Clara Moneke vibra com primeira protagonista: “Cada passo na carreira foi construção de Orixá na minha vida”


Estrelando ‘Dona de Mim’, a nova trama das sete da Globo, a atriz fala sobre a importância da crescente representatividade na televisão e comenta a experiência de viver a sua primeira protagonista. Com a estreia da novela em 28 de abril, serão uma trinca de protagonistas negras na TV, vivendo histórias que estão fazendo sucesso com o público (Duda Santos na novela das seis, ‘Garota do Momento’; e Taís Araújo, na das nove,  ‘Vale Tudo’). “Amo contar histórias, e a história de uma mulher negra que vence é uma história que precisa ser contada”, vibra. Clara fala da personagem e do que tem em comum com ela, se emociona ao lembrar do caminho, e de uma quase desistência do ofício, anos antes da protagonista atual: “A ancestralidade foi me guiando para o caminho que já seria meu. Minha história é de muita leveza, dignidade, porque viver da arte no Brasil é sofrido. E sabendo disso desde nova, busquei outras alternativas para ter uma vida com mais leveza. E mesmo assim, foi o meu plano B (ela cursou Hotelaria e Turismo), que me conduziu de volta à minha atriz”

*Por Brunna Condini

Clara Moneke é um furacão”. Foi com esta frase que Cyda Moreno, que vive Yara, a avó da Leona (Clara), protagonista de ‘Dona de Mim‘, próxima novela das sete da Globo, se referiu a atriz de 26 anos. E Clara é mesmo uma força da natureza, daquelas potentes, mas que sabem fluir. Ao protagonizar a trama de Rosane Svartman, que estreia em 28 de abril, ela reafirma o seu ‘ok’ para os chamados na arte: há dois anos, estreava na TV em ‘Vai na Fé’‘, da mesma autora, e antes disso, chegou a ter um plano B como profissão, quase deixando o ofício para trás. “Me sinto em êxtase com esse projeto. Está mais do que na cara que o Brasil quer se ver. A população não aceita mais qualquer tipo de conteúdo. E com a minha personagem, agora vem aí uma nova trinca de protagonistas negras na TV com histórias que estão fazendo sucesso (Duda Santos estrela a novela das seis, ‘Garota do Momento‘; e Taís Araújo, a das nove,  ‘Vale Tudo‘). Amo contar histórias, e a história de uma mulher negra que vence é uma história que precisa ser contada”, vibra.

Como na frase que apresenta o novo folhetim -“A felicidade sempre encontra um caminho” – a atriz também encontrou suas vias para viver do fazer artístisco. Ou melhor, a carreira a reencontrou. Que filme passa quando revisita seus últimos anos, em que antes de trabalhar na TV, chegou a abraçar outra profissão como uma segunda opção de sobrevivência? “Vejo um filme lindo. Minha história é de muita leveza, dignidade, porque viver da arte no Brasil é sofrido. E sabendo disso desde nova, busquei outras alternativas para ter uma vida com mais leveza. E mesmo assim, foi o meu plano B que me conduziu de volta à minha atriz”. A seguir, Clara relembra com isso aconteceu, fala da identificação com o novo trabalho e da crescente e necessária representatividade na televisão brasileira:

Acredito que cada passo na carreira foi construção de Orixá na minha vida. A ancestralidade foi me guiando para o caminho que já seria meu – Clara Moneke

Clara Moneke se emociona ao lembrar do caminho, e de uma quase desistência do ofício, anos antes, da protagonista da nova novela das sete (Foto: Divulgação/Globo)

Clara Moneke se emociona ao lembrar do caminho, e de uma quase desistência do ofício, anos antes, da protagonista da nova novela das sete (Foto: Divulgação/Globo)

“Comecei a fazer teatro ainda criança e tinha muita certeza do que desejava. Mas pensando em ter uma alternativa, fiz Enem para cursar Hotelaria e Turismo, sempre gostei de comunicação e do que envolvia essa área. Na faculdade, tive a oportunidade de trabalhar em uma empresa de energéticos famosa, foi lá que conheci o Marcelo D2. Eu lidava com o setor de cultura. Depois fui trabalhar em uma empresa de sandálias e o ofíco de atriz foi ficando mais longe ainda. Mas foi nessas grandes empresas que tive a oportunidade de conhecer pessoas incríveis, e logo depois, a arte veio me buscar. Foi quando me chamaram para fazer uma série (‘Amar É Para Os Fortes‘, da Amazon, de D2 e Antônia Pellegrino). Depois engatei um filme e nunca fiquei sem trabalhar, não sofri. Venho conseguindo viver bem do meu ofício. Estamos longe de um ideal para nós, população preta, artística, no Brasil. Não sou uma totalidade, sou um ponto fora da curva. Só que quando algo fora do comum acontece, isso abala as estruturas. Como tantos atores pretos nesta novela estão fazendo. Estamos no caminho, que é árduo, mas é bom ver a caminhada”.

Vejo minha vida como um filme de sucesso. Estou muito feliz com tudo o que tenho conquistado, não só para mim. É um ganho para a arte do país – Clara Moneke

Clara Moneke, a pequena Elis Cabral e Tony Ramos estrelam 'Dona de Mim', a próxima trama das sete (Foto: Divulgação/Globo)

Clara Moneke, a pequena Elis Cabral e Tony Ramos estrelam ‘Dona de Mim’, a próxima trama das sete (Foto: Divulgação/Globo)

Ela une todas

Nascida em São Paulo e criada em Campo Grande, Zona Oeste do Rio de Janeiro, a atriz é filha de um nigeriano e de uma brasileira. A mãe de Clara, Marilene Pereira Mariano, morreu em 2021, aos 61, em decorrência de um Acidente Vascular Cerebral (AVC). “Ela sempre vai ser minha maior referência de vida, posicionamento, inspiração. Uma mulher batalhadora, era enfermeira, cuidadora de idosos. No passado foi também empregada doméstica, acho que trabalhou muito e nunca olhou para sua própria saúde com muita atenção”, disse ao site em entrevista de 2023.  “Minha mãe sempre me incentivou muito como atriz. Queria que eu voltasse para o meu caminho na arte e isso acabou acontecendo mesmo. Sinto que de onde ela está, se sente feliz com o meu sucesso, com tudo o que está acontecendo”.

Ao falar da nova personagem, a atriz percebe muito em comum, coisa que a toca profundamente:

"Estamos longe de um ideal para nós, população preta, artística. Sinto que não sou uma totalidade, sou um ponto fora da curva, mas isso abala as estruturas" (Foto: Divulgação/Globo)

“Estamos longe de um ideal para nós, população preta, artística. Não sou uma totalidade, sou um ponto fora da curva, mas isso abala as estruturas” (Foto: Divulgação/Globo)

“Me identifico muito com a Leona. Sou muito truqueira como ela, além de ter uma família de mulheres, embora tenha tido um pai muito presente”, diz, ao comparar sua história com a da personagem, nascida no tradicional bairro de São Cristóvão, na Zona Norte do Rio de Janeiro, que mora com a avó Yara (Cyda Moreno) e a irmã Stephany (Nikolly Fernandes). E sempre usa a criatividade para conseguir uma graninha a mais e garantir o forró na Feira de São Cristóvão no final de semana com suas duas melhores amigas: Kami (Giovanna Lancellotti) e Pam (Haonê Thinar). E continua:

“Na história da minha vida, meus pais se separaram muito cedo, então no dia a dia, minha criação foi com mulheres, com minha mãe, avó, irmã e tia. Em nossa casa, não tínhamos outra possibilidade, a não ser fazer as coisas acontecerem, darem certo. Por isso, acredito muito na história desta família da ficção, porque é também a história da minha família na vida. Vai gerar identificação com as pessoas. Eu, por exemplo, via minha irmã indo trabalhar, porque eu queria fazer teatro. Depois ela ficava até meia-noite me esperando nos ensaios para me levar para casa. Então, essa mulher de fibra que faço na novela, são as mulheres de fibra que me criaram e que me tornei”.

Essa é mais uma personagem que me identifico e isso é algo muito bonito. Precisamos contar histórias de mulheres pretas que vencem. Na verdade, me identifico com todas as mulheres dessa novela, são todas mulheres da atualidade – Clara Moneke

Leona

A personagem de Clara é descrita como uma mulher que sempre age com boas intenções, mas frequentemente se vê em situações complicadas e carrega uma dor profunda. Há sete anos, quando era estudante de Comunicação e Marketing e estava prestes a se casar com Marlon (Humberto Morais), grávida de seis meses de sua primeira filha, Sophya, Leona viu seu mundo desabar. A perda da gestação, que já estava quase na reta final, mudou sua vida e deixou cicatrizes que ela luta diariamente para superar. Isso gerou um trauma que a fez abandonar a bolsa de estudos e o relacionamento. Por conta da situação, ela vai trabalhar como babá da menina Sofia (Elis Cabral), filha adotiva do empresário Abel (Tony Ramos), que tem outros filhos: Samuel (Juan Paiva), Davi (Rafa Vitti) e Ayla (Bel Lima). Samuel e Davi vão disputar o coração de Leona, que tem uma história ainda mal resolvida com Marlon. Vem aí um quarteto amoroso? “A Leo e o Marlon têm um apelo forte. O apelo do tempo, do afeto maturado. Mas ela vai transitar entre esses três, pelo menos por enquanto (risos). Nunca se sabe, é novela, vai que tenha mais? Não sei, amor nunca é demais, né?”, diverte-se.

Humberto Morais e Clara Moneke vivem relação mal resolvida em 'Dona de Mim' (Foto: Divulgação/Globo)

Humberto Morais e Clara Moneke vivem relação mal resolvida em ‘Dona de Mim’ (Foto: Divulgação/Globo)

“Na relação com o Marlon, o que pesa muito é a história deles. Ao mesmo tempo, também se abrem novas possibilidades de caminhos que ela não viveu ainda. Com Marlon, é um amor do passado, ferido, muito machucado, então não tem como prever o que vai acontecer. Esse casal tem muito apelo também pela questão mal resolvida, que dá vontade de ver no que vai dar, o que teria sido. Eu, particularmente, torço por eles, mas também torço pelas possibilidades da Leona viver outras coisas, conhecer outras pessoas, se descobrir em outros lugares, sendo dona de si, uma mulher completa. Se for para ela estar com o Marlon ou outra pessoa, que seja alguém que some”.

"Minha vida é um filme de sucesso que passa na minha cabeça. Estou muito feliz com tudo o que tenho conquistado" (Foto: divulgação/Globo)

“Minha vida é um filme de sucesso que passa na minha cabeça. Estou muito feliz com tudo o que tenho conquistado” (Foto: divulgação/Globo)