Desde a última semana, circula na internet a notícia que a TV CNT, especialmente a sucursal carioca, “teria sido fechada, vendidos os equipamentos da emissora e que as operações em Caxias do Sul (RS) também teriam sido suspensas”. A realidade não é esta – mas não está tão longe disso. A CNT, que já foi uma grande rede nacional e de relativo alcance, teve alguns programas de destaque e nomes fortes vinculados à emissora. Atualmente, tem 22 horas de sua programação locadas para a Igreja Universal. Porém, o que resta hoje, além de poucos funcionários, é, supostamente, o sucateamento – para, de alguma forma, continuar existindo. No último ano, foram raras as ocasiões em que a televisão atingiu 0,1 de média, razão pela qual não há muitos anúncios comerciais na rede. Até outubro deste ano, a emissora ainda tinha funcionários para levantar e produzir telejornais, outros para ingestar – ou seja, transferir para um computador ou HD e tornar disponível um conteúdo para publicação – agora, não há ninguém especificamente para estes fins. Importante ressaltar: todas as fontes – inclusive diretores de duas praças – pediram sigilo e, portanto, não serão identificadas.
Segundo uma fonte da CNT Rio, “o rapaz que fazia o ingest foi mandado embora. Atualmente só há um pessoal no controle-mestre que acompanha a programação e insere os breaks. Ficaram os três supervisores e o pessoal do controle-mestre. Esses supervisores, que são funcionários antigos, recebem o material que chega da Igreja Universal, assim como o programa “Jogo do Poder” que não é mais produzido lá, e eles ingestam. Os programas não são mais produzidos lá”.
Contudo, é importante ressaltar: as operações da emissora, sediada em São Cristóvão, Rio de Janeiro, não foram encerradas, mas reduzidas ao mínimo possível. Segundo uma das fontes, da CNT Rio, essa manobra de demissões já foi tomada em algumas das crises que a emissora passou. Inclusive, com contratações ao antigo nome da televisão – TV Corcovado, assim batizada na época em que a emissora era de posse de Silvio Santos e razão social da emissora. A atual sede da CNT, inclusive, foi a primeira da então TVS, atual SBT Rio. “Como eles têm que ter uma programação local, obrigatoriamente, de jornalismo e a TV Corcovado não é uma repetidora, mas uma emissora, a CNT coloca dois programas no ar como se fossem produzidos na casa, mas não são mais. O clima é de “o último a sair que apague a luz”.” Ainda de acordo com esta fonte, o mesmo expediente foi lançado para as praças da Bahia, São Paulo e Rio Grande do Sul (Caxias do Sul). Em 2018, com a praça de Brasília, aconteceu o mesmo que com a atual emissora fluminense.
Quando a CNT Rio passou a ficar endividada as contratações passaram a ser feitas para a TV Corcovado – como é há anos. A emissora carioca age como uma repetidora e não como uma emissora. Estão reduzindo as atividades jornalísticas para Curitiba para não fechar

A penúria da CNT: Audiência nula, Jornalismo depauperado, emissora sem funcionários e o descarte de seu arquivo (Foto: Reprodução)
Além desse entrevistado, outro, em um cargo de liderança em Curitiba, confirmou as demissões na sede carioca da emissora. “Alguns programas terceirizados não estão mais na grade. Uma parte do pessoal que auxiliava foi dispensado, mas ainda tem gente lá. Tínhamos funcionários da empresa que atendiam esses terceirizados; como esses terceirizados saíram, não havia mais esta demanda para atender.”
Os dois cinegrafistas que faziam os programas locais – “Jogo do Poder” e “Fala Baixada” –, os únicos programas regionais, foram mandados embora no mês passado, assim como uma repórter e uma editora. “Os que continuam são os terceirizados da portaria e da limpeza”. Procurada, a sucursal carioca negou as demissões e disse que as informações sobre o desmonte da emissora fluminense não procediam. A única repórter de Caxias do Sul também foi demitida em maio.
Sem cinegrafistas, as reportagens são feitas com imagens de apoio conseguidas por órgãos oficiais, como prefeituras e os governos federal e estadual. Na última quarta (05), durante uma reportagem sobre Fórmula 1, foi usado um vídeo do YouTube com visões aéreas, de drone, do Autódromo de Interlagos, e entrevistas liberadas pelos organizadores. Contudo, as imagens não foram creditadas e não houve repórter fazendo a passagem, ou seja “aparecendo no vídeo”.
O que a emissora faz não é jornalismo, mas videoreleases institucionais. Os profissionais de Curitiba são sobrecaregados. Há os editores, um repórter para cada painel – que corresponde a uma praça que deveria ter reportagem local
Ainda de acordo com esta fonte carioca, “a emissora recebe uma fortuna da Igreja Universal. 22 horas da programação da TV são da Universal e as outras horas restantes, para a programação”. O arquivo da emissora, supostamente, também foi perdido. “As fitas ficaram num armário qualquer, deteriorando. O banco de imagem do que é possível usar ficava num HD externo de uso pessoal dos profissionais.”

“Errei a mina, caí na China”. Um dos bordões do duende “Hugo” não poderão ser vistos senão por vídeos mantidos no YouTube. A CNT não tem mais nada (Foto: Reprodução)
O QUE DISSE A EMISSORA
Conforme citado na abertura desta reportagem, nós conversamos com três diretores e líderes da emissora no Sul do Brasil, que concordaram em falar, porém de forma anônima. A fim de preservar a identidade das fontes, que ainda trabalham na emissora, seus nomes serão preservados, assim como suas cidades — haja vista que, em razão da grande redução do número de funcionários, elas poderiam ser facilmente identificadas.
Não se tratava apenas da emissora carioca que estaria com dificuldades e grande compactação. A praça da Serra Gaúcha, supostamente, também. Porém, essa informação foi negada por dois representantes sulistas da TV. “Não que as operações tenham encerrado. A emissora criou um central-cast em Curitiba na área de jornalismo e encerrou o jornalismo de campo (ou seja, o jornalismo local). Há um reposicionamento da emissora nesse novo formato de jornalismo, centralizado em Curitiba. Os jornais regionais continuam no ar, repassando informações para a cabeça de rede, em função de uma decisão da diretoria”, disse um deles.
Tanto a fonte carioca como os sulistas confirmam que, por não haver mais produção local, o jornalismo regional é feito de maneira “improvisada”: repórteres de Curitiba fazem suas entradas diante de painéis que remetem a outras cidades — como São Paulo, Rio e Brasília — e emulam estar nestes locais. “Há uma equipe em Curitiba dedicada a cobrir informações sobre o Rio Grande do Sul, por exemplo. Eles estão em contato com todos os assessores de imprensa e atualizam e geram novidades sobre o Estado, de dentro da sede da emissora.” Segundo outro diretor sulista, este é um “modelo moderno, um central-cast (ou seja, um modelo de transmissão centralizada num só local). Os únicos repórteres locais ficam em Curitiba.”
Um dos diretores da Rede, em Curitiba, ainda que tenha sido mais comedido, confirmou a adoção do central-cast. “A operação está mantida em Caxias do Sul e no Rio. A quem sintonizar no 9.1 carioca ou no 31.1 de Caxias verá a programação regional, como o programa CNT Notícias Rio, exibido diariamente. (Nota: a equipe que tocava o CNT Notícias Rio na cidade foi demitida em maio de 2025.) Ajustes de contratação e de dispensa (ou seja, demissões) são normais e os acordos com terceirizados estão no ar. Há de se entender que a televisão está mudando e criando o que foi o conceito de central-cast, com operações à distância. Há quem pense que essas mudanças e modelos são um encerramento de operações, mas não é nada disso. Inclusive, não tem nem como levar os equipamentos do Rio para Curitiba, como tem sido falado, nem o prédio está sendo vendido”.
Em 2023, segundo dados levantados, na maior parte do tempo, a emissora apontava 0,0 de audiência. Em 2024, a emissora era a 33ª mais vista, somando as TVs aberta e fechada. A TV paranaense tinha uma audiência centesimal: 0,03. Dados do Kantar Ibope Media de 2023 apontam uma diferença ainda mais profunda: a 52ª posição, variando entre 0,02 e 0,06 pontos. Ato reflexo disso, pouco há além dos telecultos e programas da Igreja Universal – que mantém financeiramente a emissora e a grade – assim como os anúncios do Governo Federal, exibidos depois das 22h. Uma das poucas atrações que ficava disponível no YouTube, o CNT Jornal, passou a não estar mais. “Subir o jornal no YouTube também gerava um custo que a emissora não dispõe. Isso é muito triste.” Até o fã-clube da emissora, que existe, sofreu um revés da emissora. Os conteúdos produzidos por eles tiveram que ser apagados das redes.

CNT Jornal hospedado no site da emissora foi apagado. A conta da TV no YouTube foi encerrada (Foto: Reprodução)
RELEMBRE A CNT
A emissora teve origem no Paraná, no fim da década de 1970, com o nome de TV Tropical, atuando como canal regional e retransmitindo inicialmente o sinal da Globo, e mais tarde, o da Bandeirantes. Posteriormente, adotou a denominação Rede OM – referência direta ao empresário Oscar Martinez, seu fundador – falecido em 2016-, e também às Organizações Martinez. Após encerrar o vínculo com a Band, iniciou uma fase de expansão nacional, consolidada em 1992 com a aquisição da TV Corcovado, então pertencente a Silvio Santos (1930-2024). A nova sede foi instalada na Rua General Padilha, em São Cristóvão, Rio de Janeiro, onde permanece até os dias atuais – local que abrigou a TVS/SBT nos primeiros anos. Durante essa etapa de estruturação, a OM contratou figuras conhecidas como Galvão Bueno e Sérgio Mallandro. Contudo, no mesmo ano, a empresa enfrentou dificuldades financeiras, resultando na saída de Galvão e de outros profissionais de destaque.
No ano seguinte, a emissora passou a se chamar CNT. Em 1996, uniu-se à TV Gazeta de São Paulo, criando a CNT-Gazeta. Nessa fase, o apresentador Ratinho ganhou projeção nacional. Entre as atrações de destaque estavam o programa “Tudo por Brinquedo”, apresentado por Sérgio Mallandro em 1993 e, no ano seguinte, por Mariane, recém-saída do SBT, além do jogo interativo “Hugo”. O roteiro deste último foi assinado pelo jornalista Tony Góes (1961–2024). Também integrava a programação um musical comandado por Jair Rodrigues (1939–2014).
Do acervo dessa época, somente as produções realizadas pela Gazeta, como o próprio “Tudo por Brinquedo”, permanecem preservadas. Já “Hugo”, produzido pela CNT, supostamente, acabou se perdendo definitivamente. Após a ruptura com a Gazeta, a TV enfrentou seu ocaso. Tentou fazer uma parceria que deu vez a um dos projetos mais fracassados da televisão brasileira, a TV JB – que durou apenas quatro meses. Desde então, a emissora vive de promessas de vendas e de parcerias.
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