*Por Brunna Condini
No exato ponto em que a teledramaturgia brasileira começa a caber na palma da mão, ou nas telas dos celulares, Debora Ozório faz parte desta história. A atriz inaugura a primeira novela vertical da TV Globo como protagonista de ‘Tudo por Uma Segunda Chance’, um formato pensado para o consumo digital, mas carregado das mesmas emoções que sempre moveram sua relação com a cena. O que muda, para uma atriz, quando a câmera passa a caber na palma da mão e disputar atenção com o scroll? “Não vejo isso como uma disputa por atenção. Para mim, o formato vertical complementa e alimenta esse universo. São muitas mudanças em relação à dramaturgia convencional, mas o maior desafio foi entender a medida das emoções da minha personagem dentro desse ritmo intenso. No começo, encontrar esse ponto de partida foi o mais difícil. E fomos ganhando fluidez, entendendo a proposta e o projeto começou a respirar junto”, diz ela, que também está no longa ‘O Rei da Internet‘, com previsão para o primeiro semestre de 2026.
Ao dividir o protagonismo com Jade Picon, uma das maiores influenciadoras do país em sua transição para a atuação, Debora se vê no centro de um debate recorrente no meio artístico: afinal, a entrada de criadores de conteúdo no audiovisual desvaloriza o ofício ou apenas reflete as transformações do mercado? A atriz pondera que essa não é uma questão que comporte respostas simplistas:
Não acho possível responder essa pergunta com isso ou aquilo. É delicado porque envolve muitos fatores. Cada um tem uma história, cada um chega de um jeito. Cada um tem suas escolhas. E eu, como uma profissional com ética, educação, estudo e respeito, compartilho do meu trabalho com quem tiver que compartilhar, com quem estiver presente ali. Até porque esse ofício é um ofício de troca, é feito dela – Debora Ozório

Débora Ozório inaugura a novela vertical da Globo e defende o talento e a qualidade acima do engajamento no novo audiovisual (foto: Maria Magalhães)
Ela lembra, inclusive, uma reflexão de Antônio Fagundes sobre o assunto, ao citar que Paulo Autran (1922-2007) era advogado antes de se tornar um dos maiores atores do país. “A gente precisa deixar o mercado resolver”, cita, antes de explicitar o seu próprio critério: “O que eu gostaria é que o principal fosse sempre o ofício de atuar, o talento, e não o engajamento ou o número de seguidores. A partir disso, não importa se a pessoa também é influencer ou não. Acredito muito no estudo, e dá muita força quando a gente vê esse lado vencendo”.
Nos bastidores de ‘Tudo por Uma Segunda Chance’, essa filosofia se traduziu em parceria. Debora conheceu Jade durante as gravações, em um projeto que, como o próprio formato, foi rápido, intenso e marcado por um clima de descoberta coletiva. “Foi uma troca muito rápida, mas muito maneira e muito divertida”, conta. “Todo mundo estava muito unido, muito empenhado em fazer acontecer”.
Debora Ozório, Jade Picon e Daniel Rangel: o triângulo da novela vertical ‘Tudo por Uma Segunda Chance’ (Foto: Divulgação/Globo)
Ela comenta ainda, que a multiplicidade de formatos existentes hoje não é uma ameaça, mas uma expansão natural do ofício. Em uma era que transita entre TV aberta, streaming, cinema e agora o digital vertical, Debora prefere olhar para esse cenário com otimismo:
É mais uma porta que se abre, mais possibilidades de mercado. Sempre vejo o copo mais cheio. Acho que tudo isso amplia o espaço para contar histórias – Debora Ozório

“O que eu gostaria é que o principal fosse sempre o ofício de atuar, o talento, e não o engajamento ou o número de seguidores” (Foto: Maria Magalhães)
Amadurecimento, autocuidado e espiritualidade
Prestes a completar 30 anos em outubro deste ano, a atriz que começou a carreira no teatro aos 12, afirma sentir só gratidão quando revisita o caminho até aqui. Sempre delimitando a existência pública da privada, nunca abriu mão de preservar sua intimidade e do cuidado com a saúde mental. “Faço muita terapia, olho para dentro. A vida é esse exercício de equilibrar vários pratinhos, vários pilares, e a terapia me ajuda muito nessa busca por equilíbrio”, afirma. Para ela, esse trabalho interno é tão importante quanto qualquer preparo profissional. No campo espiritual, Debora fala da sua ligação com a Umbanda, mas faz questão também de preservar esse espaço com delicadeza.
A religiosidade é um lugar sagrado para mim, que eu cuido e guardo com muito amor. A fé está em um lugar de muito respeito – Debora Ozório

“Sou emocionada com a vida. Amo ter brilho nos olhos pra tudo. Me considero uma atriz intensa” (Foto: Maria Magalhães)
E prefere manter as fronteiras bem definidas entre espiritualidade e vida pública. “Cada coisa tem seu espaço. Não acho saudável colocar tudo no mesmo potinho”. Quanto à ideia de ‘blindagem’ diante das energias da exposição, ela é clara: isso não vem da religião, mas do próprio posicionamento, do profissionalismo e da forma como escolhe conduzir a própria vida.
Mocinha humanizada
Associada a personagens sensíveis e intensos, como a Celeste de ‘Garota do Momento’ (2024-2025), sua novela anterior, em ‘Tudo por Uma Segunda Chance’ , Debora é Paula, uma mocinha que não se vitimiza. A atriz arrisca dizer que o segredo de uma boa mocinha está menos na pureza idealizada e mais na humanidade. Ao construir sua protagonista atual, ela partiu da ideia de uma mulher que não se paralisa diante da dor ou das dificuldades. “Queria uma mocinha que batalhasse pelo que quer, dentro dos valores dela, mas que não ficasse estagnada ”, explica.

Como Paula: “Queria uma mocinha que batalhasse pelo que quer” (Foto: Divulgação/Globo)
E, ao contrário da ideia de que as vilãs mobilizam mais o espectador, a atriz acredita que as mocinhas continuam, sim, despertando torcida. “Existe muita mocinha interessante, que o público se envolve, se identifica. Senti muito esse calor”, diz. E observa que as vilãs carismáticas, muitas vezes temperadas com humor ou contradições, também têm seu espaço, mas o verdadeiro triunfo da dramaturgia está em atravessar a tela: “Se o nosso trabalho desperta identificação, torcida, reflexão ou até raiva, é porque está funcionando”.
Sou emocionada com a vida. Amo ter brilho nos olhos pra tudo. Me considero uma atriz intensa. Apenas sou, sabe? E levo a profundidade do meu autoconhecimento e do encantamento com que vejo o mundo para o meu trabalho – Debora Ozório
A novelinha
‘Tudo por Uma Segunda Chance’ está disponível no Globoplay (para assinantes e não-assinantes na aba “Novelinhas”) e nas redes sociais da TV Globo: TikTok, Instagram, Facebook, X (Twitter) e YouTube. Com direção de Adriano Melo e roteiro de Rodrigo Lassance, o microdrama tem 50 capítulos, cada um com cerca de 2 a 3 minutos de duração.
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