Claudia Alencar: recuperada de um coma e 7 meses de internação, ela revisitará, em peça, tortura que sofreu na ditadura


“Fui torturada, estuprada, e foi uma barbaridade o que fizeram comigo. Eu era uma garota”, desabafa Claudia Alencar, que retorna ao teatro com “Camaradas”, peça sobre os traumas da ditadura, que viveu na pele. Neste momento, ela celebra o sucesso da reprise de Tieta, onde viveu Laura, revelada como a enigmática Mulher de Branco no final da trama. Em meio ao carinho do público, a atriz também enfrentou recentemente um grave problema de saúde, envolvendo internação e coma, mas se recuperou com força e serenidade. No cinema, lançou “Queen Lear”, releitura de Shakespeare em festivais internacionais. Claudia denuncia o etarismo e a desigualdade de gênero na mídia e no audiovisual; reivindica mais espaço para mulheres maduras e segue firme: arte como resistência

*por Vítor Antunes

Na última sexta-feira, foi ao ar o último capítulo de Tieta, sucesso assinado por Aguinaldo Silva, Ricardo Linhares e Ana Maria Moretzsohn. A novela, que sempre teve ótimo desempenho em suas reprises, mais uma vez se consagrou como um verdadeiro fenômeno de audiência. Chegou a registrar índices comparáveis — e por vezes superiores — aos da atual novela das nove, Vale Tudo, também em reexibição. Entre os nomes marcantes da trama oitentista, está o de Claudia Alencar, intérprete da fogosa Laura. No episódio final, é revelado que sua personagem era, na verdade, a enigmática Mulher de Branco — figura misteriosa responsável por capturar os homens de Santana do Agreste. Cláudia acompanhou de perto a redescoberta da novela por uma nova geração e celebrou o carinho do público: “Realmente foi muito bem a novela. Estava sendo parada sempre na rua, como se a novela estivesse mesmo no horário nobre. E há muito tempo que eu não vejo esse fenômeno acontecer”.

Além do sucesso de público, Tieta também foi inovadora ao retratar, de maneira simbólica, um trisal amoroso entre os personagens de Cláudia Alencar, Cláudia Magno (1957–1993) e Flávio Galvão — algo raramente discutido com profundidade na televisão da época, especialmente em um Brasil recém-saído da ditadura militar.

E, ao falar desse período sombrio da história do país, Cláudia anuncia seu retorno aos palcos com um projeto profundamente pessoal e político. Ela prepara uma peça que toca diretamente em sua vivência durante o regime: “Eu estou me preparando para uma peça teatral do Aluísio Villar, ‘Camaradas’, sobre os torturados da ditadura e uma noite de Natal que se encontram com o torturador por um acaso. É um texto belíssimo que eu quero fazer muito esse texto esse ano. Afinal, eu conheci bem a ditadura. Fui torturada, fui estuprada, e foi uma barbaridade o que fizeram comigo. Eu era uma garota. Desenvolvi síndrome do pânico. Eu não podia ficar em um lugar escuro. Se eu ia para o cinema, por exemplo, eu tinha que ver imediatamente a luzinha do banheiro para ficar sossegada. Fiquei 10 anos com pânico, que foi, devagarzinho, terminando. Eu conseguir atuar nesta peça é uma limpeza mesmo, uma libertação. É uma libertação de poder falar e poder, com o personagem, poder falar o que fizeram, o que não fizeram, e poder encenar um espetáculo com um debate sobre isso”.

É fundamental que haja essa discussão sobre a ditadura, ainda mais nesse momento do filme “Ainda Estou Aqui”. E eu acho que a gente não pode se permitir uma ditadura, nem de esquerda, nem de direita, nem de nada. A gente é uma democracia. Ficamos aprisionados durante 21 anos, nos deixando levar pela repressão. Eu passei pelo momento de viver ditadura, de levantar peça de teatro, de a censura proibir peça antes da estreia e a gente perder todo o dinheiro por conta do veto – Claudia Alencar

RAINHA

No último ano, Cláudia Alencar gerou preocupação entre fãs e colegas por conta de sérios problemas de saúde. A atriz enfrentou um longo período de internação – foram sete meses -, incluindo um coma, após complicações causadas por uma cirurgia na coluna e uma infecção bacteriana. “Sobrevivi e estou aqui para contar. Fiquei em coma e tive que ter uma longa recuperação para poder andar, fiquei com as pernas paralisadas e tive uma trombose venosa. Quando eu andava, saía da cama, andava de um lado, depois andava para o outro lado. Depois comecei a fazer musculação. Então foi todo um processo. Eu gostei de estar aceitando esse novo recomeço, esse novo estar. Meditei muito, li, escrevi. Me dei bem com esse tempo [de recuperação]”.

Curiosamente, no mesmo período em que enfrentava a doença, Cláudia havia acabado de rodar o filme “Queen Lear”, onde interpreta uma espécie de “rainha” e líder de uma milícia no Rio de Janeiro, numa releitura moderna do clássico de Shakespeare (1564-1616) dirigida por Quentin Lewis. “O filme está belíssimo, com muito efeito, e mostra o Rio de Janeiro. E tem a briga da família, da mãe com as filhas, porque ela vai dividir a fortuna que ela tem para as filhas — trazendo a premissa da montagem de Shakespeare. O ser humano não muda, a gente anda em círculo, é uma coisa. Então, tá indo em vários festivais da Europa, dos Estados Unidos, estamos ganhando muitos prêmios e vai voltar para cá. Eu acho que vai para o cinema, depois vai para os streamings”.

Claudia Alencar quer voltar ao teatro revisitando a ditadura militar (Foto: Vinícius Bertoli)

Na mesma semana em que Tieta chegou ao fim no canal Viva, outra novela com Cláudia também se despedia: “Cara e Coroa”, de Antônio Calmon, com direção de Wolf Maya. A atriz relembra com carinho a leveza da trama, especialmente em contraste com o drama intenso de “Anjo de Mim”, que gravou pouco depois: “Em ‘Anjo’ eu ia pra televisão pra chorar. Chorava todo capítulo. Em razão da dramaticidade, nasceu uma herpes na minha boca. Passei a gravar só de um lado. Aí a herpes fechou, eu continuava chorando [na novela] . Nasceu herpes do outro lado da boca. Passei a ter que filmar do outro lado, do lado direito. Mas, de todo modo, eu aprendo muito com as minhas personagens”. Tema de uma reportagem recente no Site Heloisa Tolipan, Cláudia se surpreendeu ao saber por nós que a novela Um Homem Muito Especial, da Band, está sendo reprisada na Itália. Já Meus Filhos, Minha Vida, ela conta que tem reprise ininterrupta no país desde os anos 1990.

Tão roubando da gente nossos direitos — Cláudia Alencar

Canal italiano exibe novela brasileira: Atores desconhecem reprise e Band ameaça de processo. Entenda (Foto: Reprodução/Band)

 

A maturidade, o preconceito e a desigualdade de gênero são temas frequentes no discurso contundente da atriz. Ela critica a forma como a diferença de idade em relacionamentos é tratada pela mídia, especialmente quando envolve mulheres mais velhas: “Eu acho isso um absurdo. Os homens podem ter mulheres mais jovens… e as mulheres não podem ter homens mais jovens? Como? Além disso, destacam a mim na imprensa desta forma: Meu nome, vírgula, minha idade. Parece que a gente tá no século XVII. Há atores que são casados com mulheres mais jovens, bem como personalidades públicas, mas não há uma problematização disso”.

A imprensa ainda é reacionária – Claudia Alencar

Cláudia também denuncia o etarismo enfrentado por atrizes maduras no audiovisual brasileiro: “Eu acho que a gente tá cavocando esse espaço, abrindo essa estrada, abrindo essa clareira, porque é muito difícil. Agora o Aguinaldo Silva lançou a peça A Vida Começa aos 60 com a Luiza Tomé. Mas, nas novelas, quando há um núcleo mais maduro? Não.
Não tem o núcleo das mães, ou das avós, sei lá, das tias, das mulheres mais velhas, ou como elas estão modificadas agora, nesse século. Que é outro tipo de relação que as mulheres maduras têm? Ainda não foi colocado na televisão. Ainda não foi explorado. Deveria explorar mais”.

Claudia Alencar questiona o etarismo e a abordagem reacionária da imprensa para com a liberdade da mulher (Foto: Vinícius Bertoli)

Com uma trajetória marcada pela coragem, pela entrega e pelo enfrentamento de tabus, Cláudia Alencar segue usando a arte como ferramenta de denúncia, reflexão e libertação. Em suas palavras, em sua obra e em sua presença, ela reafirma a potência da mulher madura como protagonista de sua própria história — dentro e fora da ficção.