriormente cobrado na conta telefônica. Surgiram então empresas especializadas nesse mercado, como a TeleTV.

A comparação não é perfeita, mas é inevitável. Nos anos 1990, a televisão transformou o telefone em uma máquina de faturamento. Em 2026, parece determinada a fazer o mesmo com as apostas esportivas. Mudaram as plataformas, mudaram os discursos e mudou a tecnologia. O mecanismo, porém, continua assustadoramente familiar: vender sonhos de ganho fácil para milhões de pessoas, enquanto os riscos permanecem em letras cada vez menores.

Programas inteiros passaram a girar em torno das ligações telefônicas. A CNT obteve grande sucesso com atrações ancoradas nesse modelo. O público infantil também aderiu a formatos como “Hugo Game” e Fantasia, este do SBT, ambos baseados na interação telefônica. Muitas empresas enriqueceram com a febre dos 0900. Entre elas estava a própria TeleTV, que posteriormente ganharia notoriedade ao assumir a concessão que viria a dar origem à atual RedeTV!.

Enquanto esta reportagem era escrita, durante a partida entre Suíça e Canadá, não foram poucas as intervenções comerciais de casas de apostas. O cenário se repetiu — e até se intensificou — durante o jogo da Seleção Brasileira – quando o canal na internet chegou a ter 15 milhões de espectadores simultâneos. A mensagem é quase sempre a mesma: oportunidades, ganhos rápidos e “ótimas odds” para o apostador.

Seleção atingiu audiência importante na CazéTV. No pré-jogo e no primeiro tempo, pelo menos três bets diferentes anunciaram (Foto: Reprodução/Band)

O problema é que odds elevadas significam justamente resultados considerados improváveis pelo mercado. Uma aposta anunciada com odd de 4,50 ou 8,00 pode soar atraente pelo retorno financeiro, mas indica uma chance baixa ou muito baixa de acerto. A lógica é simples. Imagine uma partida de futebol com as seguintes cotações:

  • Time A: odd 1,40

  • Empate: odd 4,50

  • Time B: odd 8,00

O mercado está sinalizando que:

  • O Time A é o franco favorito;

  • O empate é um resultado pouco provável;

  • A vitória do Time B é considerada uma grande “zebra” (muito improvável).

Se um apostador investir R$ 100:

  • Em uma odd de 1,40, receberá R$ 140 (lucro de R$ 40);

  • Em uma odd de 8,00, receberá R$ 800 (lucro de R$ 700), caso acerte.

Em outras palavras, quanto maior o retorno prometido, menor tende a ser a probabilidade de sucesso

A CazéTV acumula cerca de 30 milhões de inscritos. Durante Canadá x Suíça, a transmissão registrava aproximadamente 1,5 milhão de espectadores simultâneos. No jogo do Brasil, os números eram ainda maiores, conforme já citado.

Recentemente, o G1 RS/RBS TV publicou uma matéria na qual apontava-se que a Justiça do Rio Grande do Sul determinou que uma empresa de apostas pela internet restituísse mais de R$ 200 mil a um cliente diagnosticado com ludopatia, condição caracterizada pela compulsão por jogos de azar. Conforme os autos, o apostador afirmou que, ao longo de sete meses, desenvolveu um padrão compulsivo de comportamento relacionado às apostas.

Nesse período, realizou aproximadamente 90 mil operações na plataforma. Segundo seu relato, passava horas seguidas conectado ao sistema, inclusive durante a madrugada, efetuando depósitos de forma contínua, o que teria provocado um significativo prejuízo financeiro. A ludopatia, ou jogo patológico, afeta cerca de 10,8 milhões de brasileiros de forma arriscada, sendo 1,4 milhão com diagnóstico fechado, segundo o Intercept.

Ligue djá!

A CNT esteve entre as primeiras emissoras a explorar o modelo. Posteriormente, a Globo também aderiu ao formato, promovendo serviços relacionados à programação da emissora. As crianças tornaram-se um dos principais alvos. Havia linhas para conversar com personagens infantis, como Chaves, integrantes da Turma da Mônica e até o herói japonês Spectreman. Existiam ainda os populares “disque-amizade”, cobrados por minuto. Ou os serviços místicos como os de Walter Mercado (1932-2019), famoso pela frase “ligue djá”. Os serviços voltados para adultos também prosperaram. Em alguns casos, apenas um minuto de ligação para linhas de telessexo custava R$ 4,40. Para dimensionar esse valor, basta lembrar que o salário mínimo em 1995 era de R$ 100. Uma ligação de dez minutos poderia consumir quase metade da remuneração mensal de um trabalhador.

“Errei a mina, caí na China”. Um dos bordões do duende “Hugo”. Participar do programa jogando só através de 0900 (Foto: Reprodução)

Os abusos tornaram-se frequentes. Reportagem publicada pela Folha de S.Paulo em março de 1999 registrou relatos de contas telefônicas que chegaram a aproximadamente R$ 7 mil. Considerando o salário mínimo da época, isso equivalia a cerca de 70 salários mínimos concentrados em uma única fatura. A popularização dos serviços 0900 foi impulsionada pela televisão. Sorteios e promoções se multiplicaram. Apresentadores como Ana Maria Braga e Marcelo Costa, na Record, além de Serginho Groisman, no SBT, participaram de ações comerciais do gênero. Atores como Francisco Cuoco (1933-2026) e até conteúdos ligados ao humorista Ary Toledo (1937-2024) também foram utilizados para promover os serviços.

Mais um dos serviços de 0900 (Foto: Reprodução)