Depois de 30 anos, André Luiz Miranda vai volta à Globo em trama das 18h e destaca protagonismo preto


Ator ganhou projeção nacional como Tiziu em “Terra Nostra”, atualmente em reprise na Globo. Três décadas depois, retorna à emissora como protagonista de “A Nobreza do Amor”, numa trajetória que reflete mudanças na representação do homem negro na TV. Ele defende que protagonismo preto não é concessão, mas resposta à demanda por representatividade e revisão histórica. André também integra o elenco de “Dona Beja”, da HBO Max, e destaca a estrutura da produção

*por Vítor Antunes

Ele apareceu primeiro na tela da TV carioca, numa campanha da Prefeitura do Rio de Janeiro sobre a continuidade do projeto Favela-Bairro, na gestão de Luiz Paulo Conde (1934–2015). Depois, fez sua estreia em novelas, como “Terra Nostra, atualmente em reprise na edição especial da Globo. Agora, André Luiz Miranda se prepara para retornar aos folhetins diários da emissora em “A Nobreza do Amor”, quase três décadas depois de interpretar, em “Terra Nostra“, um menino abandonado. O salto do garoto à margem para o minerador da nova trama das seis espelha uma transformação mais ampla na forma como a televisão brasileira constrói e compreende o homem negro. Rever o passado na tela, diz ele, tem algo de rito íntimo. “É muito bonito me rever assim, rever esse trabalho. Foi um personagem muito importante na minha carreira. É bonito perceber que, mesmo com 12 anos, já existia ali uma trajetória, um começo de pensamento sobre trabalhar como ator.”

A mudança não é apenas biográfica, mas estrutural: “Não é um favor colocar protagonismo preto no audiovisual. A população quer se ver. O audiovisual se viu obrigado a fazer uma movimentação por conta dessa vontade do público brasileiro de querer se ver, de querer se enxergar, de ter representatividade”.

André Luiz Miranda está no ar com dois trabalhos, e em breve estreia nova novela da Globo (Foto: Divulgação)

André também destaca sua participação em “Dona Beja, produção da HBO Max em coprodução com a Floresta. Na nova versão, ele vive o co-protagonista, papel que, na adaptação exibida pela Rede Manchete, coube a Marcello Picchi. “Esse é um personagem importantíssimo para as discussões que a trama levanta. Olhar para esses dois protagonistas no século XIX, com certo poder, com ascensão cultural, social e econômica, faz a gente tentar entender melhor a nossa história, como o Brasil foi moldado e como muitas histórias foram invisibilizadas. Como era a nossa população no século XIX? É isso mesmo que foi retratado há tanto tempo? Todos os negros eram escravizados? A vida inteira a gente vem invisibilizando as pessoas pretas.”

Na real, a a nossa sociedade foi criada e moldada com esse pensamento. Com esse pensamento discriminatório, racial, por conta de todas as histórias no passado, de todos os heróis, de todos os pensadores, terem sido invisibilizados. Com isso, a gente foi crescendo, essas histórias não foram contadas nos livros de História. Então, a gente cresce com o pensamento de que só existiam pretos escravizados no Brasil. Mas, existiram, de fato, pessoas com poder. E só uma, uma falta de conhecimento do nosso povo e da nossa própria História – André Luiz Miranda

Envolta de polêmicas, de que as produções teriam sido complicadas e controversas, André desmente a assertiva: “A Floresta conseguiu montar uma estrutura gigantesca, perto da excelência de trabalho, com uma organicidade parecida à da Globo. As pessoas que trabalharam nesta produção construíram do zero uma cidade cenográfica enorme”.

André Luiz Miranda acredita ser importante haver protagonistas pretos na teledramaturgia (Foto: Divulgação)

… POR UM RIO CADA VEZ MELHOR

“Pelo grande público, nacionalmente, eu fui conhecido pelo Tiziu, de “Terra Nostra. Mas, aqui no Rio de Janeiro, o primeiro grande trabalho foi a campanha da Prefeitura do Rio”, relembra o ator. Como mencionado no início desta reportagem, a campanha institucional foi um sucesso local e funcionou como trampolim para sua projeção na televisão.

Ele volta ainda mais no tempo. “Antes dos 10 anos, fiz um curso numa agência. Eu sempre gostei de teatro, de leitura. Atuava em casa, brincava de dublar, fazia apresentações na escola desde muito pequeno. Minha mãe trabalhava em Copacabana e, quando eu saía da escola, ia para o trabalho dela. Tudo o que eu fazia em casa eu repetia lá: brincadeiras, palhaçadas, dublagens. Isso despertou a curiosidade da chefe da minha mãe, que era maquiadora de uma revista de moda e tinha muito conhecimento nesse meio. Ela sugeriu que eu fosse levado a uma agência. Logo em seguida, peguei um trabalho: uma dramatização para a revista Revista Manchete, em 1997. Foi meu primeiro trabalho dramatizado. Depois vieram muitos testes, até o da Prefeitura do Rio, que foi meu primeiro contato real com o audiovisual.”

Primeira aparição de André Luiz na revista Manchete, em 1997 (Foto: Reprodução Revista Manchete/Biblioteca Nacional)

A disciplina precoce virou comentário de bastidor. “As pessoas que trabalham no audiovisual falam comigo até hoje sobre como eu era profissional naquela época, mesmo com tanto texto e tanto trabalho. Eu dava conta. Gravava “Terra Nostra” depois do horário escolar. Estudava de manhã e trabalhava à tarde. Conciliava tudo. É muito bonito rever aquele trabalho e pensar naquela criança, com poucos recursos, com a ajuda da mãe, conseguindo entregar um papel daquele tamanho.”

André antecipa detalhes de “A Nobreza do Amor”, próxima novela das seis da Globo. “Começamos as externas em novembro, em Mossoró, no Rio Grande do Norte. Estamos gravando a todo vapor na cidade cenográfica e iniciando os trabalhos em estúdio. É um projeto pelo qual batalhei muito para entrar. Estou muito feliz. A novela está linda”. Sobre o personagem, ele adianta: “Akim é um minerador. A região de Batanga é rica em tungstênio, e ele lidera um grupo responsável pela extração do minério. Acaba se posicionando contra o governo ditatorial do General, que é o vilão da história, e se torna uma liderança numa revolução contra esse regime. Ele vai bater de frente com o General.”

Andre Luiz e o ex-prefeito Luiz Paulo Conde (Foto: Acervo pessoal/Recuperada por iA)

 

PAI

Pai de Beatriz, André Luiz fala da paternidade como quem descreve uma virada de eixo. A vida, antes dispersa, agora parece gravitar em torno de um nome próprio. “Beatriz, minha filha, é a melhor coisa que já aconteceu na minha vida. Eu digo para ela que é tudo por ela e tudo para ela. Hoje eu vivo para ela. Tudo o que eu faço, se saio de casa, é para proporcionar o melhor. Quando olho para o meu passado, para a minha infância, quero fazer diferente. Quero que ela cresça bem, com saúde, feliz, fazendo as próprias escolhas.”

Ele não economiza no entusiasmo. “Sou completamente apaixonado. A paternidade me fez amadurecer, me deu mais responsabilidade, não só na vida, mas também no trabalho. Ela só veio para me fazer crescer e aprender o tempo inteiro. Ela me ensina muito, todos os dias. Beatriz vai fazer dez em breve. É muito carinhosa, cuidadosa, respeitosa. Tem uma noção absurda do mundo para a idade. É muito especial. Sou completamente apaixonado pela minha filha e pela paternidade.”

André Luiz e a sua filha, Bia (Foto: Reprodução/Instagram)

A transformação, diz, já estava em curso antes mesmo de o berço chegar. “Antes da Beatriz, eu já estava num processo de entendimento e desconstrução da minha própria criação. Fomos moldados numa sociedade patriarcal, machista. Eu já vinha revendo escolhas, tentando entender onde errava. Quando ela nasceu, isso só aumentou minha vontade de aprender e seguir outros caminhos. O olhar muda completamente. O nascimento dela mudou completamente o meu olhar. Hoje percebo atitudes que tive no passado e que se tornaram impossíveis de repetir.”

Entre as pequenas liturgias domésticas, há música. “Canto sempre para a Bia uma música do Emicida, de quem sou muito fã. Fala das pequenas alegrias da vida adulta. E é exatamente isso. Qualquer coisa que a Beatriz faz arranca de mim um sorriso de orelha a orelha. São pequenas coisas do cotidiano que me levam a outro estado. “A primeira pequena alegria da vida adulta”, tal como diz a música, foi quando ela escreveu o nome dela sozinha. Peguei aquele papel e tatuei no meu braço. Foi a primeira vez que ela escreveu o nome dela de verdade. Está comigo para sempre.”