*Por Brunna Condini
Após 14 anos sem participar de uma novela inédita da Globo — sua última trama na emissora foi ‘Salve Jorge’, em 2012, além de uma participação no final do remake de ‘Pantanal’ (2022) — Cristiana Oliveira retorna à dramaturgia da casa em ‘Então É Amor?’, microdrama que acaba de estrear no Globoplay. De volta à emissora onde permaneceu contratada por 22 anos e construiu personagens marcantes da televisão brasileira, a atriz celebra a oportunidade de dialogar com novas gerações, mas deixa claro que não pretende viver ligada às expectativas que o público ainda projeta sobre ela. “Tem gente que acha que eu deveria estar protagonizando a novela das nove, que tenho que ser jovem a vida inteira, que não posso envelhecer. Mas escolhi não ficar presa lá atrás. Escolhi olhar daqui para frente. Sou além das personagens”, afirma. Aos 62 anos, Cristiana diz ter se libertado da necessidade de corresponder à imagem da jovem que se tornou fenômeno nacional como Juma Marruá na versão original de ‘Pantanal’ (1990), e resume sua posição com a serenidade de quem aprendeu a valorizar a própria trajetória sem se tornar refém dela: “Tenho meu passado como minha história. Respeito a minha história. Sou também o que fui, mas não vivo de passado”.
A estreia em um formato que mistura inovação tecnológica e a essência do folhetim tradicional chega em um momento particularmente simbólico da carreira da atriz. Enquanto o público celebra seu reencontro com a Globo, ela encara o trabalho sem ansiedade e sem cobranças. Ao longo da conversa, Cristiana reflete mais profundamente sobre as expectativas externas após mais de três décadas de carreira, e acredita que parte das pessoas ainda a associa à ideia de juventude permanente ou à necessidade de estar constantemente em evidência na televisão aberta:

Cristiana Oliveira retorna à Globo, celebra nova fase e rejeita viver presa às expectativas dos outros: “Tenho meu passado, mas não vivo dele” (Foto: Divulgação/Globo)
Tem gente que acha que eu deveria estar protagonizando a novela das nove. Que tenho que ser jovem a vida inteira, que não posso envelhecer. As pessoas também não acompanham a minha vida fora da TV. A televisão é um veículo de massa. Agora a internet também é. Tem gente mais famosa na internet do que na própria televisão. Então as pessoas acham que a gente só está trabalhando se aparece na TV. Senão acham que estamos no ostracismo. E não é o caso. Eu também não vou ficar forçando uma barra para provar que estou trabalhando. Quando falam: ‘Você sumiu, não faz mais TV’, eu digo: ‘Dá uma olhadinha no Globoplay, na internet’. Não fico mais querendo corresponder à expectativa de ninguém – Cristiana Oliveira
A declaração tem relação direta com um tema que ela costuma abordar dentro e fora das telas: a dificuldade que a sociedade ainda tem de aceitar o envelhecimento das mulheres. “Às vezes as pessoas se frustram porque me veem com 62 anos. Dizem: ‘Nossa, ela está muito bem para a idade’. Não. Estou muito bem, ponto. Tenho a idade que tenho. É bom que a gente esteja envelhecendo. Significa que estamos vivos”, diz. “É como se envelhecer fosse um defeito. Vou repetir uma frase da Carolina Ferraz: “Eu não faço de conta que tenho 20 anos’. Não quero ter 30. Não quero ter nenhuma outra idade. Quero ter a idade que tenho. As pessoas falam: ‘Nossa, como fulana está velha’. Claro que está. Você também está. Você que me acompanha há quase 40 anos também envelheceu. Olhe no espelho e permita que o outro envelheça também. Estou bem, cheia de vida, em movimento”.

“Tenho a idade que tenho. É bom que a gente esteja envelhecendo. Significa que estamos vivos” (Foto: reprodução/instagram)
Para Cristiana, voltar a atuar em uma produção ligada à Globo não representa uma tentativa de reviver o passado, mas a continuidade de uma trajetória que nunca deixou de existir.
Sou extremamente grata à Juma. Foi ela que me levou ao reconhecimento do público, ao Pantanal e ao ambientalismo. Mas quem continuou foi a Cristiana. Eu não sou mais ela. Eu sou muito além dela – Cristiana Oliveira
Essa postura também se reflete na maneira como Cristiana conduz a própria carreira. Mesmo longe da televisão aberta, ela nunca deixou de estudar, fazer teatro ou investir na própria formação. Ao contrário: acredita que hoje é uma atriz mais preparada do que há anos e atribui essa evolução justamente à liberdade de não depender exclusivamente da televisão para viver. “Tenho minha fonte de renda que é diferente, minha empresa, faço palestras pelo Brasil. Mas a minha profissão primeira, o meu ofício primeiro, a coisa que eu mais amo no mundo é interpretar. Seja no teatro, no cinema, na televisão. E leio muito, continuo pesquisando, faço cursos, workshops, aulas de voz há mais de 20 anos, trabalho corporal. Hoje sou uma atriz muito mais viva, muito mais energética, muito mais inteira em qualquer tipo de personagem do que era dez anos atrás, por exemplo. Me considero uma atriz veterana, mas madura. Porque poderia ser veterana e não ter maturidade artística. Não é o meu caso”.

“Sou grata à Juma. Foi ela que me levou ao reconhecimento do público, ao Pantanal e ao ambientalismo. Mas quem continuou foi a Cristiana” (Foto: reprodução/instagram)
Essa independência também mudou a forma como escolhe seus trabalhos. Se antes aceitava determinados papéis por circunstâncias da carreira, hoje o critério é outro: o desafio criativo.
Fazer sempre a mesma coisa, ser estigmatizada com o mesmo tipo de personagem, já não me interessa mais. Se surgir um desafio, eu topo. Não é tamanho do papel, é a importância do papel no sentido de eu poder trabalhar essa personagem. Quando digo que precisa somar à minha vida profissional não tem a ver com ego, nem vaidade, nem fama. Tem a ver com fazer alguma coisa que me desafie – Cristiana Oliveira
Foi justamente esse espírito que a atraiu em ‘Então É Amor?. Embora o formato vertical represente uma ruptura estética em relação às novelas tradicionais, Cristiana enxergou na produção um curioso reencontro com a essência do folhetim. “Foi uma experiência muito diferente de tudo. Adoro novidade, gosto de acompanhar a tecnologia. Ao mesmo tempo em que é uma linguagem nova, é um retorno ao folhetim raiz. Tudo muito intenso, capítulos de um minuto e quarenta, dois minutos no máximo, com aqueles ganchos fortes no final, essa divisão muito clara entre o bem e o mal, a vilã e a mocinha. Só que tudo concentrado na velocidade de hoje”, observa.

“Não dependo da televisão para viver. Mas a coisa que mais amo no mundo é interpretar” (Foto: Divulgação/Globo)
A maturidade na profissão e na vida
A experiência no microdrama reforçou uma percepção que considera importante para o futuro da dramaturgia: a convivência entre inovação e memória. “Acho muito bacana esse resgate dos veteranos. Não para diminuir os novos talentos, muito pelo contrário, mas para mostrar às novas gerações que essas pessoas ajudaram a construir a história da televisão brasileira. Ninguém está falando em abandonar a nossa cultura da teledramaturgia. É justamente mostrar que ela continua importante dentro de um formato completamente novo”.
Essa mesma maturidade também transformou sua vida pessoal. Cristiana afirma que aprendeu algo que considera essencial: dizer ‘não’ sem culpa. “As mulheres da nossa geração foram educadas para dizer ‘sim’ o tempo inteiro. Hoje eu digo muito mais ‘não’ do que sim. Não aceito desrespeito, falta de educação, intromissão na minha vida e amizades que não me acrescentam. Antigamente eu tinha medo de negar ajuda, emprestava dinheiro para todo mundo. Hoje não faço mais isso. A maturidade dá essa liberdade. Ainda ajudo as pessoas, mas aprendi a me proteger”, divide.
Ela acredita que esse processo também passa pelo autoconhecimento e pela autoestima, temas sobre os quais costuma falar nas redes sociais e em suas palestras. “Durante muito tempo fui uma mulher muito insegura. Queria transformar qualquer relação em uma grande história de amor. Sofri muito porque não sabia dizer ‘não’ para mim mesma. Hoje encontrei um relacionamento equilibrado, encontrei o homem da minha vida aos 54 anos (ela é casada com o empresário e diretor Sérgio Bianco desde 2018). Tudo o que vivi me trouxe até aqui. Não me arrependo de nada. Sou hoje tudo aquilo que vivi”.

“Fazer sempre a mesma coisa, ser estigmatizada como o mesmo tipo de personagem, já não me interessa mais. Se surgir um desafio, eu topo” (Foto: reprodução/instagram)
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