Claudia Souto: autora de ‘Volta por cima’ abre o jogo sobre contrato na Globo, toxidade na web e novela traumática


Autora reflete sobre sucesso de “Volta por Cima”, a dor silenciosa da novela “Cara e Coragem” e os desafios de escrever para um público cada vez mais exigente. “A sociedade de 2017, quando escrevi “Pega-Pega”, não é a mesma de hoje. Tornou-se mais conservadora”, analisa. Claudia prepara-se para desenvolver novo projeto, que deve ser encaixado diante não apenas da aprovação da Globo, mas da disponibilidade da fila de autores – já que ela segue contratada pela casa

*por Vítor Antunes

“O artista como artista sente menos do que os outros homens porque ou produz ao mesmo tempo que sente (…) , mas, para o poder fazer, deve poder lembrar-se e o lembrar-se indica [?] o ter sentido realmente”. A frase de Fernando Pessoa (1888-1935) não poderia definir outra pessoa senão Claudia Souto autora da novela “Volta Por Cima“, que foi um sucesso de audiência no horário das 19h, na Globo. Cláudia atualmente está em férias e, durante esta entrevista, ela avalia os autos índices de audiência de “Volta por Cima” após a sua obra anterior, a criticada “Cara e Coragem” (2022) – “Naquele momento, eu já me questionava se deveria escrever outra novela, pois foi extremamente difícil continuar criando em meio a tanta tristeza na pandemia”. Segundo a autora, ela acompanhava pelo X (antigo Twitter) as reações do público durante “Volta por Cima“. “Interagia pouco, pois, em “Cara e Coragem“, entrei na rede e foi uma experiência difícil. Quando se está em evidência, as pessoas querem se comunicar diretamente com você — para elogiar ou criticar abertamente”.

Não faz muito tempo as redes sociais pautaram uma discussão importante sobre o tom adotado pelas novelas em relação a temas de responsabilidade social – há inclusive quem tenha chamado de “telecurso”, diante da falta de tato na abordagem de temas sensíveis. Para Claudia, esses assuntos podem e devem ser abordados. Porém, com habilidade. “Lidar com temas considerados tabus exige tato. É necessário entrar na casa das pessoas com delicadeza, pedindo licença. Não se pode impor um tema abruptamente, pois corre-se o risco de ser rejeitado. Antes de tudo, é essencial observar a sociedade que está recebendo essa mensagem, e o momento em que ela será exibida. A sociedade de 2017, quando escrevi “Pega-Pega“, não é a mesma de hoje. Tornou-se mais conservadora. Naquela época, havia uma boate de drag queens na novela, e apresentávamos conteúdos mais ousados. Talvez hoje eu teria que preparar o terreno com mais cuidado para mostrar o mesmo”.

Apesar da mudança e do brasileiro parecer um pouco mais rígido atualmente, continuamos sendo um povo alegre, acolhedor e festeiro. No entanto, a polarização política acabou separando as pessoas. Por isso, o primeiro passo é conquistar o público pela afetividade. O telespectador precisa sentir empatia antes de refletir sobre o tema proposto. Meu objetivo não é obter uma aceitação imediata, mas sim provocar reflexão – Claudia Souto

Núcleo de Betty Faria em “Volta por Cima” (Foto: Divulgação)

O pós-novela, não vem com em descanso total para Claudia Souto. Ela pretende lançar um livro, esboçar uma nova produção e – sobretudo – aguardar uma convocação da Globo, que deve acontecer em julho, sobre o desenvolvimento de um novo projeto, que deve ser encaixado diante não apenas da aprovação, mas da disponibilidade da fila de autores – já que Claudia segue contratada pela casa. “Tenho um livro de contos pronto para lançamento e em julho, a Globo deve iniciar conversas comigo, o que me levará a pensar, efetivamente, em uma nova sinopse. Durante a produção, lê-se e escreve-se uma quantidade enorme de texto. Cada capítulo de novela tem cerca de 28 páginas, e são seis capítulos por semana. É um volume gigantesco. Por isso, ao final, há uma certa aversão temporária à leitura. Só nesta semana consegui pegar o primeiro livro para ler”.

“Volta por Cima”: Tati (Bia Santana), Doralice (Tereza Seiblitz), Lindomar (MV Bill) e Madá (Jéssica Ellen) [Foto: Divulgação/Globo]

A VIDA É UM ÔNIBUS

Uma das primeiras notícias veiculadas sobre o que viria a ser a novela “Volta por Cima” já ventilava que tratava-se de uma trama que tinha os ônibus e uma companhia de viação em sua centralidade. Só isso já foi o suficiente para que os noveleiros das redes sociais criassem uma fanfic – tal qual fizeram com “Pé de Chinesa” ano passado, numa brincadeira com o estilo de novelas de Gloria Perez; e fizeram com “Pão Com Ovo“, anteriormente, brincando com a forma de Walcyr Carrasco escrever. Claudia disse haver se divertido com as brincadeiras. “As pessoas se manifestam a favor, contra, fazem paródias, inventam personagens. Houve quem acreditasse que a novela teria um personagem chamado Maria Catraca. Mas tiramos proveito disso, os personagens brincaram com o fato e no carnaval virou um samba-enredo na própria trama”.

Mas a abordagem aos autores nas redes sociais hoje beira a toxicidade, diferentemente do que acontecia no passado, sem internet. “O imediatismo atual é uma diferença enorme em relação ao tempo da geração dos grandes mestres da teledramaturgia. Naquele período, o retorno do público levava meses. Para manifestar opinião, o espectador precisava escrever uma carta, ir ao correio, pagar pelo envio. E, em geral, só se dava esse trabalho quem amava a novela. Era raro alguém fazer todo esse esforço apenas para criticar”.

Autora de muitas novelas na faixa – escrevendo solo ou como colaboradora ou dupla de Walcyr Carrasco – Claudia aponta as dificuldades de fazer trama nesse horário. “Considero o horário das 19h o mais desafiador. É o único que contempla todos os tipos de público e precisa reunir diversos gêneros dentro do próprio formato. A novela das 19h é um gênero em si. É muito diferente das 18h e 21h, que têm um viés mais dramático. Nas faixas das 18h e das 21h, há alívios cômicos pontuais, mas a das 19h exige um equilíbrio entre drama, humor, romance e outros elementos”.

Costumo dizer que escrever para esse horário é como montar um saquinho sortido de balas: é necessário ter todos os sabores. Haverá quem consuma todas, quem prefira apenas as de hortelã e quem escolha só as de tamarindo. A adesão à novela das 19h depende muito de quem está assistindo — e esse público pode ir da criança que ainda está na sala até a pessoa idosa que começou assistindo à novela das 18h e permaneceu para a seguinte. É, portanto, o horário mais abrangente. E por isso, o mais desafiador – Cláudia Souto

A autora prossegue: “É necessário dosar todos esses elementos dentro da trama e fazer com que se combinem no universo criado. Tenho afinidade com esse horário justamente por ter transitado por muitos gêneros ao longo da carreira. Atuei em programas de humor, programas infantis, séries adultas e de drama. Para mim, é confortável navegar entre esses diferentes registros que a novela das 19h exige. O desafio está em calibrar essas diferenças para que se integrem de forma orgânica dentro da narrativa”.

Jéssica Ellen foi Madalena em “Volta por Cima” (Foto: Reprodução/Globo)

Sobre o sucesso de “Volta por Cima“, ela aponta: “Assim que terminei de escrever, vivi um luto intenso pela novela. Foi uma experiência muito especial, deu tudo certo, e me apaixonei por todos os personagens. Demorei a me desligar deles internamente. Essa novela foi uma verdadeira maratona”. Claudia explica sobre o que orientou a premissa do folhetim. “Embora a trama parta de um grande tema central – neste caso, a ética nas relações familiares -, o que norteou a história foi a pergunta: “Vale a pena passar a perna num parente?”. Além disso, abordei as relações abusivas. Decidimos colocar uma personagem forte, Rochelle (Isadora Cruz), vivendo essa experiência. O agressor vai enfraquecendo essa mulher gradualmente. Esse desenvolvimento não estava previsto desde o início, mas ao perceber os sinais, entendi que a trama precisava promover uma rede de apoio entre as mulheres. A cena em que isso se manifesta foi fundamental”.

Segundo Claudia, o acolhimento a mulheres vítimas de violência não era parte do protocolo da Polícia de São Paulo, que passou a tê-lo após a novela. “Considero que escrever uma novela é, ao mesmo tempo, um imenso prazer e uma enorme responsabilidade”. Ainda de acordo com a autora, “Volta por Cima” foi uma surpresa, pois houve pouquíssimas manifestações de ódio nas redes. “A maioria do público contribuiu com comentários construtivos. Diferente de “Cara e Coragem”, onde a quantidade de críticas negativas foi muito maior”.

Nem toda reclamação é realmente profunda; às vezes é apenas um desabafo. E nem todo elogio será eterno. A pessoa que hoje elogia pode não gostar do capítulo seguinte. É preciso filtrar aquilo que pode de fato acrescentar, pois também é uma forma de diálogo com o público – Claudia Souto

Osmar (Milhem Cortaz e Doralice (Tereza Seiblitz) foram destaques em cenas (Foto: Divulgação/Globo)

Outro destaque positivo da novela foi seu elenco. Uma mistura inteligente de jovens e veteranos talentos. A autora destaca nominalmente: “O elenco jovem de “Volta por Cima” celebrou a presença de Lucinha Lins como se todos tivessem ganhado na loteria. A única novela que escrevi sem a presença de veteranos foi “Cara e Coragem“, gravada durante a pandemia, na qual tivemos que reformular a sinopse e dispensar artistas previamente convidados, pois não poderiam sair de casa nem comparecer aos estúdios. Sou noveleira desde criança. Essas figuras simbólicas da televisão moldaram meu imaginário e influenciaram minha escolha de carreira. Escrever para elas é uma honra imensa. Ao contrário do que se pensa, não são eles que estão me fazendo um favor ao participar; sou eu quem agradece profundamente por tê-los no elenco. Desde “Pega-Pega“, minha primeira novela, com Irene Ravache, Milton Gonçalves (1933-2022), Reginaldo Faria e Nicette Bruno (1933-2020), procuro reverenciar os veteranos”.

Da trama encerrada em abril, a autora assinala: “Do elenco jovem de “Volta por Cima“, destaco Pri Helena, uma das mais belas surpresas da novela no papel de Kaká, assim como Vítor Sampaio.  Osmar já surgiu grandioso, e, com relação a Milhem Cortaz, desde o momento em que comecei a escrever a sinopse, ouvia sua voz, mesmo sem conhecê-lo pessoalmente. Coincidentemente, ele me enviou uma mensagem privada manifestando o desejo de fazer uma novela das 19h.

O público sente falta dos veteranos. É fundamental equilibrar os atores jovens com os mais experientes, dando também oportunidade a novos talentos – Claudia Souto

Fabricio Boliveira e Valdineia Soriano em ‘Volta por cima’

A VIDA NÃO É FILME

Citada com recorrência nesta reportagem, “Cara e Coragem” (2022), até então última trama de Claudia Souto na faixa não foi bem de público e duramente criticada. Muito se deve à pandemia e à necessidade de estar com a novela muito resolvida no que diz respeito à produção, em face dos protocolos da época. “Considero muito cruel quando comparam novelas produzidas durante a pandemia com as novelas de obra aberta. As produções da pandemia merecem um lugar de reconhecimento. Elas foram feitas em circunstâncias excepcionais, e o público deveria apenas agradecer por terem ido ao ar. Nós conseguimos contá-las. “Cara e Coragem” estreou com dois terços já prontos. Só pude modificar o desfecho. Eu, que gosto de dialogar com o público, via a novela no ar e pensava: “Eu mudaria isso, aquilo, ajustaria esse núcleo, aquela situação…” Mas não havia mais o que fazer. Estava tudo gravado. Durante o processo, sofri. Sabia exatamente o que precisava ser ajustado para que a novela alcançasse todo o seu potencial junto ao público, mas estava impossibilitada de mudar. Terminei com um certo pesar, por não ter conseguido entregar tudo o que o projeto poderia oferecer”.

Contudo, com alguma justiça, a trama foi indicada ao Emmy de Melhor Novela. “Quando veio a indicação ao Emmy, chorei até os joelhos cederem. Sentei no chão. Escrevi aquela novela em meio a um luto profundo. Perdi muitos parentes, incluindo minha mãe, além de médicos e amigos. Foram muitas perdas. Durante a produção, eu estava constantemente em cemitérios. Depois, ao assistir à novela, percebi quantas cenas se passavam nesses locais. Era uma obra sombria, reflexo de um período mundial de luto — e também do meu luto pessoal. A indicação ao Emmy aconteceu meses após o fim da exibição. Para mim, foi como se o universo dissesse: ‘Pode seguir. Está tudo bem. Vire a página'”.

Ítalo (Paulo Lessa), Clarice (Taís Araujo), Pat (Paolla Oliveira) e Moa (Marcelo Serrado), os protagonistas de ‘Cara e Coragem’ (Foto: Divulgação/TV Globo)

Perguntamos à Claudia, como se estabelece a relação entre ela e seus colaboradores e se há espaço para que tenham a sua própria personalidade na escrita. Ela disse que sim, contanto que passe pelo crivo do autor principal: “O colaborador influencia o autor, sim. Mas a assinatura final da obra é sempre dele. Pode haver um núcleo ou uma linha narrativa em que o colaborador tenha atuado com mais ênfase, mas o tom, o rumo da história, é definido pelo autor principal”.

BASTA SONHAR QUE RAPIDINHO CHEGA-SE LÁ

A frase que abre este segmento da reportagem é o tema de abertura de “Bambuluá” , programa infantojuvenil apresentado no programa de Angélica no início dos anos 2000 e roteirizado por Claudia. Ele tem um valor especial em sua trajetória e muito se deve ao fato de que a atração investia no valor e no poder do sonho. “Esse tema toca meu coração. Tenho um carinho profundo. Foi um dos momentos mais felizes da minha vida profissional. Criei tudo aquilo ao lado de Roberto Talma (1949-2015), de quem sinto falta todos os dias. Talma entrou comigo em “Bambuluá”, o primeiro programa diário de dramaturgia que escrevi. Entramos juntos na cidade cenográfica, ainda em construção, usando capacetes de obra. Ele me olhou e disse: “Você gostou? Essa é sua primeira cidade cenográfica. Desde então, em todas as cidades cenográficas que entrei – “Pega-Pega”, “Cara e Coragem”, “Volta por Cima” – lembro dessa frase. Olho para o céu e dedico aquele momento a ele”.

Para encerrar, perguntamos à autora se, caso ela fosse escrever uma novela sobre si, qual seria a primeira cena do primeiro capítulo, e ela revisitou uma memória. “Eu tinha 16 ou 17 anos, fazia teatro diariamente como parte de um grupo amador no Sesc da Tijuca. Já tinha tentado o vestibular e estava em um cursinho para tentar novamente. Meu pai, percebendo meu envolvimento com o teatro, me chamou para conversar. Disse: “Faz sentido eu pagar um cursinho enquanto você vive no teatro todos os dias?”. Naquele momento, pensei que ele fosse me impedir de continuar. Mas, para minha surpresa, ele perguntou: “Você quer mesmo trabalhar com teatro, com arte?” Respondi que sim. Então ele completou: “Qual é a melhor escola?” Respondi: “A CAL.” Na época, era tão cara quanto uma faculdade — e continua sendo. Ele então disse: “Saia do cursinho e vá para a CAL”. Infelizmente, meu pai não me viu me formar. Faleceu quando eu tinha 19 anos. Mas ele confiou no meu destino. Se pudesse, abriria uma novela com essa cena. Por isso incluí algo semelhante entre Madalena e Lindomar, em “Volta por Cima”. Eles compartilham esse vínculo, assim como eu continuo tendo com meu pai até hoje”.

Cidade cenográfica de “Bambuluá” (Foto: Reprodução/Globo)

Como diria Fernando Pessoa, o artista sente menos porque precisa lembrar para poder transformar o vivido em palavra. Mas e quando o vivido se funde ao escrito? Quem escreve projeta vidas ou revisita a sua? Ao fim desta travessia, talvez não haja tanta diferença entre Claudia, a autora, e Madalena, a personagem. Ambas erguem-se da coragem: uma para escrever, e outra para que sua vida exista. Se a vida não é filme, tampouco é novela — mas pode ser.