*por Vítor Antunes
Ela gostava de usar tamanco, “por ser confortável”, e de se maquiar, “mas só para trabalhar”. O quarto era seu refúgio doméstico, o lugar onde o mundo diminuía de volume. Hoje, 28 de dezembro, completam-se 33 anos da morte de Daniella Perez (1970-1992), atriz brutalmente assassinada, em 1992, por Guilherme de Pádua e Paula Thomaz. Mergulhamos nas lembranças do universo pessoal e profissional da atriz, na memória que mantêm acesa a ternura Daniella. Há filmes, documentário e séries que se debruçaram sobre a história do assassinato. O que interessa aqui é outro gesto: traçar o perfil da atriz a partir de seu pensamento, de entrevistas, gostos e lembranças, muitas delas pouco conhecidas. Se estivesse viva, Daniella teria hoje 55 anos. Mas permanece jovem na memória de quem a acompanhou.
Daniella alcançou a fama por seu trabalho em 1990, aos 19 anos, ainda bailarina do grupo “Vacilou Dançou”. Na ocasião, acabara de ser contratada pela Globo para integrar o elenco de “Barriga de Aluguel”. Ao falar daquele momento, ao Jornal do Brasil, lembrava que o sonho da mãe – a autora Gloria Perez – era ter sido bailarina. “Minha mãe sempre quis ser bailarina, mas na época não foi possível”, contou Daniella. “De certa forma, Gloria encampou a causa”. Daniella, então, pensava em viver exclusivamente da dança no Brasil, enquanto conciliava o ofício com a televisão. “É excelente experimentar este lado e, ao mesmo tempo, mostrar a arte da dança, tão desvalorizada no país”.

Daniella Perez foi assassinada em 1992 (Foto: Reprodução)
Ainda ao JB, ela dizia não sentir a vida profundamente alterada pela fama, mesmo após “Barriga de Aluguel”, embora reconhecesse que se tornara mais reclusa. Para Daniella, o principal sintoma da celebridade era a agenda com pedidos de entrevistas, convites para capas de revista. Muitas vezes, os fãs pediam autógrafos não apenas a ela, mas também a quem estivesse ao redor: figurinistas, técnicos de som, profissionais anônimos que orbitavam o brilho das câmeras.
DESEJO DE VIVER
No início dos anos 1990, a jornalista Elisabeth Orsini, do Jornal do Brasil, traçou um perfil minucioso da atriz, registrando desde seu perfume preferido até livros de cabeceira e frases que guardava como pequenas bússolas íntimas. Perguntada se tinha algum arrependimento, Daniella respondeu: “Arrependimento, arrependimento, não. Acho que a gente aprende com tudo, principalmente com os erros. A arte da vida é não controlar o que acontece com a gente”.
Daniella era leonina. Usava o perfume “Obsession”, da Calvin Klein. A personalidade que mais admirava era Federico Fellini (1920-1993). A palavra que pautava a sua vida era “desejo”. Seu caro favorito era um “Escort preto”. Coincidentemente, era o carro que havia comprado há pouco tempo e o que dirigia no dia do crime. Àquela altura, Daniella tinha duas gatas, Brida e Luna, que viviam com a mãe da atriz, a quem ela definia como “a mulher mais inteligente que conhecia”. Para ela, o homem mais inteligente era o avô, Miguel Ferrante.
Entre seus atores preferidos estavam Marcello Mastroianni (1924–1996) e Gloria Pires, que, em 1991, interpretara sua irmã, Stella, em “O Dono do Mundo”. Seus cantores favoritos eram Caetano Veloso, Marina Lima e Elis Regina (1945–1982). No fim de 1992, Daniella lia “O Segundo Sexo”, de Simone de Beauvoir (1908-1986). Um dos sonhos que não pôde cumprir ficou registrado assim: “Já contracenei com muita gente que admiro. Meu sonho é contracenar com meu marido (Raul Gazolla)”.
[Em “De Corpo e Alma”] estão trabalhando um grande ator e uma super atriz: José Mayer e Daniella Perez – Nadia Dina, leitora do Jornal do Brasil, de Fortaleza (CE)

Daniella Perez e Eri Johnson em “De Corpo e Alma” (Foto: Divulgação/Globo)
Após o fim de “O Dono do Mundo”, em 1991, Daniella não pretendia voltar à televisão. Planejava estrear um musical infantil. No início de 1992, acabou integrando o elenco de “De Corpo e Alma”. Ao jornal O Pioneiro, de Caxias do Sul (RS), a atriz torcia para que sua personagem, Yasmin, terminasse a novela com Caio (Fabio Assunção), conforme o plano inicial da autora. “No fundo, acho que a Yasmin vai ficar com Caio, que conhece há mais tempo”.
A atriz também lembrava o início do relacionamento com Raul Gazolla, em 1989. “Ele me seduziu. Me trazia presentinhos, ligava sempre, não deu para resistir”, revelava. Enquanto ela vivia uma musa suburbana assediada em “De Corpo e Alma”, Gazolla era um dos protagonistas de “Deus nos Acuda”. O ciúme, dizia, não se impunha. “A gente vive muito junto. Isso afasta qualquer outra coisa”.
Ela se definia como uma menina impulsiva. “Tenho um gênio do cão e não dou o braço a torcer”, pontuava. Embora tivesse vivido quase sempre para a dança, cursou dois anos de Direito. “Achava bonito.” Leitora de romances de Honoré de Balzac, (1799-1850) considerava-se romântica e planejava uma viagem pela Europa e uma temporada em Los Angeles para aperfeiçoar o inglês, que estudava em aulas durante a semana. E contava, à época, que estava ensaiando “minha primeira peça”.

Raul Gazolla foi casado com Daniella Perez (Foto: Divulgação)
“Dança Comigo”, é escrita pelo João Brandão e coreografada por Sandra Regina. No elenco estão meu marido [Raul Gazolla] e o ator Duda Ribeiro. Vai ter muita dança de salão – Daniella Perez, ao JB, em 18/10/1992
FORÇA E GARRA
Na coluna de Regina Rito, no Jornal do Brasil, Daniella afirmava não se sentir “prejudicada” por ser filha de Gloria Perez. Ao contrário. “[Isso] só ajuda.” Na reportagem, ela e Bel Kutner, também filha de atores famosos – Paulo José (1937-2021) e Dina Sfat (1938-1989) -, apareciam como “filhos de peixes que são peixinhos”, isto é, segundo a colunista, ambas estavam “no mesmo aquário”.
Ela afirmava que foi a força e a garra pela profissão que explicava sua permanência diante das câmeras. “Foi o Dennis Carvalho quem me deu a grande chance em ‘O Dono do Mundo’”, dizia. Sem preparação formal, encarou o desafio de ser irmã de Gloria Pires na novela de Gilberto Braga (1945-2021) e afirmava ter recebido muitos elogios. “Não fiz nenhum curso, mas acho que aprendi muito com a televisão”.
Não se desfaça nunca de seus sonhos. Sem eles você continuará a existir, mas terá deixado de viver – Daniella Perez, ao JB, em 18/10/1992

Daniella Perez em “O Dono do Mundo”. Ela viveu Yara, em sua penúltima novela (Foto: Reprodução/TV Globo/foto tratada e recuperada por iA)
É nesse inventário íntimo, feito de desejos, escolhas e pequenas confissões, que Daniella Perez continua existindo: menos como personagem interrompida e mais como uma jovem em permanente estado de curiosidade diante da vida.
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