Chat GPT, desconhecimento do próprio conteúdo, e atriz fazendo novela antes de nascer: Os equívocos da Globo


O canal Viva é agora Globoplay Novelas -iniciativa alinhada às mudanças no consumo de conteúdo. No entanto, a alteração gerou dúvidas entre os telespectadores e levantou questionamentos sobre a nova grade de programação. Algumas falhas recorrentes sugerem certa dificuldade em lidar com um acervo tão vasto e significativo.

Chat GPT, desconhecimento do próprio conteúdo, e atriz fazendo novela antes de nascer: Os equívocos da Globo

*por Rodrigo Otávio

Em junho, o canal Viva deixou oficialmente de existir como marca para dar lugar ao “Globoplay Novelas”, novo nome adotado pela Globo numa tentativa de fortalecer sua principal plataforma de streaming sob demanda. A decisão, porém, parece ter gerado mais confusão do que clareza. O Viva, que havia se consolidado como um dos maiores trunfos do Grupo Globo no resgate e na valorização do acervo de telenovelas, foi apagado sem cerimônia — e, até agora, sem ganhos perceptíveis. A rebatização não foi acompanhada de uma campanha de comunicação eficaz. Muitos espectadores ainda não entenderam se o canal foi renomeado, extinto ou fundido ao Globoplay. Há quem acredite, inclusive, que o Viva simplesmente saiu do ar, e as queixas sobre a nova programação se acumulam nas redes. O novo nome também não dialoga com o hábito de consumo do público tradicional da TV por assinatura, criando uma ruptura com a audiência cativa construída ao longo de mais de uma década.

Na semana passada, um telespectador usou o X/Twitter para questionar por que novelas como “Alto Astral”, “O Profeta” e “Sangue Bom” ainda não haviam sido exibidas no “Globoplay Novelas” (ex-Viva), apesar de estarem disponíveis no catálogo do aplicativo Globoplay. A resposta oficial, no entanto, negava a presença dessas tramas na plataforma — um erro flagrante de quem sequer checou o próprio acervo. O conteúdo está lá, mas a resposta da equipe de atendimento mostra total desconhecimento sobre o produto oferecido.

Globoplay se equivoca dizendo que novelas da plataforma não estão no app (Foto: Reprodução)

Não foi o único deslize recente. Em resposta a uma telespectadora que elogiava a personagem Ritinha – vivida por Gabriela Duarte em 1995 (a atriz nasceu em 1974) -, o Globoplay respondeu à telespectadora citando os atores da versão original de 1970 — época em que a personagem era interpretada por sua mãe, Regina Duarte. E cita nominalmente os atores da versão setentista – Claudio Marzo (1940-2015), Claudio Cavalcanti (1940-2013) e Tarcísio Meira (1935-2021) – em vez dos artistas do remake, Ilya São Paulo (1963-2023) , Marcos Palmeira e Marcos Winter. Uma confusão que não é apenas cronológica: é também sintomática da falta de apuro da edição. O Globoplay apagou o post.

Como se não bastasse, nesta mesma semana, um anúncio institucional da Globo deixou escapar um prompt mal editado do ChatGPT, utilizado provavelmente como apoio na elaboração de texto para divulgação de atrações.

Globoplay fala de novela que Gabriela Duarte teria feito antes de nascer (Foto: Reprodução)

A recente reestruturação das marcas e plataformas da Globo levanta pontos importantes sobre a condução desse processo. Em meio às mudanças, nota-se certo distanciamento em relação ao perfil do público que acompanha essas produções. Isso tem gerado ruídos na relação com uma audiência que, mesmo diante das transformações do mercado, continua valorizando a memória afetiva das novelas, a precisão das informações e o respeito pela trajetória construída ao longo dos anos.

A proposta de integração digital é compreensível e até necessária. No entanto, sem planejamento cuidadoso, escuta ativa e sensibilidade histórica, há o risco de se diluir não apenas o valor de um dos acervos mais emblemáticos da emissora, mas também o elo afetivo que tantos brasileiros cultivam com essas histórias. A convergência, para ser eficaz, precisa mais de conexão do que de velocidade — e conexão exige cuidado.