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De Hércules a Cristiano Ronaldo: 50 anos depois do peito de pombo dos halterofilistas, triunfa o tanquinho dos jogadores na Copa

Hoje ridicularizado, o ciclo cinematográfico italiano que exaltou o fisiculturismo através de Hércules, Maciste, Sansão e Ursus chegava ao fim em 1964, mas já preparava seu retorno triunfal na vitrine contemporânea da Copa do Mundo

Publicado em 22/06/2014 | Por Alexandre Schnabl

* Por Flávio Di Cola

Durante quase dez anos, de 1957 a 1964, um grupo de fortões com nomes “artísticos” tão falsos como uma nota de R$ 3,00 dominou o imaginário cinematográfico mundial. Steve Reeves, Gordon Scott, Ed Fury, Mark Forest, Samson Burke, Alan Steel, Reg Park, Mike Lane, Kirk Morris, Rock Stevens, Brad Harris ou Dan Vadis: estes – entre outros ex-halterofilistas ou guarda-vidas – dizem alguma coisa para você, caro leitor? Provavelmente, nada. Mas todos nós, certamente, já paramos para assistir de madrugada a pelo menos um ou outro desses “épicos” que misturavam, sem nenhuma noção, história com mitologia através de cruzamentos bizarros como “Maciste contra o vampiro” (1961), “Messalina contra o filho de Hércules” (1963) ou – no auge da insensatez – “Zorro contra Maciste” (1963).

Trecho de “Maciste contra o vampiro” (Reprodução)

Diante da onda recente de blockbusters hollywoodianos baseados no universo greco-romano e seus elencos de super estrelas – como “Gladiador” (Gladiator, 2000, de Ridley Scott, com Russell Crowe e Joaquin Phoenix), “Tróia” (Troy, 2005, de Wolfgang Peterson, com Brad Pitt, Eric Bana e Orlando Blum),  “300” (Idem, 2006, de Zack Snyder, com Gerard Butler e Rodrigo Santoro), “Fúria de Titãs” (Clash of The Titans, 2010, de Louis Leterrier, com Sam Worthington) ou o recente “Pompeia” (Pompeii, 2014, de Paul W. S. Anderson, com Kit Harrington), e com dois longas prestes a estrear no segundo semestre, “Hércules” (idem, 2014, de Brett Ratner, estrelado pelo The Rock Dwayne Johnson) e “A Lenda de Hércules” (The Legend of Hercules, 2014, de Renny Harlin) –não é difícil entender o fascínio permanente desse gênero originalmente italiano e batizado com cruel ironia de “espada-e-sandália” (sword-and-sandal para o mundo anglo-saxão), como se ele fosse um mutante constrangedor do seu primo mais respeitado, o bom e velho “capa-e-espada”.

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Além disso, a sufocante e atualíssima hegemonia de franquias cinematográficas calcadas em super-heróis, do tipo montanhas-de-músculo das histórias em quadrinhos no mercado de entretenimento infanto-juvenil, desde “Conan, o bárbaro” (Conan, the barbarian, 1982, de John Milius) com Arnold Schwarzenegger, comprova o gosto sempre renovado das massas por narrativas tão simplórias quanto heróicas, mas de grande apelo visual. Jung e a sua teoria de “inconsciente coletivo” explicam…

Esses filmes histórico-mitológicos – produzidos na Itália aos magotes no final dos anos 1950 e início dos 1960 da forma mais mercenária e oportunista possível – e que atenderam aos anseios mais ingênuos por aventura, romance, fantasia e sensualidade de milhões de espectadores nos programas duplos de cinemas de terceira linha, começaram – já há algum tempo – a passar pelos inevitáveis processos de reciclagem cultural promovido pela indústria do entretenimento. E o primeiro passo rumo ao resgate envolve precisamente a exaltação das precariedades e dos absurdos de filmes como “Hércules e a rainha da Lídia” (1959), “Maciste na terra dos cíclopes” (1961) ou “Ursus e a princesa tártara” (1962), através de um olhar entre o irônico e o zombeteiro de um público muito específico que procura incessantemente por novos artefatos para consumo cult.

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Kitsch ou, simplesmente, bregas? Camp ou apenas toscos? Trash ou, em bom português, drogas? O debate é interminável. Mas a verdade é que, na época, eles não foram produzidos para serem voluntariamente engraçados ou ridículos. Milhões de fãs multiplicaram-se mundo afora depois do sucesso arrasador na Europa e no quase inacessível mercado norte-americano do primeiro “espada-e-sandália” desse ciclo – “Os trabalhos de Hércules” (Le fatiche di Ercole, 1957) estrelado pelo fisiculturista nascido no estado de Montana (EUA) Steve Reeves (1926-2000) que – nos anos seguintes – viveria toda uma galeria de heróis surrupiados de lendas e mitologias da antiguidade mediterrânea como Golias, Enéas, Rômulo e Remo e Spartacus, ou de um Oriente de folhetim, como o pirata Sandokan, inventado no século 19 pelo novelista italiano Emilio Salgari.

Trailer de “The Colossus of Rhodes” (Reprodução)

Nessa época, Reeves consagrou-se como o “ator” mais bem pago de todo o cinema europeu, depois de um início frustrante em Hollywood: escolhido por Cecil B. DeMille para viver o papel-título de “Sansão e Dalila” (Samson and Delilah, 1954, co-estrelado por Hedy Lamarr), foi descartado quando não conseguiu perder peso no prazo requerido até o início das filmagens e foi substituído por Victor Mature. Mesmo assim, os problemas de DeMille não acabaram: impressionado com o 1m88 de altura de Mature, o diretor ficou estarrecido ao inspecionar as condições físicas do astro e descobrir que todo aquele tamanho se traduzia em pura banha quando fotografado em Technicolor. Encurralado, DeMille foi obrigado a atrasar as filmagens do seu épico bíblico até o recondicionamento de Mature.

A Itália foi o destino certo não só para Steve Reeves como também para uma multidão de vencedores dos concursos de Mr. America, Mr. Muscle Beach ou Mr. Olympia que agitavam o mercado fisiculturista que – por sua vez – não parava de crescer desde o fim da Segunda Guerra, atingindo o seu auge exatamente nos anos 1950, a ponto de desenvolver toda uma sub-cultura ao qual o cinema “espada-e-sandália” italiano acabou se inserindo. O eterno James Bond, Sean Connery, é um dos exemplos mais conhecidos de como essas passarelas de músculos podiam catapultar um corpão para o sucesso: depois de ter sido motorista de caminhão, leiteiro, balconista e lustrador de caixões de defunto, foi o seu 3o lugar no concurso de Mr. Universe 1953, como representante da Escócia, que lhe abriu as portas da celebridade no teatro e, depois, no cinema.

Embora essencialmente masculinos na sua exaltação de qualidades como bravura e exibição de força física, os filmes de “espada-e-sandália”, ainda assim, tiveram uma “diva” – a calabresa e ex-vice Miss Itália Gianna Maria Canale (1927-2009), conhecida como “a Ava Gardner italiana”, que estrelou dezenas de produções histórico-mitológicas, incluindo o já mencionado e pioneiro “Os trabalhos de Hércules”, passando indistintamente do papel de namorada do filho de Zeus para o de Rainha dos Piratas ou das Amazonas, rebaixando-se aos papéis de escrava boazinha, voltando como Teodora, imperatriz de Bizâncio, ou nas feições de uma Tigresa dos Sete Mares, ou mesmo como a vampira Giselle.

Trecho de “La Regina delle amazzoni” (1060), com a ex-vice miss Itália seduzindo barbados  (Reprodução)

Mas o atrativo para o público eram mesmo os “fortões”. No raciocínio dos espertos produtores italianos, a origem norte-americana desses halterofilistas garantiria o acesso ao maior mercado do mundo e justamente onde o fisiculturismo era uma quase religião. Uma parte significativa do filão “espada-e-sandália” saía dos estúdios da Cinecittà, ou de outros palcos de filmagem muito mais modestos, já dublada em inglês macarrônico e – em muitos casos – completamente dessincronizada, realçando ainda mais a precariedade original de alguns títulos para a delícia dos atuais amantes do trash.

Além disso, em Roma – naquela época a capital cinematográfica da Europa – sobravam abandonados os cenários e os figurinos remanescentes de vários épicos de Hollywood como “Quo Vadis” (Idem, 1951, de Mervyn Le Roy, com Robert Taylor), “Ulisses” (Ulysse, 1954, de Mario Camerini, com Kirk Douglas) ou “Helena de Tróia” (Helen of Troy, 1956, de Robert Wise, com Rossana Podestà), rodados na Itália para diminuir os custos de produção, para fugir dos sindicatos de Los Angeles e para descongelar os excedentes dos lucros dos filmes americanos retidos pela legislação italiana. Hoje, é muito divertido conferir como os mesmos cenários de poliestireno, as mesmas túnicas e até as mesmas bijuterias entram e saem de um filme para outro com a maior desenvoltura. Assim, uma mesma indumentária poderia estar no corpo de uma sacerdotisa em “Hércules e a conquista da Atlântida” (1961) para reaparecer depois como figurino de uma cortesã em “Ursus, o gladiador rebelde” (1962).

Se não bastassem todas essas vantagens econômicas, o final dos anos 1950 testemunhou o surgimento de novos e mais baratos sistemas de cor e de tela larga, que também ficaram ao alcance das pequenas casas produtoras italianas. Por isso, o destaque orgulhoso nos créditos iniciais de muitos desses épicos “espada-e-sandália” de dispositivos como o TotalScope, o SuperTotalScope, o Techniscope ou SuperTechnirama, como se só eles fossem capazes de captar a grandiosidade “espetacular” das famigeradas cenas de dança ao redor de uma pira de fogo ou de uma serpente, ou das inevitáveis sequências finais com um terremoto em que o tirano e sua corte devassa são soterrados por toneladas de isopor.

O declínio do ciclo “espada-e-sandália” chega rapidamente: depois do auge, em 1961, com a marca de 31 filmes, a produção desaba para 25, em 1962, e quase desaparece em 1964, ano que testemunha a entrada “a bala” de um novo e avassalador gênero que varrerá das telas os Hércules e os Macistes para substituí-los pelos Djangos e Sartanas, mantendo a máquina cinematográfica italiana em movimento e popular mundo afora: o western spaghetti com o seu primeiro clássico “Por um punhado de dólares” (Per um pugno di dollari), dirigido por Sergio Leone e estrelado por um calado Clint Eastwood.

Quase todos os diretores que construíram a glória dos épicos mitológicos como Sergio Corbucci, Mario Bava, Vittorio Cattafavi, liderados por Leone, debandaram em massa para os desertos e saloons – agora recriados logo ali, na Espanha. Os atores também trocaram suas “espadas-e-sandálias” por “pistolas-e-botas”, como Giuliano Gemma, que adotou o pseudônimo Montgomery Wood, ou Mario Girotti que se transformou num passe de mágica em Terence Hill. O próprio Leone assinará seu primeiro spaghetti  como Bob Robertson. Os nomes mudavam, mas a preocupação com o mercado norte-americano era eterna.

Hoje, em plena Copa do Mundo do Brasil, quando vemos como os corpos dos jogadores estão cada vez mais sarados pelos avanços da tecnologia, atraindo a demorada contemplação das câmeras de TV da FIFA estrategicamente colocadas para não perderem um só momento da troca de camisas entre atletas dos times oponentes, somos convidados a refletir sobre o papel cada vez mais central do corpo no imaginário e entre as prioridades de toda a humanidade. Esse culto, tão antigo como a Grécia Clássica, voltaria com toda a força na modernidade através da patética pretensão dos épicos “espada-e-sandália” e seus halterofilistas com peito de pombo, barbas pontiagudas e topetão. Talvez, só por isso, eles mereçam um olhar mais atento do que o de simples desprezo ou deboche.

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Fotos (Reprodução)

* Flávio Di Cola é publicitário, jornalista e professor, mestre em Comunicação e Cultura pela UFRJ e coordenador do Curso de Cinema da Universidade Estácio de Sá. Apaixonado pela sétima arte em geral, não chega a se encantar com blockbusters, mas é inveterado fã de Liz Taylor – talvez o maior do Cone Sul -, capaz de ter em sua cabeceira um porta-retratos com fotografia autografada pela própria  

 

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