*por Rodrigo Otávio
As últimas semanas nos bastidores da TV revelaram aquilo que já há algum tempo ronda as redações dos jornais: a forte dança das cadeiras, alinhada à precarização dos ambientes de trabalho no jornalismo de televisão e ao pouco zelo com a precisão da notícia. Recentemente, o SBT veiculou uma notícia falsa — e que não tinha o menor pudor em parecer falsa — tudo por conta de uma apuração preguiçosa.
O programa Se Liga Brasil, apresentado por Thiago Gardinali, exibiu uma imagem falsa gerada por IA (inteligência artificial). Tanto ele como o comentarista de polícia, o Delegado Palumbo, passaram um bom tempo do telejornal repercutindo uma falsa polêmica envolvendo um posto de gasolina de São Paulo que, supostamente, teria sido acusado de misoginia. “Eu quero ler o que está escrito no cartaz: ‘Calibrador self-service, chame um frentista se possuir mais de 60 anos, se for portador de necessidades especiais ou em caso de mulheres’”, disse Thiago Gardinali. O texto possuía um erro de português: “posuir”.
“Que absurdo é esse? Esse posto está divulgando a misoginia. Foi todo mundo parar na delegacia”, disse Thiago Gardinali, ao vivo, diante de uma fake news produzida por IA
Em comunicado, o SBT afirmou que “providências internas” foram tomadas: “A imagem exibida pelo Se Liga Brasil não é real, de acordo com ferramentas de checagem. A veiculação do material sem prévia apuração desrespeita as normas de jornalismo do SBT. Providências internas já foram tomadas”.

Fake News no SBT e gerada por IA (Foto: Reprodução/SBT)
Ora, ninguém está livre de um equívoco, de levar uma “barriga”, ou “barrigada”, no jargão jornalístico, especialmente em tempos de inteligência artificial cada vez mais realista. Porém, o básico não foi feito, que é saber em que posto isso ocorreu, como ocorreu, ou qual a identificação do policial em questão — na foto que circula pela internet, o nome do policial e o estado ao qual estaria ligado não aparecem, o que já poderia gerar alguma suspeita de manipulação de imagem.
Ou seja, especialmente em um ano eleitoral, onde se espera maior crivo e rigor sobre o conteúdo levado ao ar, o que acontece é justamente o contrário: uma notícia falsa, alardeada com vigor num jornal matutino.
Enquanto o SBT exibe uma notícia falsa e sem checagem, a Globo apresenta uma demão de tinta nesse recorte cinzento em que se encontra o jornalismo hoje: uma espécie de reality show será exibido no Fantástico, onde estudantes de Jornalismo no último ano de faculdade se inscrevem para participar do “Profissão Repórter procura”. Uma iniciativa louvável, a de procurar novos talentos do jornalismo, mas que, ao se transformar quase em um reality show, se esvazia. Afinal, reality precisa de conflitos, competição e um tanto de dramaturgia. A proposta do quadro, liderado por Caco Barcellos, é de que haja uma eliminação por semana até que seja o escolhido para fazer parte do Grupo Globo por, no mínimo, três meses, como premiação. Os objetivos iniciais e finais são, repito, excelentes, mas como vai se dar essa competição e essa eliminação? Através do conflitos com colegas? Dos erros de apuração?… A ver.
No regulamento, a Globo se compromete em fazer os deslocamentos terrestres ou aéreos dos 20 selecionados para São Paulo; porém todos eles serão expostos, em rede nacional, em um dos produtos de maior faturamento da casa, sem, porém, receberem nenhuma bolsa ou incentivo. Ou seja, o intervalo compreendido entre a ideia original e o objetivo final, louváveis, é questionável. Além disso, há a cessão incondicional da imagem, voz e afins de todos os concorrentes à Globo, por tempo indeterminado, bem como por reprises infinitas, segundo o próprio regulamento.
O problema do jornalismo não fica restrito a isso. Há afiliadas da Globo do Estado do Rio de Janeiro e de Minas Gerais que exigem exclusividade aos repórteres e pagam a eles cerca de dois salários mínimos, através de pejotização. Poucos são aqueles que se mantêm lá. Inclusive, o leitor mais atento pode perceber que são poucos os que permanecem, posto que a rotatividade é grande, especialmente nos últimos cinco anos.
Na Record, a demissão de Carolina Ferraz, após seis anos à frente do Domingo Espetacular, provocou uma grande dança das cadeiras no jornalismo da emissora, com a promoção de alguns nomes, como o de Camila Busnello para o Domingo Espetacular, e Lidiane Shayuri para os boletins jornalísticos da programação e para a apresentação do Fala Brasil. Neila Medeiros e Jéssica Smetak vão apresentar em dupla com Lidiane para os plantões de sábado do Fala Brasil.
A demissão de Carolina vem no rastro de outras dispensas de jornalistas e/ou apresentadores maduros e de uma adequação salarial. Nomes mais jovens são promovidos a salários mais baixos, o que acaba por baratear o centro de custo da empresa. Praticamente todos os grandes veículos de comunicação estão lançando mão desse artifício e “encostando” nomes mais veteranos e mais caros.
O que se impõe, diante desse quadro, não é apenas uma crítica pontual, mas um diagnóstico incômodo: o jornalismo televisivo brasileiro parece ter naturalizado a perda de seus próprios critérios. Entre a falta de empenho na apuração, a espetacularização disfarçada de formação profissional e a corrosão das condições de trabalho, constrói-se um ambiente em que errar deixa de ser exceção e passa a ser sintoma. Quando a lógica de custo, audiência e engajamento se sobrepõe à verificação, ao rigor e à responsabilidade pública, o que está em jogo não é apenas a qualidade do conteúdo, mas a própria credibilidade de um sistema que, ao abrir mão de seus fundamentos, compromete aquilo que ainda o sustenta: a confiança
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