*por Rodrigo Otávio
Quando estreou, “Coração Acelerado” carregava o peso da expectativa — e, convenhamos, tinha argumentos para tanto. A trama, assinada pelas experientes Maria Helena Nascimento e Izabel de Oliveira, prometia entregar o que cada uma delas sabe fazer de melhor: a união entre o musical e o drama ligeiro. O traço de união funcionou brilhantemente em “Cheias de Charme” — escrita por Izabel ao lado de Felipe Miguez — e em “Rock Story“, de Maria Helena. O histórico era favorável. O resultado, infelizmente, não correspondeu. As novelas das 19h já vinham acumulando um triste retrospecto de audiências sofridas. “Coração Acelerado”, no entanto, foi além: bateu o recorde negativo da faixa, desbancando a — igualmente catastrófica — “Fuzuê”. “Coração Acelerado” aparece com 19,19 pontos, um centésimo abaixo da outra trama, quando pensado o mesmo período de exibição de ambas as novelas.
Há, é verdade, lampejos que salvam o capítulo aqui e ali. Os últimos confrontos entre Agrado (Isadora Cruz) e João Raul (Filipe Bragança) carregam tensão e entregam drama de verdade. As entradas de Ana Castela, defendendo a si mesma por meio de um personagem, foi o reforço que a trama não merecia mas soube aproveitar — a cantora surpreende, especialmente nas cenas ao lado do carismático André Luiz Frambach. Marcos Caruso ganhou de presente um mini monólogo na última quinta-feira (04) e, como de costume, transformou cada sílaba em ouro. É sempre revelador assistir a um ator da sua envergadura fazer com que a palavra mais simples pareça única.

Isabelle Drummond, Filipe Bragança e Isadora Cruz vivem triângulo amoroso principal em ‘Coração Acelerado’
Mas são oásis num deserto que não para de se expandir. Os casais Luan e Duda (Lucas Wickhaus e Gabz) e Gael e Naiane, que tinham tudo para sustentar o coração romântico da história, foram separados num movimento que parece obra de um roteiro em desespero. A suposta grande vilã, Naiane — interpretada com competência e entrega por Isabelle Drummond —, não é má: é delirante, mimada, caprichosa, completamente descolada da realidade. O problema é que a trama não sabe o que fazer com ela. A cena em que é desmarcada durante o show, que deveria ser um ponto de virada, passou em branco.
Nada que “Coração Acelerado” faça parece gerar engajamento ou impacto popular
Ironicamente, o que viralizou não foi nenhuma cena da novela. Foi o registro das protagonistas Ramille, Leandra Leal e Isabelle Drummond cantando “Vida de Empreguete”, tema de “Cheias de Charme”, que caiu na internet e gerou mais barulho do que qualquer capítulo recente. A nostalgia da outra novela roubou a cena da novela atual. Sintomático.

Isabelle Drummond é Naiane na trama das sete ‘Coração Acelerado’ (Foto: Divulgação/Globo)
João Raul, por sua vez, é um mocinho insuportável: agressivo, descontrolado, imaturo. Filipe Bragança vai bem na construção dessa contradição — o ator entrega o que o texto pede. O problema, claro, é o texto. E já que o texto é o problema, não há como deixar de mencionar o maior desperdício da temporada: Thomas Aquino e Evaldo Macarrão sendo constrangidos capítulo após capítulo numa chanchada despropositada. Os dois fazem o que podem — que é muito — mas são sistematicamente expostos em cenas ingênuas e pretensamente cômicas que não fazem graça nem por engano. Para se ter a dimensão do absurdo, basta ver Thomas Aquino à noite em “Guerreiros do Sol“, onde lhe é concedido um papel à altura do seu talento.
No cômputo geral, “Coração Acelerado” parece uma produção da Record dos anos 1990 — e não no bom sentido que essa frase, forçosamente, não tem. Texto raso, produção singela e uma leveza que beira o descuido. Poderia tranquilamente ser irmã mais nova de “Estrela de Fogo” (1998), inclusive por orbitar o mesmo universo temático. Só que “Estrela de Fogo”, ao menos, tinha a desculpa de ser filha do seu tempo. “Coração Acelerado” não tem essa saída.
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