Cinema & TV

Da internet para as novelas, Luís Lobianco debate a representatividade nas artes

Em ‘’O Segundo Sol’’, o ator estrela a sua primeira novela como Clóvis Falcão, um homem ingênuo e bem humorado, após ter feito sucesso nas esquetes do canal do youtube composto por nomes como Fábio Porchat e Gregório Duvivier, Porta dos Fundos, e no programa ‘’Vai que Cola’’ do Multishow.

Publicado em 04/07/2018 | Por Thaissa Barzellai

Há 6 anos, Luís Lobianco tem encantado o público com o seu talento fora da televisão aberta: no ‘’Porta dos Fundos’’, canal no YouTube cujas esquetes de humor também eram exibidas na FOX, e ‘’Vai que Cola’’, seriado do Multishow. Agora, na pele do baiano Clóvis Falcão na novela ‘’O Segundo Sol’’, escrita por João Emanuel Carneiro, Lobianco invade as telinhas do Brasil inteiro em horário nobre. Para o ator, que sempre teve desejo de participar de um folhetim, a oportunidade é uma chance de expandir a relação que o público  tem com o seu trabalho. ‘’Eu sempre tive vontade de dar alcance pro meu trabalho e a televisão é um veículo muito poderoso. Ela toca muito as pessoas e eu gosto sempre de me comunicar. Tem atores que gostam de fazer coisas mais fechadas, herméticas, para poucos entendedores. Já eu não, eu gosto de falar com o público, saber se as pessoas estão vendo, se elas estão entendendo’’, conta. Embora seja a primeira experiência na teledramaturgia, Lobianco, que divide o tempo entre a televisão e o teatro, não sentiu diferenças na hora de interpretar. Afinal, como dizem por aí: trabalho é trabalho. ‘’No final, eu acho que tudo é a mesma coisa. ‘’Ah, qual é a dificuldade?’’, óbvio que são métodos diferentes, mas eu procuro não diferenciar, pra mim é tudo a mesma coisa, é trabalho e precisa ser feito com muita verdade’’.

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Logo na primeira oportunidade, Lobianco está tendo o que pode ser chamado de sorte de principiante ao dividir cenas com nomes consagrados da televisão brasileira. Ao lado de Arlete Salles e José de Abreu, que interpretam seus pais na trama, o ator está vivendo, literalmente, o sonho e adquirindo uma bagagem artística que nãotem  preço. ‘’Essa experiência está sendo muito maior do que eu poderia imaginar. Os dois são colegas muito amorosos, querem muito fazer um bom trabalho, são apaixonados pelo o que fazem’’, diz. Para ele, é inspirador poder observar o comprometimento de ambos durante as gravações, que, muitas vezes, vão até o segundo sol do dia. Ou nesse caso, o primeiro. ‘’Às vezes, nós viramos a noite, estamos cansados e com muito texto para decorar. Você olha para os dois e eles estão com o maior tesão de fazer a cena, com o texto na ponta da língua. É muito inspirador. Eu só saio na vantagem’’, conta.

Caracterizado de Clóvis Falcão, Luís Lobianco posa ao lado da sua família fictícia. Da esquerda para a direita: José de Abreu, Armando Babaioff, Emílio Dantas, Arlete Salles e Vladimir Brichta. (Foto: Divulgação)

Filho de Naná (Arlete Salles) e Dodô (José de Abreu), e irmão de Beto (Emilio Dantas), Remy (Vladimir Brichta) e Ionan (Armando Babaioff), Clóvis é o caçula da família que vive na barra da saia da mãe enquanto sonha em seguir os passos do irmão Beto, cantor de Axé que conquista a fama de mito da música após a suposta morte. ‘’Ele é um cara de muito caráter bom, muito transparente e ingênuo. Os grandes amores dele são as pessoas da família, as relações são muito especiais e particulares’’, conta o ator que já está gravando a segunda fase da novela na qual Clóvis, apesar de não ter jeito com mulheres, se envolve com Gorete (Thalita Carauta), ex-amante do pai, Dodô. Segundo Lobianco, são essas diferenças e confusões entre os integrantes do clã Falcão que vão fazer o público se conectar com a história. ‘’Eu acho que é uma família que todo mundo vai se identificar. Vão falar ‘’Ah, tem um Clóvis na minha família’’, ‘’Ah, minha mãe é igual’’. É uma família tipicamente brasileira’’.

Assim como Clóvis Falcão, Luís Lobianco, cuja família é oriunda de Sergipe, também carrega em si o lado nordestino, que acaba por refletir na forma com a qual o ator lida com a sua própria arte. ‘’Eu tenho o espírito nordestino, o nordestino é sempre um grande comunicador, é engraçado, tem muito senso de realidade, lida com o brasil direto, sem máscaras, sem cortinas e sem grades. Eles são calorosas, as famílias são grandes, são amorosas, a mesa é farta’’, afirma. Carioca, o ator sempre faz questão de retornar às raízes da família, criando uma relação muito íntima com a região nordeste, principalmente com a Bahia. ‘’Sempre que vou a Sergipe eu dou uma fugidinha para a Bahia, que é pertinho. Eu sou fã demais, adoro aquele lugar’’, completa o artista que esteve na cidade para gravações da novela.

Enquanto para Lobianco o fato da novela ter como pano de fundo Salvador foi motivo de alegria, para a maioria do público brasileiro a situação foi de extrema indignação. Após o lançamento do primeiro teaser da novela, a produção foi alvo de críticas por criarem uma narrativa que se passa onde mais de 80% da população é negra com apenas um ator negro de destaque no elenco. Para Lobianco, a discussão perante a falta de representatividade surgiu em momento extremamente relevante. ‘’Eu acho que representatividade é uma das palavras do momento. A gente tem que parar para pensar nisso e fazer uma reflexão muito séria sobre tudo o que tem acontecido’’, comenta o ator que acredita que a emissora está disposta a mudar junto à sociedade.

Lobianco caracterizado de Gisberta nos bastidores do espetáculo. (Foto: Divulgação)

Integrante assumido da comunidade LGBT e ativista, Lobianco também já foi vítima de críticas com relação à representatividade quando interpretou Gisberta, uma transexual brasileira que foi brutalmente assassinada em Portugal, durante um monólogo que rodou várias cidades do Brasil. As críticas, que em sua maioria foram publicadas nas redes sociais, questionavam o ator por não ter escalado uma mulher trans para interpretar a personagem. No entanto, Luís Lobianco acredita que, apesar de concordar que há uma ausência de profissionalização das pessoas trans não só na arte como em todos os setores, é preciso considerar a precária situação da arte no Brasil e, portanto, apoiar as manifestações artísticas que conseguem ser realizadas a fim de contribuir para a luta. Para ele, a represália que sofreu, mesmo após a tentativa de conduzir um debate sobre a questão, representa a militância virtual que busca somente uma coisa: a lacração. ‘’A maior parte da minha equipe é formada por pessoas LGBT, por exemplo. Eu percebi que quando eu mostrava esse lado as pessoas continuavam no embate porque elas não queriam abandonar o discurso. É um cenário muito comum das redes sociais: de quem faz a última narrativa, de quem faz o melhor textão lacrativo. Eu coloco a minha energia no meu trabalho e não no facebook, que eu nem tenho mais’’, declara.

Críticas à parte, Luís Lobianco não pretende parar e vai continuar produzindo o ‘’Gisberta’’, dessa vez com apresentações esporádicas, e outros projetos relacionados ao mundo LGBT no teatro, como o ‘’Rival Rebolado’’, espetáculo que mistura a arte drag com o cabaré realizado no Teatro Rival uma vez por mês, e o ‘’Buraco da Lacraia’’, espetáculo repleto de números musicais com um teor debochado, no bar de nome homônimo toda sexta-feira. ‘’Eu continuo com o Buraco da Lacraia, que é uma ocupação na Lapa que eu faço há seis anos. Não paro e nem vou parar, a novela não vai atrapalhar e todos entendem e amam o projeto’’, conta Lobianco que garante que Clóvis Falcão é o seu foco no momento. Seja no teatro ou na televisão, a verdade é que Luís Lobianco sempre brilha.

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