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“Dedico a estreia deste documentário ao Teatro Oficina e ao José Celso Martinez Corrêa”, desabafou o diretor Hamilton Vaz durante o tapete vermelho do documentário Asdrúbal Trouxe o Trombone

O longa-metragem conta a história de uma cia teatral da década de 70 de formou grandes nome da arte brasileira como Evandro Mesquita, Luiz Fernando Guimarães, Regina Casé e outros. O produto audiovisual será dividido em treze episódios que serão exibidos no canal Viva, a partir do dia 18 de novembro

Publicado em 07/11/2017 | Por Ana Clara Xavier

“Dedico a estreia deste documentário ao Teatro Oficina e ao José Celso Martinez Corrêa. Peço que todos enviem energias positivas para São Paulo para que reconheça o seu enorme coração e pegue nos braços, bote no colo e dê de mamar ao Teatro Oficina”, afirmou o diretor do filme sobre o outro grupo teatral icônico do Rio, Asdrubal Trouxe o Trombone, Hamilton Vaz Pereira, durante a estreia para a imprensa e convidados. O diretor fez referência à disputa de Zé Celso e Silvio Santos pelo espaço que circunda a região do Teatro Oficina, em São Paulo. O momento para esta dedicatória foi muito oportuno visto que o longa-metragem Asdrúbal Trouxe o Trombone fala da trajetória de outro grupo de teatro, inaugurado dezesseis anos depois e com o mesmo título do filme. Tanto no produto audiovisual quanto no discurso defendido por Zé Celso, é colocada em destaque a importância das artes para a cultura brasileira. A trupe Asdrúbal foi criada em 1974 e composta por grandes nomes das artes cênicas nacional como Regina Casé, Luiz Fernando Guimarães, Perfeito Fortuna, Evandro Mesquita, Patrícya Travassos, Nina de Pádua e outros que na época estavam iniciando a carreira.

Todos os antigos integrantes expõem o seu depoimento sobre a trajetória do Asdrúbal Trouxe o Trombone. De uma forma totalmente nostálgica, todos estavam envolvidos de alguma forma na criação deste projeto como Hamilton Vaz que também exercia a função de diretor nos anos que esteve com a trupe. E apesar de estar totalmente submerso nesta história, Hamilton não tentou se afastar de seu ponto de vista, na verdade, usufruiu dele para incrementar o longa. “Foi bom fazer esta construção em grupo, porque cada um se lembrava de um pedaço ou de uma passagem. O melhor de tudo era ver como nós vivemos intensamente aquele período. Eram aventuras com entraves e bandeiras inacreditáveis. Saiamos do eixo Rio-São Paulo e íamos para Recife, Bahia, Rio Grande e outros. Parecia turnê de banda ou um festival”, relembrou Evandro Mesquita.

Evandro Mesquita afirma que é necessário haver um teatro aprofundado e de qualidade (Fot: AGNEWS)

Uma coisa é verdade: o filme foi totalmente feito entre amigos. Os ex-integrantes da trupe garantiram que ainda fazem questão de fazer reuniões e bater papo. “Esta história está sempre presente. Esta galera são meus amigos que trabalho o tempo todo e que frequento a casa, mas não sou uma pessoa saudosista. Acho bacana revisitar o passado, mas aqueles momentos ficaram e pertencem àquela época, idade e lugar. No entanto, acho legal comemorar e poder expor para as novas gerações”, afirmou Patrícya Travassos. Assim como ela, Hamilton nunca foi muito fã deste exercício de reviver o passado. Na verdade, o diretor nunca havia tido esta experiência de retomar antigos projetos. “Nunca dei muita bola para o passado, por sempre estar produzindo e pensando no futuro. Mas, neste projeto, me vi pesquisando coisas vividas por mim, pelos meus amigos e pelo público há quarenta anos. Fiquei encantado por poder mostrar a minha visão de mundo sobre as coisas e agora me sinto íntimo da minha história e sei que pode trazer coisas boas”, garantiu Hamilton.

Patricya Travassos na estreia do do filme (Fot: AGNEWS)

O projeto do documentário foi idealizado por Augusto Casé, primo de Regina Casé e grande fã, que viu a necessidade de reunir a história do grupo. Além de contar com o material fotográfico e audiovisual dos ex-integrantes da trupe, o longa contou com a pesquisa de Antonio Venancio que recorreu a outras fontes históricas para ajudar a formular a narrativa. “O Asdrúbal tinha uma legião de fãs, logo conseguimos algumas coisas com o público da época. Não foi fácil, mas foi muito apurado e cada descoberta de um arquivo era um prazer. Tudo isso contribuiu para a força do projeto”, afirmou o produtor, Augusto Casé. O resultado final contou com quase cinquenta entrevistas, de mais de duas horas cada, de formadores de opiniões, poetas, pensadores e historiadores. O trabalho foi dividido em treze episódios de trinta minutos que irão ao ar no canal Viva, a partir do dia 18 de novembro. “Este projeto contribui para contar a história de uma época que, às vezes, parece ter sido esquecida e não é percebida pela juventude atual como um objeto de estudo, formação e inspiração. Além do orgulho de termos lançado, estamos felizes por criar um produto que pode chegar ao grande público. Estamos mostrando a trajetória de um grupo que fez a cabeça de muitas gerações. Não é algo que podemos deixar cair no esquecimento”, considerou Augusto.

Luiz Fernando Guimarães afirmou que os jovens artistas devem continuar tentando e apostando na carreira (Fot: AGNEWS)

Os atores enumeraram vários motivos que provam o motivo desta trajetória teatral ser tão importante para a cultura brasileira. “Nós tínhamos uma consciência profissional maravilhosa, ensaiávamos muito para investigar o teatro visando alcançar um resultado bacana. Nós ensaiávamos nove meses para chegar ao produto final que parecia um improviso”, brincou Evandro Mesquita. A trupe, segundo o cantor, foi essencial para a carreira do grupo por unir pessoas da mesma geração com visões e objetivos artísticos parecidos. “Não tive escola, mas o Asdrúbal representou este centro de ensino para mim. Tanto eu como Regina e Hamilton carregamos o método que usamos naquele espaço para os nossos trabalhos atuais de atores. É muito interessante por ser uma celebração em vida”, garantiu o ator Luiz Fernando Guimarães e, ao seu lado, Patricya Travassos completou: “O Asdrúbal representa o estilo que começamos e acho que, até hoje, somos congruentes com aqueles métodos. Todos carregam aquela bagagem”.

Entre os métodos aplicados pelo grupo, o fato dos artistas serem co-autores do texto foi o destacado por Regina Casé. “Não fazíamos o básico que era ler, decorar e falar. Nós conhecíamos as histórias e nos tornávamos co-autores do roteiro. Aquilo era a nossa vida e acho que, até hoje, tento trazer isto para os meus trabalhos. Por causa dessa técnica, acho que nunca li um texto durante toda a minha carreira”, elencou. Até hoje, tudo o que Regina Casé produz, a artista compara com o que fazia em sua juventude a frente do Asdrúbal. Se o produto estiver parecido, já sabe que pode ir adiante. “O Asdrúbal é a minha formação, sendo uma mistura da minha família, com a minha escola e faculdade. Tudo o que vivi pela primeira vez, como viagem, amor e trabalho, foi naquele espaço”, relembrou Regina que ainda confessou como aconteciam os romances da época: “Todo mundo pegava a Nina de Pádua e quem não conseguia, ficava entre mim e a Patricya. Em termos de peito, admito que fazia sucesso”.

Regina Casé acompanhada do filho (Fot: AGNEWS)

Apesar dos comentários dos bastidores serem muito positivos, a verdade é que na década de 70 o grupo teatral precisou enfrentar alguns desafios. Na época, se vivia no país a ditadura militar o que fez-se necessário muita luta, resistência e perseverança do grupo. Alguns dos ex-integrantes compararam a dificuldade artística e social daqueles anos com a atual e conseguiram traçar algumas semelhanças. “Esta história aconteceu nos anos 70, mas muitas coisas que a gente falava naquela época podem ser repetidas atualmente. Isto é terrível. Assistindo ao documentário percebemos isso. Infelizmente, pensamos que tínhamos nos livrado do que vivemos naqueles anos, mas muitas ideias voltaram. Não achamos que iríamos ver mais. Muitas frases proferidas ali podem ser ditas de novo”, lamentou Regina Casé. Apesar de serem períodos históricos diferentes, o elenco afirmou que o cenário atual também é complicado. “João Saldanha dizia algo como quem reclama já perdeu. Acho que temos que retrucar, sim, mas não devemos fazer disso um choro. Paulinho da Viola dizia que em um momento de muito nevoeiro, o marinheiro leva o barco devagar, logo não podemos passar por cima da sabedoria. Além disso, a melhor coisa que existe é a pessoa nascer e a segunda é continuar vivo, por isso temos que continuar”, reforçou o diretor Hamilton Vaz.

Grupo do Asdrúbal reunido para o lançamento do filme (Fot: AGNEWS)

Artisticamente, o recado que o Asdrúbal dá também é importante. “A nossa trupe vai encorajar os novos artistas como quem diz: não reclame, faz que dá certo. O teatro, para ser bom, não precisa de dinheiro, mas de encenação. Os tempos atuais estão mais difíceis que o passado, mas é importante que os jovens saibam que não é impossível”, garantiu Luiz Fernando Guimarães. Da mesma forma que o elenco pontuou que são os jovens devem continuar produzindo materiais artísticos, Evandro Mesquita pediu que os novatos focassem na qualidade. Assim como é possível continuar produzindo, é necessário oferecer uma arte aprofundada e crítica. “Acho que é muito importante que o artista mergulhe na história, nos outros nomes da arte e no texto. Não é para fazer algo superficial e novelão. O mercado está saturado de pessoas que sobem aos palcos apenas para esperar convite de novela. O teatro dá a oportunidade à pessoa de mergulhar fundo nesta loucura da arte. É uma entrega muito grande, mas a recompensa é descobrir como cada objeto diz algo. Tudo isso só pode ser descoberto em grupo, uma união que nós passamos no Asdrúbal”, completou Evandro.

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