De volta ao Brasil, Barbara França encara papel polêmico em série bíblica: figura histórica tida como ninfomaníaca


Após temporada em Portugal, a atriz se prepara para protagonizar “Oseias – O Senhor e a Serva”, na Record ambientada na Roma Antiga. Ela viverá Messalina, personagem histórica tratada como promíscua, mas aqui interpretada como uma mulher estratégica, ousada e vilã da trama. A série mistura conflitos religiosos e políticos, e propõe discutir o silenciamento feminino ao longo da história. Barbara também estrela o longa ‘De Volta à Bahia’ e a série ‘Vizinhos para Sempre’

*por Vítor Antunes

Ela voltou ao Brasil depois de morar em Portugal. E não apenas retornou, mas se reencontra com a própria essência feminina. Barbara França vai fazer uma série na Record — “Oseias – Senhor e a Serva”. A atriz não apenas revela um pouco mais sobre sua personagem como também do próprio projeto da Record. Ela dará vida à personagem Messalina (17d.C.- 48 d.C.) — mulher que ficou conhecida historicamente por ser promíscua e ninfomaníaca, ainda que fosse apenas livre numa sociedade majoritariamente masculina. Eis aí, inclusive, um dos maiores desafios: como fazer uma personagem com essa característica numa novela? “Messalina foi uma mulher ousada, à frente do seu tempo, que se recusava a se calar e fazia o que queria. Vamos explorar essa faceta dela: sua ousadia, sua inteligência, sua ambição por poder. Ela era estratégica, não dava nenhum passo sem um propósito bem calculado. O lado promíscuo dela, embora marcante, não será o foco da nossa trama. A personagem que interpreto é extremamente apaixonada e obcecada por Caius (Dudu Pelizzari) — é o homem que ela quer e com quem se envolve. Veremos muito mais esse lado inteligente, manipulador e obstinado dela do que qualquer traço de promiscuidade. Sim, podemos considerar que ela será uma das vilãs da trama. Na verdade, ela é a vilã. A vilã principal. E usa a sedução como arma de manipulação”.

Além da novela, Bárbara poderá ser vista em breve no cinema, no longa “De Volta à Bahia”, no qual vive a surfista Maya. “Eu tenho um trabalho que fiz há pouco tempo, que foi um longa na Bahia, e que deve estrear ainda este ano, muito provavelmente. Um filme no qual interpretei a protagonista. Ainda neste ano, estou no ar com “Vizinhos para Sempre”, série que está sendo exibida na Amazon Prime e na TVI, em Portugal”.

ENTRE MESSALINA E BADERNA

Durante os trabalhos de pré-produção da série “Oseias – O Senhor e a Serva”, próxima aposta da Record em dramaturgia bíblica com ambientação histórica, a atriz Barbara França compartilhou bastidores e reflexões sobre sua preparação para viver Messalina, personagem inspirada em uma das figuras femininas mais controversas da Roma Antiga. A trama, que mistura elementos religiosos e históricos.

Barbara destaca a velocidade com que as engrenagens da teledramaturgia operam nas emissoras: “Sabemos como é essa engrenagem de novela e série nas emissoras: é uma dinâmica industrial, tudo muito rápido.” Agora, com as gravações prestes a começar, ela participa ativamente das leituras ao lado do ator Dudu Pelizzari, que interpreta o protagonista. “Estamos na pré-produção da série. Estamos prestes a começar as gravações já na próxima segunda-feira”, revela.

O processo criativo inclui mudanças visuais, como a transformação do cabelo da atriz, que deixou o louro para adotar o tom ruivo, além de ensaios intensos para criar vínculos entre os personagens: “Estou nesse processo criativo, que é muito prazeroso. Temos leituras com os colegas que têm relação direta com Messalina, especialmente com o Dudu, com quem tenho ensaiado bastante”.

Apesar de se passar em um contexto bíblico, a série se ancora na atmosfera da Roma Antiga, com cenários grandiosos, batalhas e cenas em anfiteatros, o que, segundo a atriz, amplia os desafios de produção: “Vamos levar quatro meses para gravar, porque os episódios são longos e muito complexos do ponto de vista logístico”.

Barbara também ressalta que sua personagem não é uma representação direta de Messalina, mas uma interpretação livre inspirada em sua trajetória. Ao mergulhar nesse universo, a atriz reflete sobre o tratamento dado às mulheres na época e como sua personagem rompe com padrões machistas ainda vigentes: “Ela foi uma mulher extremamente empoderada, que ultrapassava a bolha do patriarcado em uma época em que mulheres não tinham voz. Enquanto os homens tinham amantes livremente, as mulheres não podiam agir da mesma forma. Ela ousou fazer o mesmo que os homens: teve amantes, influenciou na política, se casou com o imperador e exerceu poder”.

Bárbara França: “ultrapassava a bolha do patriarcado em uma época em que mulheres não tinham voz” (Foto: Priscila Nicheli)

Refletindo sobre a construção de sua personagem, Barbara destaca o quanto o olhar social sobre mulheres livres, ousadas e transgressoras ainda é influenciado por estruturas machistas profundas. Inclusive, messalina virou substantivo, tal como baderna – inpirado na atriz Marietta Baderna (1828-1892) – cuja postura libertária escandalizava. “Mulheres transgressoras acabaram virando substantivos. Acho que isso reflete como a nossa sociedade é estruturalmente machista. Sempre houve homens tentando silenciar, calar e manchar a imagem de mulheres. Messalina, por exemplo, não fazia nada de diferente do que os homens da época faziam”, afirma.

A série, que contará com cerca de dez episódios, será gravada ao longo de quatro meses devido à complexidade das cenas e à grandiosidade da produção. Com batalhas e disputas de poder como pano de fundo, “Oseias – O Senhor e a Serva” também abre espaço para discutir questões históricas ainda muito atuais, como o controle sobre o corpo e a liberdade feminina.

A mulher, desde os primórdios, foi ensinada a ficar calada, a desempenhar o papel da boazinha. E, quando uma mulher rompe com esse papel, causa espanto – Bárbara França

A atriz também destaca que boa parte da história de Messalina foi apagada pelo próprio imperador com quem ela foi casada, Claudius (17dC – 48dC) . “Ele mandou eliminar todos os registros sobre ela: escritos, estátuas, tudo. Ele tentou silenciá-la”, relata. Para Barbara, o apagamento de figuras como Messalina é parte de um padrão que se repete ao longo da história, onde mulheres que desafiam o status quo são difamadas ou esquecidas. “Hoje, vejo Messalina como uma grande feminista”.

TUGA

A atriz refletiu sobre temas que ultrapassam os bastidores da dramaturgia. Morando por um período em Portugal, ela compartilha impressões sobre as diferenças culturais que percebeu durante sua estadia no país, tanto no ambiente profissional quanto no convívio social: “Nós, brasileiros, somos muito calorosos, enquanto os portugueses são mais reservados, mais na deles. Não vivi nenhuma situação em que me senti desrespeitada como mulher”.

Barbara também destacou contrastes importantes entre Brasil e Portugal em relação à forma como cada país lida com saúde, bem-estar e hábitos cotidianos. Para ela, há uma clara mudança geracional em curso no Brasil, que valoriza cada vez mais o cuidado com o corpo — não apenas por estética, mas pela saúde. “Vejo muitas pessoas jovens nas academias, preocupadas não só com a estética, mas principalmente com a saúde. Acho isso fantástico. Nosso corpo é o nosso templo, é o que temos de mais precioso na vida. Hoje em dia, faço academia conciliando com a rotina de gravações”.

Bárbara França: “vejo Messalina como uma grande feminista” (Foto: Priscila Nicheli)

Apesar de comemorar o avanço da consciência sobre hábitos saudáveis, Barbara faz um alerta importante sobre os perigos do excesso — especialmente quando se trata de treinos intensos, uso de substâncias para ganho muscular e automedicação. “Acho que ainda há pouco debate sobre os riscos do excesso — do chamado overtraining, do uso de anabolizantes e da automedicação em geral. Dentro da minha realidade, o que mais me espanta são as pessoas que se automedicam com frequência. É tudo muito acessível — com um celular na mão, você entra em redes sociais e vê pessoas incentivando esse tipo de prática. É preciso ter muito cuidado com o que se comunica. Não sabemos quem está do outro lado assistindo, e pode ser alguém facilmente influenciado. Em certas redes sociais, há verdadeiras campanhas incentivando o uso de anabolizantes, e isso é alarmante. Precisa haver debate”.

REDE SOCIAL

A atriz também se vê atravessada pela presença constante das redes sociais — ferramenta que, para ela, se tornou indispensável para o artista contemporâneo, mas que exige consciência e limites. Muitos artistas enfrentam em tempos de hipervisibilidade. Apesar de reconhecer a força das redes como uma vitrine profissional e uma forma de conexão com os fãs, Barbara também alerta para os riscos da superexposição e os efeitos colaterais de uma presença digital intensa. A atriz revela que, em determinado momento de sua carreira, foi vítima de perseguição virtual por parte de um seguidor. “Ao mesmo tempo, a exposição também traz outros aspectos com os quais precisamos ter cuidado. Já passei por situações bem complicadas nas redes sociais, com pessoas que me perseguiam. Cheguei a ser vítima de stalking e precisei fazer boletim de ocorrência”, contou, sem entrar em detalhes.

O reencontro de Barbara França com Messalina — e, em certa medida, consigo mesma — acontece em um momento de resgate íntimo e simbólico. De volta ao Brasil, depois de um período morando em Portugal, a atriz mergulha em um projeto que lhe exige coragem e entrega, mas que também ecoa questões profundas sobre a mulher que se recusa a ser silenciada. É nessa travessia entre o pessoal e o artístico que ela volta a se debruçar sobre um livro que já conhecia, mas que agora ganha novo significado: “Mulheres que Correm com os Lobos”, de Clarissa Pinkola Estés. “É um livro muito interessante para nós, mulheres. Ele fala justamente sobre resgatar o arquétipo da mulher selvagem, empoderada — para que não caiamos nesse limbo de sermos silenciadas, para que possamos reencontrar nossa força. Quem é mulher sabe que precisa fazer isso todos os dias. Às vezes é numa conversa banal, ao ouvir uma piada… mas é importante estar atenta”. Entre leituras, ensaios e batalhas simbólicas dentro e fora da tela, Barbara encarna não só uma personagem histórica, mas uma ideia de resistência que atravessa séculos: a da mulher que, mesmo calada, não se rende ao silêncio.