*Por Brunna Condini
“Esse ano perdi minha mãe, Wilma, e completei 61 anos. Muitas coisas aconteceram, sinto que estou vivendo o primeiro ano do resto da minha vida”. A frase de Denise Fraga ecoa com a mesma delicadeza e contundência de ‘Livros Restantes’, que estreou ontem. No filme de Márcia Paraiso, ela interpreta Ana Catarina, uma mulher que, ao desfazer a casa para recomeçar em outro país, se depara com livros esquecidos, dedicatórias guardadas e encontros capazes de devolvê-la a si mesma. “Quando fiz o filme, no fim de 2023, a minha mãe já estava em uma trajetória de fim. E fui me perguntando: ‘Quais são meus planos agora?’”.
Ao ler o roteiro, Denise sentiu algo parecido com uma coincidência cósmica: a personagem que se reinaugura chegava justamente quando sua própria vida parecia virar uma página. “É muito curioso ter acontecido no mesmo ano dois filmes emblemáticos (em 2025, ela também lançou ‘Sonhar com Leões‘, em que faz Gilda, uma imigrante brasileira em Lisboa com câncer terminal, diagnosticada com apenas um ano de vida, que busca, com humor e delicadeza, uma forma digna de morrer); os meus 61 anos e a morte da minha mãe. Parece mesmo o primeiro ano do resto da minha vida, o início do terceiro ato”.
É desse lugar vulnerável e luminoso, que ela acessa Ana Catarina, professora que aceita um convite para dar aulas em Portugal e precisa, antes, atravessar um inventário afetivo do que fica e do que segue com ela. “Ao desfazer a casa, sobram aqueles livros e ela inventa, sem planejar, um ritual de despedida, decide devolvê-los para quem a presenteou. O que não imagina é o quanto esses encontros vão contar pra ela quem é”. Denise salienta que a força do longa está justamente nessa dimensão silenciosa que transborda. “O filme fala de uma coisa subterrânea que me toca muito: o quanto o outro conta pra gente quem a gente é. Só sabemos quem somos por causa do amor do outro. Senão, ‘jogados na floresta’, a gente vira o Mogli, o menino lobo”, brinca. E é nessa troca — “Gosto muito de gente, meu trabalho se baseia nisso” — que a atriz encontra seu próprio eixo no mundo.
A maturidade vai puxando a gente para esse lugar de reinvenção. É como se eu estivesse realmente vivendo um começo depois dos 60. Um recomeço – Denise Fraga

Denise Fraga protagoniza o delicado ‘Livros Restantes’, em um momento em que também revisita memórias, perdas e ganhos. “É como viver um novo começo aos 60″ (Foto: Loiro Cunha)
Denise diz que a reinvenção que menciona não é um conceito abstrato: é quase um chamado fisiológico da vida. E ‘Livros Restantes’ materializa isso com a precisão de quem observa o mínimo, o gesto que revela mais do que qualquer discurso. “A Márcia fala de coisas muito profundas dentro dessa estrutura simples. O filme vai te mergulhando com falas cotidianas em assuntos universais, não é um filme existencialista sobre uma mulher. Poderia ser. Mas a Márcia passa dessa fronteira e faz um filme sobre todos nós, sobre o que somos”.
E é justamente a diretora, Márcia Paraiso, que acende em Denise outra camada de leitura, a do detalhe como arma narrativa. “O cinema é a arte do detalhe, e uma diretora mulher quer filmar aquele ‘negocinho’ ali. A Márcia quis filmar eu tirando as ‘pelinhas’ do meu dedo, um tique meu. Fiquei pensando: ‘Será que isso vai dizer algo pra alguém?’. E em uma sessão, uma moça me disse: ‘O abuso que eu sofri está na ‘pelinha’ daquele dedo’. É muito louco o que um detalhe acende nas pessoas”. Para a atriz, é nessa precisão sensível que o filme encontra sua força: “Aquela dedicatória, aquele título, aquele gesto… tudo revela a minha personagem”.

Denise Fraga em cena de ‘Livros Restantes’, filme de Márcia Paraiso (Foto: Divulgação/Still)
Amadurecimento na vida e na arte
Da tela para a vida, a atriz amplia o raciocínio ao falar sobre o lugar das mulheres maduras na arte e no mundo:
As mulheres 50+ estão na pista, fazendo muita coisa. As atrizes da minha geração estão à toda. Andréa (Beltrão), Débora (Bloch), a Nanda (Fernanda Torres)… nós estamos aí. Temos projetos, inquietudes. Sempre achei que mulheres amadurecem com mais sofisticação. Vamos para os detalhes. Se a mulher não cuida, fica detalhista demais; se o homem não cuida, vira o ‘tá bom, não precisa’. Por outro lado, ficamos mais sábias, criativas. São convites diferentes: pra nós, o olhar do detalhe; pra eles, o descanso, menos complexidade- Denise Fraga
Essa sofisticação, sensorial, afetiva, intelectual, também alimenta sua relação visceral com a literatura, fio condutor de ‘Livros Restantes’. Denise carrega livros como quem carrega bússolas: “Se eu ficar presa em um aeroporto, preciso ter um livro perto. Um que sempre está na minha mala é ‘Os 30 Melhores Contos do Machado de Assis’, em uma ediçãozinha da Aguilar que parece uma bíblia. Vai comigo há anos, todo velhinho”. Ela ri ao confessar uma angústia que só leitores fanáticos entendem. “Tenho síndrome de livraria eterna. Entro em uma livraria e penso: ‘Meu Deus, eu não vou conseguir ler tudo isso nunca'”, diverte-se. “Os livros são especiais. Faço meus próprios filmes mentais de cada um. Por isso, resisto a assistir adaptações literárias para o cinema. Não quero que roubem de mim as imagens que eu tenho daquela história”.

“As mulheres 50+ estão na pista, fazendo muita coisa. As atrizes da minha geração estão à toda” (Foto: Divulgação/Still)
Feita de histórias
Mas nenhuma imagem, por mais cinematográfica, parece ter o peso simbólico da mesa amarela da casa da bisa, hoje na casa de Denise. Ao ser perguntada sobre qual objeto usaria para revisitar alguém do passado, como no filme, ela não hesita: “A visita seria naquela mesa, com certeza. Eu poderia dizer que gostaria de revisitar as lembranças com minha mãe, que partiu este ano (a mãe de Denise, Wilma, morreu em janeiro, após viver com enfisema por cerca de três anos). Mas vou dar outra resposta, vou para um passado mais distante. Minha avó escrevia cartas para Portugal nessa mesa, costurava ali, a família ficava em volta. Queria muito sentar naquela pontinha de mesa novamente com a minha bisa, com a minha avó, e mostrar tudo o que aconteceu comigo. E ouvir o que elas ainda teriam para me contar”.
Eu não seria atriz se não tivesse vivido naquela casa, cercada dessas mulheres. Fui feita de histórias – Denise Fraga
Após alguns meses da perda da mãe, ela divide: “Fico querendo sonhar com ela. Dá uma angústia danada, porque eu não sonho. Minha mãe ainda não chegou para mim lá, desse lugar onde está me olhando”.

Denise Fraga e sua mãe, Wilma, que partiu em janeiro deste ano (Foto: Reprodução/Instagram)
Essa formação cotidiana, ancestral, reverbera no modo como Denise enxerga seu ofício, que completa 40 anos de estrada. Ela se recusa a se distanciar da vida real. “Até esqueço que sou atriz. Vou ao sacolão, pego táxi, converso com o motorista. Deus me livre se me tirarem a urbanidade, a possibilidade de andar na rua”. Talvez por isso o solo ‘Eu de Você’, espetáculo em que ela percorre o país desde 2019, tenha se tornado, nas palavras dela, “a experiência mais linda da minha vida”. “O ‘Eu de Você’ é feito de colocar um holofote sobre uma história aparentemente banal. E quando você ilumina aquilo com poesia, devolve para pessoa dizendo: ‘Olha o que você viveu’. Quem está na plateia se reconhece e entende que não está sozinho”.
Essas histórias e esse amor pela experiência humana sustentam o que Denise chama de “alívio da coerência”. Um conceito emprestado de Amir Haddad, mas vivido por ela na pele. “O Amir me disse: ‘Você não sabe o que é chegar ao fim da vida com o alívio da coerência’. E eu sinto que fui fiel a mim mesma. Talvez tenha ganho menos dinheiro, mas honrei o que queria dizer com o teatro”. Ela acrescenta, com firmeza doce:
Achei o que eu gosto de fazer. Nem todo mundo acha na vida. E ainda consigo ganhar meu pão disso. É quase uma receita de felicidade – Denise Fraga

“Eu não seria atriz se não tivesse vivido naquela casa, cercada dessas mulheres. Fui feita de histórias” (Foto: Divulgação/Still)
Vivendo um ciclo ainda atravessado pelo luto e por trabalhos que a reposicionaram criativamente, a artista abraça o que vem pela frente com a vitalidade de quem descobre novos começos dentro da própria maturidade. Sobre o sucesso que faz ao lado de Tony Ramos, ‘O que só sabemos juntos’, diz: “O Tony vai fazer uma novela, então paramos. Talvez a gente volte em janeiro de 2027 em Portugal, que tem um convite para a gente ir pra lá”. Em 2026, a atriz estará em mais produções no cinema, desenvolve um projeto com José Bial (diretor e roteirista, filho de Pedro Bial e Isabel Diegues) e inicia as reuniões de sua nova montagem teatral o lado do marido e parceiro artístico, Luiz Villaça — “Será um cabaré com uma mulher muito forte conduzindo”, como ela mesma adianta. E conclui:
Estou com a criatividade toda acesa. Tenho coisas pulando dentro de mim que pedem sala de ensaio, pedem set, pedem palco. Cada novo trabalho me lembra por que eu faço o que faço, isso é maravilhoso– Denise Fraga
“Achei o que eu gosto de fazer. Nem todo mundo acha na vida. E ainda consigo ganhar meu pão disso. É quase uma receita de felicidade” (Foto: Divulgação/Globo)
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