*Por Brunna Condini
Depois de viralizar ao vivo durante um jornal na TV, reproduzindo o grito do filme ‘Enterre Seus Mortos’, de Marco Dutra, em cartaz nos cinemas, que estrela ao lado de Selton Mello, a atriz Gilda Nomacce viu seu nome ocupar as redes, a imprensa e as conversas do país. Ela, que acumula mais de 150 filmes e 21 prêmios em décadas de teatro, afirma: Aos 54 anos, ela virou meme nacional após o episódio e inaugura um novo capítulo em sua trajetória. Impulsionada pela repercussão, Gilda vive uma das fases mais produtivas da carreira: lança cinco filmes e está em cartaz com ‘A Palma’, no Instituto Capobianco, em São Paulo, até fevereiro. Sobre o momento viral, ela é tácita: “Só ganhei. Tive a dimensão, através do meme, de quanta gente conhece e gosta do meu trabalho”. E acrescenta: “É muito simbólico viralizar com um filme do Marco. Entrei no cinema através dele e agora consigo um lugar de popularidade também pelo seu cinema. Isso me dá uma grande alegria”, diz.
A atual fase também trouxe um acontecimento marcante: o elogio público de Selton Mello, que classificou o gesto dela não como “uma maluquice”, mas como prova de uma grande atriz da história do teatro e do cinema brasileiro – e ainda completou que “mais Gildas deveriam ser descobertas”. A fala, que viralizou junto com o meme, emocionou profundamente a atriz. “Fico pensando como poderia agradecê-lo, não tenho palavras para dar conta do bem que ele me fez”. Para ela, o impacto vem do lugar de onde Selton fala, alguém que construiu uma carreira brilhante desde a infância, com grandes papéis, visibilidade, reconhecimento popular e agora trajetória internacional. “Um sujeito que está nesse lugar olhar para outro que não está… isso é lindo. Ele tem esse desejo de abrir espaço, de criar espelhos. Quando muitos protegem o que conquistaram, ele divide. Isso cativou muita gente”. O elogio do colega reacende uma discussão mais profunda sobre reconhecimento no Brasil, especialmente quando trajetórias longas só ganham olhos quando algo viraliza. Gilda, porém, é precisa e realista:
Reconhecimento é difícil em qualquer lugar do mundo. É pouco espaço. A chance de se tornar um artista reconhecido já é mínima; de se tornar famoso, menor ainda. Ser famoso te dá investimento, patrocínio, continuidade. Sem isso, a estrada fica dura, cheia de pedregulhos. Você começa a duvidar de si – Gilda Nomacce

Da viralização ao reconhecimento – Gilda Nomacce vive uma fase intensa e luminosa: “Através do meme, soube quanta gente me conhece e gosta do meu trabalho” (Foto: Thom Foxx)
A artista observa que a fama continua sendo um território paradoxal, desejado e restrito.
“Fama não se explica. Se todo mundo te conhece, todo mundo quer saber de você. Mas como ficar famosa sem que queiram saber de você? É o ovo ou a galinha”. Ela comenta ainda o quanto o ‘apagamento’ pode levar artistas talentosos a abandonar a profissão, não por falta de qualidade, mas por ausência de oportunidades.
E reconhece sobre o próprio caminho: “Tive muitas mãos me puxando. A mão do Antunes (Filho – 1929-2019; um dos diretores que a formou; junto com o encenador norte-americano Bob Wilson – 1941-2025), que me acolheu. O carinho do cinema. O grupo Filmes do Caixote, coletivo de cinema paulista, onde praticamente me considero parte”. Para Gilda, o problema é estrutural e atravessa formação, incentivo e políticas culturais, e compara com outros modelos: “Em alguns países, como a Rússia, atores são funcionários públicos. Aqui, é sonho, sorte, resistência. E coragem. Sem autoestima, você afunda. Você precisa saber que existe, mesmo quando não estão te enxergando”. Como é, depois de tantos anos de carreira, conhecerem seu nome e rosto através de um meme?
Não importa como reconhecem meu rosto, não importa se é pela mulher do grito, ou muitas outras caras, personagens, temas, isso é maravilhoso – Gilda Nomacce

“Ser famoso te dá investimento, patrocínio, continuidade. Sem isso, a estrada fica dura, cheia de pedregulhos. Você começa a duvidar de si” (Foto: Renato Mangolin)
O ator na ‘Era’ dos seguidores
Quando o assunto é formação, Gilda desmonta a ideia de que a ‘Era’ dos seguidores inaugurou um novo critério de escolha. E analisa, que a lógica, embora mais barulhenta, não é exatamente inédita. “Antes não tinha internet, mas tinha capa de revista, tinha quem ganhava popularidade por ser bonito, por ser carismático. Sempre houve isso em Hollywood e em todos os lugares”, afirma. A diferença, diz ela, é que agora tudo se vê em tempo real. A atriz não acredita que números invalidem talento, nem que talento por si só garanta espaço:
O ator pode ser famoso e talentoso; anônimo e talentoso; anônimo e ruim; famoso e ruim. Tem muitas possibilidades. E quem luta mais, tem mais chance – Gilda Nomacce
Mas pondera sobre algo que considera central na formação artística no Brasil: a desigualdade material. “Como você vai lutar para ser ator se não pode nem estudar, se não tem como pagar refeição ou um lugar para morar? É muito delicado. Já vi gente ótima desistir por questões financeiras”. Ela lembra que sua própria formação no CPT de Antunes Filho, embora gratuita, exigia dedicação integral, o que também afastava quem precisava trabalhar. Por isso, defende mais editais, mais escolas gratuitas, mais acesso a aulas de voz, corpo e técnica. “A condição social pesa. As oportunidades pesam. E não é diferente para os atores. Tem talento, tem resistência e tem as chances”. Sobre a ideia de que “seguidores contam mais que estudo”, Gilda é categórica: “Não acho que valham mais likes do que talento, estudo ou boa formação”. Segundo ela, quem entra apenas pelo apelo digital não costuma permanecer:
Esses que conseguem espaço sem serem atores, geralmente passam por ali e não ficam muito tempo. Os que ficam acabam estudando e se formando, porque não dá pra ser ator sem gostar muito e sem se especializar. Não dá pra fazer de qualquer jeito – Gilda Nomacce

Gilda Nomacce e Selton Mello divulgam ‘Enterrem seus Mortos’ (Foto: Reprodução/ Instagram)
Gilda faz ainda um recorte generoso sobre a juventude nas telas, uma fase em que a maturidade técnica ainda está se formando. “Ela tem um valor altíssimo. Sempre precisam de um jovem. Não critico quem pega papéis ótimos ainda sem estar tão preparado, um jovem de 18, 19 anos dificilmente vai estar. E às vezes é a chance.” A atriz lembra que ela mesma buscou essa estreia precoce. “Com 17 anos eu já estava no Rio de Janeiro tentando ser famosa, fazer novela. Tinha juventude, tinha até um tanto de beleza, mas não consegui por isso. Agora estou conseguindo por dedicação, formação e vontade. A carreira não é matemática. Quem tem um sonho tem que tentar”.
De olho na TV
A popularidade inesperada abriu para Gilda um território novo: usar a visibilidade digital para impulsionar o trabalho no palco. “Apesar de tantas estreias, estou conseguindo aproveitar esse espaço que o meme criou. A peça merece ser vista. Ficamos até fevereiro, depois vamos para o Rio e viajaremos bastante.” O presente é vibrante, mas o futuro vem com desejos:
Gostaria de ser chamada para uma novela. Estou reservando tempo porque minhas chances aumentaram, e tempo não se multiplica. Quero estar disponível – Gilda Nomacce
Após 16 anos dedicados intensamente ao cinema — “Já tive até seis filmes no mesmo festival” — a TV se tornou, agora, um caminho natural. “Sempre acreditei que um dia faria novela. Desde criança. E agora que está tudo mais natural, que ser atriz para mim é algo cotidiano e fácil, me sinto preparada para enfrentar qualquer desafio”. No entanto, Gilda reconhece que novela é um território que depende de convites, diferente do cinema e do teatro, onde se produz e viabiliza. “Para cinema e peça, eu me produzo. Para novela, não. Agora é abrir a agenda, desejar forte, colocar foco e aguardar o convite. Tenho que contar com a bondade dos estranhos, como Blanche DuBois”, brinca, referindo-se à personagem central de ‘O bonde chamado desejo’, clássico de Tennessee Williams.

Gilda Nomacce em ‘A Palma’, no Instituto Capobianco, em São Paulo (Foto: Renato Mangolin0
Enquanto a TV não chega, o trabalho segue em alta rotação. Gilda acaba de lançar o thriller psicológico ‘A Herança’, de João Cândido Zacharias; integra o longa coletivo ‘Insubmissas’; participa de ‘Monstro’, de Diogo Leite; de ‘Nem Deus é tão justo quanto seus jeans’, de Sérgio Silva; e de ‘Dolores’, novo filme de Maria Clara Escobar e Marcelo Gomes, a partir de um roteiro póstumo de Chico Teixeira.
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