Copa do Mundo aquece audiência, Globo lidera mas fica numa corda bamba entre a festa e o jornalismo na TV aberta


A abertura da Copa do Mundo impulsionou a audiência da TV aberta, com Globo e SBT registrando crescimento expressivo nos índices da Grande São Paulo. Enquanto a Globo comemorou os números, sua transmissão adotou um tom mais descontraído, inspirado na linguagem da internet, levantando dúvidas sobre os limites entre entretenimento e excesso de informalidade. Momentos como brincadeiras ao vivo durante a cobertura dividiram opiniões e reacenderam o debate sobre o modelo de transmissão esportiva. Em contrapartida, a emissora marcou pontos ao destacar os protestos no México contra o torneio, com cobertura jornalística rigorosa e entrada ao vivo direto das manifestações. Entre a celebração do espetáculo e o compromisso com a informação, a Copa começou deixando perguntas importantes para a televisão brasileira responder

*por Rodrigo Otávio

A abertura da Copa do Mundo deixou rastros interessantes — e alguns inquietantes — na televisão brasileira. Em termos de números, foi um dia de vitória para a TV aberta. Em termos editoriais, foi um dia de interrogações. No campo da audiência, o balanço foi amplamente positivo para as emissoras de TV aberta. México x África do Sul, exibido nessa quinta (11), fez Globo e SBT crescerem até 33% nos números da Grande São Paulo, o principal mercado televisivo do Brasil. A Globo registrou média de 17,79 pontos e 35,37% de share, entre 16h06 e 18h03. O SBT marcou 4,14 pontos e 8,23% de participação no mesmo período. Os dados são preliminares e serão confirmados no consolidado a ser divulgado na manhã de sexta-feira (12). Ainda que as métricas sejam diferentes, a CazéTV chegou a ter 26 milhões de espectadores simultâneos no YouTube.

Jogo México x África do Sul. Os anfitriões foram vencedores (Foto: Reprodução/Instagram/Esporte na Band)

A Globo soltinha: celebração ou descuido?

O jogo de abertura revelou uma Globo deliberadamente descomprimida, apostando num tom festivo que claramente bebeu na fonte da linguagem praticada pela CazéTV. A influência é inegável — e, num certo sentido, até compreensível. O modelo de transmissão esportiva da internet, com sua informalidade calculada e seu apelo ao público jovem, acabou se espelhando na televisão aberta com uma velocidade que surpreende.

Mas o que funciona no ambiente nativo digital nem sempre se traduz com a mesma graça na tevê de massa. E a transmissão da última quinta-feira (11) deixou essa tensão à mostra de forma bastante explícita. O episódio mais emblemático foi protagonizado por Tiago Medeiros. O apresentador virou um shot de tequila ao vivo e, na sequência, colocou um bigode de mexicano em pleno ar, enquanto comentaristas brincavam, sem muita convicção, dizendo não saber se ele aguentaria até o fim da transmissão. Obviamente que aguentaria. Obviamente que era uma brincadeira.

O problema não é a brincadeira em si. O problema é a medida. Entre o despojamento e o descompromisso, a linha é muito tênue — e a Globo pisou nela mais de uma vez. A CazéTV já opera nesse território há anos e, mesmo assim, paga um preço: a gritaria excessiva e a leveza que margeia o relaxamento são críticas recorrentes ao modelo. Quando a TV aberta importa esse formato sem os devidos filtros, o resultado pode ser simplesmente barulhento.

Este site ficará atento aos próximos jogos — especialmente ao tom das narrações e à condução das transmissões. O experimento é válido. O veredito, ainda em aberto.

África do Sul perdeu o primeiro jogo, na estreia da Copa (Foto: Reprodução/Instagram/Esporte na Band)

O gol de placa da cobertura: os protestos no México

Nem tudo foi festa, porém. A Globo, capilarizada como é, não se esqueceu de que havia protestos nas ruas do México contra a realização da Copa do Mundo. Tão logo possível, entrou com flashes ao vivo, com uma repórter instalada no epicentro do conflito, cobrindo a revolta popular com o rigor que o momento exigia.

Isso foi, sem exagero, um gol de placa. Num dia em que a emissora corria o risco de parecer apenas uma grande festa, a cobertura jornalística dos protestos recolocou a Globo no lugar que lhe cabe: o de veículo de comunicação que sabe, quando necessário, separar o entretenimento da informação.

A Copa entrou em campo. A televisão brasileira respondeu. Agora, é acompanhar o que vem a seguir.