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Com trabalhos na televisão e no cinema, Alexandre Nero comenta situação nacional depois dos últimos acontecimentos na política: “Tenho uma absoluta desesperança no Brasil”

No cinema, o ator interpreta o pianista João Carlos Martins em "João, o Maestro" e na televisão, Nero é Geraldo Bulhosa em "Filhos da Pátria". Na série da Globo que estreia em setembro, seu personagem irá se corromper pelo jeitinho brasileiro. "A classe mais humilde sempre foi explorada e eles também tentam, de alguma forma, explorar o sistema para benefício próprio"

Publicado em 30/08/2017 | Por Julia Pimentel

*Com Ana Clara Xavier

Através da música e da história, Alexandre Nero está vivendo um momento de levar mensagens ao público através de sua arte. No cinema, o ator interpreta o pianista João Carlos Martins, no filme “João, o Maestro”, que estreou dia 17 de agosto. Na telinha, em setembro, Nero volta ao ar como Geraldo Bulhosa, um pai de família que se corrompe por benefícios na série “Filhos da Pátria”, da Globo, que irá contar sobre o surgimento do famoso “jeitinho brasileiro”. Nos dois casos, o ator mergulha em um universo tênue do orgulho nacional. De um lado, Alexandre Nero destaca a trajetória de superação de João Carlos Martins, considerado por ele um dos raros exemplos dos quais podemos nos orgulhar no Brasil. Do outro, ele interpreta a origem de uma das mazelas de nossa sociedade que, em tempos de crise, tem mostrado toda a sua força e perigo.

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Primeiro sobre o trabalho nas telonas, Alexandre Nero não escondeu a emoção de dar vida a um dos maiores nomes da música clássica brasileira. Em “João, o Maestro”, o ator interpreta a terceira fase da vida de João Carlos Martins que, mesmo após 23 cirurgias, nunca abandonou seu amor e dedicação à arte. “Mais do que viver o João no cinema, esse trabalho me deu a oportunidade de conviver com ele. Talvez, se fosse com uma pessoa já morta, eu teria que inventar a partir de registros. Mas, neste caso, eu tive o privilégio de saber como é esse cara na intimidade. O João é uma pessoa muito divertida, brincalhona, super apaixonada pelo que faz e vive música 24 horas por dia”, contou.

Alexandre Nero e João Carlos Martins na pré-estreia do filme “João, o Maestro” no Rio (Foto: AgNews)

Para o longa, Nero abusou da convivência com o grande homenageado. Mas não foi só. Como interpreta João Carlos Martins também um pouco mais jovem, quando ainda era pianista – antes de virar maestro por causa das cirurgias que sofreu na mão –, o ator contou que buscou registros antigos para entender como ele tocava. “O João de 2017 eu consigo ver. Mas, no filme, eu também faço ele mais jovem e eu precisava entender como era aquele maestro. A gente vai se transformando no decorrer da vida e o filme também mostra isso. Por isso, eu fui buscar como ele era mais jovem e vi que era um cara extremamente enérgico e tocava com violência e muita latinidade no meio daqueles europeus certinhos”, explicou.

Nesta missão, Alexandre Nero divide o protagonismo com Rodrigo Pandolfo, que faz a segunda fase, e o jovem Davi Campolongo, que interpreta João Carlos Martins ainda criança. Desta trinca, o ator disse que não se cobrou por fazer uma interpretação parecida aos companheiros. “A gente criou algumas características, mas não fomos neuróticos nisso porque sabemos que através do cinema, os personagens acabam ficando um pouco parecido. Fora que todo mundo muda com o tempo e nós também quisemos retratar isso. Mas, de similar, eu acho que eu e o Pandolfo mostramos a paixão enlouquecida que ele tem pela música, a maneira que ele tocava piano, que era um pouco mais próxima ao instrumento, e o sotaque. O João fala de um jeito muito característico extremamente paulistano da década de 1950, às vezes, até um pouco italianado”, explicou.

Alexandre Nero e o elenco do longa na pré-estreia do filme “João, o Maestro” no Rio (Foto: AgNews)

Em uma mistura de amor extremo à música e uma super história de superação, “João, o Maestro” é um daqueles filmes obrigatórios a todos os brasileiros. Além de contar sobre a vida de um de nossos artistas vivos com maior prestígio mundo afora, o longa produzido pela LC Barreto ainda nos garante o orgulho que tem estado em falta em nossa sociedade. “A gente está vivendo um momento de muita carência de orgulho de ser brasileiro. E o João é um dos raros exemplos em que nós podemos dizer honrados de que ele é brasileiro, fez história lá fora e é um monstro tocando. Eu o vejo como um cara sensacional em que a vida por diversas vezes quis dar uma rasteira nele e em todos os momentos ele se manteve firme e ainda riu disso tudo”, destacou.

Se no cinema Alexandre Nero está vivendo uma história da qual podemos nos honrar, como ele apontou, na televisão, o panorama é diferente. Em “Filhos da Pátria”, próxima série da Globo que estreia em setembro, o ator tem a missão de contar sobre o surgimento do jeitinho brasileiro. Sim, aquele que sempre acha uma brecha para se ganhar vantagem e está tendo consequências cada vez piores nossa sociedade. Na nova produção da emissora, Alexandre Nero interpreta Geraldo Bulhosa, um pai de família que não resiste à oportunidade de ganhar vantagem, mesmo que, para isso, seja necessário abrir mão de seus princípios. “Ele se corrompe porque é algo fácil, o dinheiro está nas mãos dele por trabalhar nesse meio e não será preso pelos contatos que possui. A pessoa não pensa que aquele valor vai fazer falta nos cofres públicos e pode matar muita gente”, contou Nero que será um servidor público.

Em “Filhos da Pátria”, Alexandre Nero será o servidor público Geraldo Bulhosa (Foto: AgNews)

Não por acaso, a trama vem como um agitador neste momento de crise pelo qual passamos. Em tempos de denúncias cada vez mais assustadoras e corrupções desavergonhadas, “Filhos da Pátria” surge como explicação para tudo isso. Na ficção, o jeitinho brasileiro é conduzido por Bruno Mazzeo, que assina a autoria da série. Mas, na vida real, Alexandre Nero não fugiu à temática e também comentou sobre esta característica nada simpática de nossa sociedade. “O jeitinho brasileiro representa uma série de pequenas corrupções. A classe mais humilde sempre foi explorada e eles também tentam, de alguma forma, explorar o sistema para benefício próprio. Não acho que os pobres e os negros sejam os bandidos, porque os verdadeiros ladrões são os políticos de terno e gravata. Eles matam muito mais gente”, argumentou.

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Por tudo isso, hoje, vivemos mais um daqueles momentos dos quais podemos nos envergonhar, como destacou Alexandre Nero. Em meio a diversas investigações e avanços, ainda testemunhamos retrocessos, como, por exemplo, na votação recente que arquivou o processo de investigação de Michel Temer na Câmara dos Deputados. Por situações como essa, Alexandre Nero não escondeu seu sentimento de frustração. “Tenho uma absoluta desesperança no Brasil, principalmente, depois do arquivamento do processo do Temer. Acredito que só tende a piorar, cada vez mais. As pessoas tiram os bens da gente e nós só conseguimos rir disso, ninguém fez nada para reverter. A corrupção existe no país desde o princípio, mas nunca foi tão descarado. As eleições de 2018 não irão mudar nada nesse cenário. Mesmo assim, precisamos estudar muito os candidatos sem acreditar em artista ou na imprensa”, destacou o ator e cidadão Alexandre Nero.

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