*por Vítor Antunes
Uma celebração neste começo de ano para Rosane Gofman com meio século de trajetória artística, atravessando tempos e contextos com a mesma paixão que a guiou no início da carreira. Simboliza não apenas a longevidade profissional, mas também a reposição de trabalhos marcantes e o anúncio de novos projetos. A atriz retorna às telinhas na novela “Êta Mundo Melhor”, escrita por Walcyr Carrasco, uma extensão do universo de “Êta Mundo Bom”, sucesso de 2016. Além disso, pode ser vista diariamente em “Tieta”, clássico da teledramaturgia brasileira que, ao ser reprisado pela TV Globo, se transformou em um fenômeno de audiência no horário da tarde.
O ano também marca mudanças profundas na vida pessoal da atriz. Ela está totalmente recuperada depois de enfrentar uma cirurgia para a retirada de câncer e enfrentou o fim de um casamento de 30 anos com o cinegrafista Luiz Maidana. Com franqueza e serenidade, a atriz reflete sobre esse processo: “Eu me separei depois de 30 anos. A gente já tinha que ter se separado, porque ninguém se separa de repente depois de três décadas de casamento. As relações também se deterioram, se modificam. Eu tive um casamento longevo com uma pessoa muito diferente de mim e sofri muito durante os últimos anos antes da separação de fato. Acredito que a gente deve se casar com quem a gente goste de conversar. Chega uma hora em que isso vai ser muito mais prevalente. Tenho muito respeito por meu ex-marido, não tenho raiva, mas tive o luto do divórcio. É duro, dolorido. Faz parte da vida. Mas os recomeços também fazem parte. E é isso que vivo agora”.
Sou uma mulher muito materna. Eu sempre fui muito mãe, muito avó, muito tudo e estou num momento em que eu, inclusive, estou preferindo estar só. Não que eu não queira estar com os meus, mas se eu puder estar mais tempo comigo mesma, ótimo – Rosane Gofman
Rosane fala do sucesso da reprise de “Tieta“, que tem dado mais audiência do que a novela “Mania de Você” no horário nobre. “É um dos momentos mais importantes na minha carreira, uma fase de virada de chave, em que eu ganhei o respeito do público, que mostrei o que sabia. E, então, quando isso volta e me traz essas recordações maravilhosas, as pessoas reconhecem. É muito bacana que a gente entra nesse horário da tarde, em que todo mundo está vendo. As pessoas que assistiram em 1989 estão assistindo de novo. É um reencontro. Mesmo a novela sendo levada ao ar e com temas bem delicados, e sem muito corte, sem muito ajuste. Isso acaba sendo muito interessante também. “Tieta” é um marco na televisão brasileira”.
No teatro, Rosane estreia em fevereiro “Moderninha”, escrita por Paulo Fontenelle, que aborda questões da maturidade com leveza e humor. Paralelamente, segue em cartaz com “Eu Sempre Soube”, peça que há anos discute as vivências LGBTQIA+. “‘Moderninha’ trata sobre a terceira idade de uma forma bem-humorada, engraçada, divertida. Acredito que estou vivendo, aos 67 anos, quase que o começo na minha carreira. Quando a gente começa na profissão, pretende mudar o mundo. E eu me afastei disso durante a minha jornada profissional. Isso deixou de ser a minha meta, o que eu achava mais importante. Fiquei com medo que adormecesse, não que eu não quisesse continuar, que eu não pensasse da mesma forma. Mas aí eu chego nos meus 50 anos de carreira falando sobre coisas que eu acho realmente importantes. Sinto como se eu estivesse na minha plenitude de fazer enquanto atriz”.

Rosane Gofman: 50 anos de carreira passados a limpo (Foto: Priscila Nicheli)
ENTRE O DIABO E A BEATA
Exibida originalmente em 1984, a novela “Corpo a Corpo” foi um grande sucesso em sua época. Sua trilha sonora vendeu muito e influenciou tanto que até um hidratante corporal foi batizado com o nome da trama – e, surpreendentemente, o produto ainda é comercializado até hoje. A novela de Gilberto Braga (1945-2021) narrava a história de uma mulher que teria feito um pacto com o diabo para ascender na vida. O ‘tinhoso’ era interpretado por Flávio Galvão. Contudo, ao longo da trama, descobre-se que a história sobre o pacto com o diabo era, na verdade, uma farsa. Ou melhor, seria uma farsa. O verdadeiro ‘diabo’ era a personagem Jerusa, vivida por Rosane Gofman. A atriz relembra como essa revelação aconteceu na última cena do último capítulo:
A novela “Corpo a Corpo” fechou em mim. Acabou com um close na minha cara. Virei o diabo. A última cena foi aquela em que eu virava o diabo na novela, e eu estava muito nervosa, porque ia fechar na minha cara. Eu me lembro de uma pessoa que estava dirigindo a novela, de forma deselegante, ao ver meu nervosismo, falou: ‘Não precisa ficar assim desse jeito. Você não é a personagem principal, você não é protagonista. Menos.’ E aquilo me chocou. Mas, independentemente de ele ter me dito isso ou não, fiquei feliz por encerrar a novela – Rosane Gofman

Rosane Gofman em “Corpo a Corpo”. Cria-se que o diabo era o personagem de Flavio Galvão, mas era o dela (Foto: Reprodução/Viva Play)
Depois desta novela, embora tenha participado de outras produções, Rosane atuou em “Vale Tudo”, uma novela igualmente marcante, que será remontada neste ano com um novo elenco e substituirá a criticada “Mania de Você”. ‘Eu não faço ideia do que possa acontecer. “Vale Tudo” é tão emblemática, é tão importante na história da televisão, que eu acho difícil que aconteça alguma coisa igual. Pode ser muito bom enquanto uma nova novela, mas acho que qualquer coisa comparada à primeira versão [é desigual]. É outro elenco, outro autor, outro momento”.
Rosane volta à televisão com um papel na novela “Êta Mundo Melhor“, que estreia em 2025. Escrito por Walcyr Carrasco, o folhetim é uma continuação de “Êta Mundo Bom“. Na trama, Rosane interpreta Olímpia Castellar, uma atriz de radionovela. “Olímpia era vista como uma pin-up pelas pessoas, mas tinha uma personalidade muito diferente desse perfil na vida real”. Olímpia era uma mulher madura, muito longe do perfil que se entendia ser o de uma pin-up. A atriz também destacou seu carinho por Walcyr Carrasco, afirmando: “Ele me deu uma personagem muito especial, que foi a Roseli de ‘Chocolate com Pimenta‘, outro momento épico na minha vida.” As gravações de “Êta Mundo Melhor” começam em abril, marcando mais um capítulo importante na carreira da atriz.

Rosane Gofman voltará À TV numa novela inédita, apesar de estar em duas reprises (Foto: Priscila Nicheli)
MODERNINHA
Rosane Gofman retorna ao teatro em 2025 com a estreia de “Moderninha”, texto inédito de Paulo Fontenelle que celebra não apenas os 50 anos de carreira da atriz, mas também sua visão única sobre a vida e o envelhecimento. A peça, protagonizada por Rosane no papel de dona Marlúcia, conta a história de uma idosa moderna que tenta se adaptar às expectativas dos filhos, que desejam que ela seja “uma vovó mais comum”. O espetáculo aborda, de forma leve e divertida, as críticas aos rótulos impostos pela sociedade ao envelhecimento e ao comportamento da terceira idade. “A peça tem muito isso, do simplificar a personalidade das pessoas e combater preconceitos com relação à idade, inclusive da gente com a gente mesmo, e entender isso como parte da vida”.
Acho que o que pesa com a idade são as transformações do corpo. Eu sou gorda, há a fragilidade dos joelhos… Mas isso não me incomoda. Inclusive, se alguém se incomoda com a minha idade, esse problema não é meu. Reconheço que a gente deteriora mesmo, com a idade nos vemos mais diante da finitude. Minha mãe, antes de falecer, disse ter pena de morrer. Eu tenho filhos, netos, uma família que amo. Reconheço que já vivi muito mais do que viverei. Me incomoda é saber que não estarei com eles para sempre – Rosane Gofman
Segundo Paulo Fontenelle, autor da montagem, a personagem Marlúcia foi criada com forte inspiração em Rosane. “Ela comentou que completaria 50 anos de carreira em 2025. Imediatamente pensamos na ideia de que eu escrevesse um texto para marcar a data. A ideia do espetáculo ‘Moderninha’ foi algo muito natural, um texto com uma personagem ficcional, mas que desse voz aos pensamentos dela sobre a terceira idade. Rosane sempre foi uma mulher ‘moderna’, guerreira, batalhadora, ‘pra frente’. E sempre me marcou pelo seu bom humor.”

Rosane Gofman em “Moderninha”. Peça estreia dia 14 de feverreiro, no Rio (Foto: Priscila Nicheli)
Além de brilhar nos palcos e nas telas, Rosane também dedica sua vida à formação de atores. Fundadora do Teatro Escola Rosane Gofman (TERG), na Tijuca, ela reflete sobre a importância do teatro como base para a carreira artística e o impacto de sua escola na vida de centenas de alunos: “Acredito que a gente tem que estudar, ler bastante e, claro, fazer televisão se for a vontade, mas não pode ser a coisa mais importante no começo da carreira. Eu acho que teatro é fundamental. Eu tenho minha escola há 32 anos na Tijuca, a escola que eu fundei e que já foi profissionalizante e que a gente agora tá estudando a possibilidade de voltar a ser. Estamos com 300 alunos. Temos vários professores muito bacanas que dão aula lá e na Casa das Artes de Laranjeiras (CAL). Eu acredito que a minha escola vem se aprimorando, especialmente depois de termos fechado durante a pandemia”.
Rosane também comenta sobre o desejo de muitos jovens em buscar o teatro, seja como forma de expressão genuína ou como trampolim para a fama. Para ela, o estudo e a paixão pela arte devem estar acima de qualquer ambição superficial. “A gente faz questão de mostrar para os alunos o quanto é importante fazer teatro, ler sobre teatro, estudar. E eu tenho muito orgulho do TERG”.
ENTRE O BEIT E O ILÊ
A atriz, de formação judaica, revela uma relação singular e integradora com a espiritualidade. Apesar de suas raízes no judaísmo, sua conexão com as religiões de matriz africana foi construída dentro do próprio núcleo familiar e se aprofundou ao longo da vida. “Eu conheci a umbanda através dos meus avós, que eram judeus. A minha avó, ela recebia as entidades; meu avô era o cambono dela, e ele é quem abria as sessões do centro com discursos belíssimos a respeito da espiritualidade. Então, não é de hoje que eu tenho esse outro lado que vem comigo através do meu avô judeu. Meus filhos mais velhos foram batizados no centro espírita do meu avô, e eu, mais para frente, me caso com um homem preto, o que me mantém na religião afro.”
Rosane destaca a intersecção entre os universos negro e judaico em sua trajetória pessoal e profissional. Essa convivência com diferentes crenças e culturas moldou uma visão de mundo inclusiva e profundamente antirracista. “O universo do negro e dos judeus sempre foi muito forte para mim, e eu respeito muitíssimo. Eu sou absolutamente antirracista. Eu super ligada na espiritualidade, nas religiões afro, assim como eu me sinto absolutamente feliz por ter nascido dentro do judaísmo. Mas foi dentro do judaísmo que eu conheci a umbanda, o que me fez acabar tendo um olhar distante sobre o que se relacionava à questão judia. Mas, em mim, as questões se misturam”.
A atriz reflete sobre como sua espiritualidade se tornou uma fonte de paz e equilíbrio, sobretudo nos momentos desafiadores da vida. “Há um momento na vida em que, quando as coisas não acontecem, você precisa da fé ou de seguir um caminho que te dê mais tranquilidade. E você vai no caminho que te traz isso, isso. E eu acho que foi isso que aconteceu. O importante é a gente ser feliz, respeitar as pessoas, amar as pessoas como elas são, sem demagogia, sem panfletagem.”
Apesar da relação harmoniosa com a fé afro-brasileira, Rosane reconhece que enfrentar preconceitos ainda é uma realidade, sobretudo nas redes sociais. “Toda vez que posto temas relacionados à umbanda diminuem os seguidores”, revela.

Rosane Gofman é judia e umbandista (Foto: Priscila Nicheli)
Ao completar 50 anos de carreira, Rosane Gofman não esconde o quanto é tocada pelo efeito que seu trabalho tem sobre o público. A atriz, que atualmente protagoniza a peça “Moderninha” e segue em cartaz com “Eu Sempre Soube”, compartilha sua visão sobre o poder transformador da arte e a importância de abordar temas relevantes e emocionais em cena. “O que me emociona quando eu faço uma peça, um espetáculo, é que as pessoas se sentem tocadas, elas de repente, pensam suas vidas, mudam os seus olhares sobre os outros. É por isso que eu te digo que esses 50 anos, junto com as duas peças, lanço meu olhar para pessoas que vivem momentos difíceis, como os LGBTs, os idosos… é uma comemoração eu estar nesse lugar e poder falar desses temas.”
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