Cleiton Morais retorna à TV vivendo relação homoafetiva e reflete sobre resistência: ‘Educar o público preconceituoso’


O ator retorna à televisão aberta como Tobias, personagem que marcou a história da teledramaturgia do horário das 18h, na Globo, por viver uma relação homoafetiva em “Êta Mundo Bom”. Na continuação “Êta Mundo Melhor!”, ele assume com ainda mais força o papel e salienta a responsabilidade de representar a comunidade LGBTQIA+. Em entrevista, o ator reflete sobre os desafios da visibilidade, a recepção do público e a importância de usar sua arte como ferramenta de transformação: “Provocações são maiores, mas tenho oportunidades de educar o público preconceituoso”

Cleiton Morais volta à TV aberta com personagem que vive um relacionamento homoafetivo em "Êta Mundo Melhor!" (Divulgação)

*por Luísa Giraldo

Cleiton Morais define o convite para retornar ao papel de Tobias, rapaz que viveu o primeiro relacionamento homoafetivo em uma novela de época da TV Globo como “uma grata surpresa”. Continuação de Êta Mundo Bom!” esperada por quase uma década, “Êta Mundo Melhor!” substituiu o sucesso “Garota do Momento”, considerada a trama mais comentada dos últimos tempos nas plataformas digitais. Em 2016, o ator interpretou um alfaiate que viveu um romance com o médico Lauro (Marcelo Argenta) no final da narrativa, que se passa entre os anos 1940 e 1950.

O desfecho do personagem foi considerado inovador na época. Tobias e Lauro foram bastante acolhidos pelo público, que se emocionou com a sutileza e sensibilidade da trama de “amor puro” de Walcyr Carrasco, conforme descreveu o dramaturgo. À Purepeople, o autor disse que criou “o universo de personagens pensando numa história dos anos 40, com a moral dos anos 40. Na época, um gay nunca era explícito”.

Acredito que o público goste de cenas delicadas, a época em que se passa a trama e o horário da novela permitem isso. Não vejo resistência, sinto que o público não tem problema com a relação e com o amor dos dois, mas sim com a maneira que isso é apresentado em alguns produtos audiovisuais. Lauro e Tobias serão, sem dúvidas, aplaudidos por todos. Estamos falando de uma obra inteligente e madura. Para tudo na vida, é preciso saber chegar – Cleiton Morais. 

Agora, a abordagem promete ser mais ousada, já que Tobias retornará com mais protagonismo e enfrentará a homofobia histórica. Em consonância, Cleiton Morais valoriza a representação da comunidade LGBTQIA+. “Tenho responsabilidades representativas com a classe. Na minha carreira, são inúmeros papéis que levam a bandeira. Naturalmente, isso me torna responsável por passar adiante a mensagem de amor e fortalecer os laços com a sociedade que a classe tanto precisa”, atesta.

O artista comemora o aumento de casais homoafetivos no mundo desde 2016. “Há pessoas que sofrem preconceito, discriminação, mas também há quem viva uma vida de muito sucesso e não se deixe inviabilizar. Seria injusto generalizar por fazerem parte de uma ‘classe’”, explica.

Cleiton Morais volta à TV aberta com personagem que vive um relacionamento homoafetivo em "Êta Mundo Melhor!" (Divulgação)

Cleiton Morais volta à TV aberta com personagem que vive um relacionamento homoafetivo em “Êta Mundo Melhor!” (Divulgação/Lucas Dias)

Cleiton Morais relembra que cresceu com familiares com mentalidades mais conservadoras. “Fui criado por pais interioranos e com conhecimento limitado sobre o tema. Os anos 90 não foram fáceis. O assunto foi pouco difundido para mim. Conheci, na época, apenas comoGLS(“Gays, Lésbicas e Simpatizantes”, termo que caiu em desuso por não contemplar toda a comunidade). Quando iniciei no teatro aos 17 e na televisão aos 18, o conhecimento e o amadurecimento foram gradativo, hoje é parte integral do meu trabalho e da mensagem que sou capaz de passar”, reflete. 

As pessoas se sentem mais à vontade comigo e naturalmente as piadas e provocações são maiores, tenho muitas oportunidades de educar o público ainda preconceituoso. Assim o faço. Minha responsabilidade com o personagem é ser verdadeiro e entregar o melhor do meu trabalho. Estamos falando de amor – Cleiton Morais.

Para além do amor romântico, o artista paranaense destaca a potência de personagens e narrativas progressistas no processo de naturalização do afeto entre homens na dramaturgia. “Tobias é um grande salto nessa naturalização do afeto. Há tempos, os autores vem fazendo abordagens parecidas, no entanto a novela traz certa delicadeza que acredito agradar mais o público e não agredir o ‘orgulho masculino’, abordagens singelas tem maiores chances de aceitação”, pondera.

Animado com o curso dos personagens e da narrativa de “Êta Mundo Melhor!”, Cleiton não esconde a curiosidad:. “Confesso que estou tão ansioso quanto o público para saber o que esperar da trama. Ainda temos poucas informações e os capítulos são liberados aos poucos”. 

 

Nova fase de vida

Não é apenas o personagem Tobias que vive uma nova fase de vida, Cleiton Morais experimenta novos desafios profissionais e pessoais. “O retorno da trama impressionou a todos. É muito difícil uma novela ter continuação depois de tantos anos e ainda preservando personagens importantes. Neste período, vivi inúmeras experiências pessoais e profissionais. O amadurecimento profissional e humano foi o mais relevante”, pontua. “Para todos nós, especialmente com os acontecimentos que o mundo sofreu, foi um período transformador”, lembra o ator, em relação à pandemia da Covid-19. 

Cleiton Morais desabafa sobre potência da internet para o audiovisual (Divulgação)

Cleiton Morais desabafa sobre potência da internet para o audiovisual (Divulgação/Lucas Dias)

Segundo o ator, a televisão aberta tem um papel fundamental na construção de narrativas mais diversas e inclusivas. “Embora a internet tenha ganhado espaço, não tirou a relevância da TV, apenas deixou mais abrangente as opções. A televisão tem público cativo e responsabilidade em incluir o público diverso em suas obras. Isso vem sendo feito de forma muito abrangente, vejo que de alguns anos para cá a TV, especialmente a Globo, vem trabalhando isso com maestria, não só na tela mas nos bastidores também”, opina.

Minha primeira oportunidade em 2007 foi uma grande realização. De lá pra cá, vi muitos desistirem da carreira, voltarem para suas cidades e senti na pele o quão difícil é se manter na arte e trilhar essa jornada. Me vendo hoje, fazendo parte dessa história, me emociono ao olhar para trás e ver que sou parte de uma geração, que amadureci – Cleiton Morais

Cleiton Morais descreve ter nascido em uma família conservadora, o que fez com que ele demorasse a aprender sobre inclusão e grupos minoritários (Divulgação)

Cleiton Morais descreve ter nascido em uma família conservadora, o que fez com que ele demorasse a aprender sobre inclusão e grupos minoritários (Divulgação/Lucas Dias)

Ciente do poder de influências das redes sociais e da web no audiovisual, ele admite ainda estar lidando com desafios dessa nova realidade. “Sou um ator raiz. Ainda estou me adaptando ao cenário digital. Sendo honesto, não influencia no meu trabalho diretamente, são 20 anos de carreira, estudando, trabalhando diversos personagens, a internet é um complemento que é bem vindo, mas não tem poder direto sobre meu trabalho no set”, avalia.

No digital é difícil saber o que o público espera. Tudo é muito vago, muito rápido, muitas opções. Confesso que não sei o que esperar dessa cultura quando em relação a novela, teatro e cinema – Cleiton Morais