*por Vítor Antunes
Estreia neste mês de junho um dos maiores êxitos da teledramaturgia brasileira. “Selva de Pedra” (1972/1973), uma das pouquíssimas produções a atingir os lendários 100 pontos de audiência em seu último capítulo, retorna ao GloboPlay no dia 29. Relembre os bastidores e tudo o que aconteceu na novela.

Francisco Cuoco e Regina Duarte foram os protagonistas (Foto: Reprodução)
“Selva” foi antecedida por “O Homem que Deve Morrer” e sucedida por “Cavalo de Aço”. Das três, foi ela quem teve melhor sorte: preservada por meio de uma reprise compacta exibida em 1975, chegou até nós em 76 capítulos que resumem os 243 originais.
A estreia, no entanto, foi recebida com frieza pela crítica. Valério de Andrade, do Jornal do Brasil, classificou a novela, já na sua estreia, como “surpreendentemente decepcionante” — e foi adiante, chamando-a de “descosida, redundante, artificial”. Contundente, Valério não poupou o elenco: “Dina Sfat na piscina poderia ter sido substituída por qualquer figurante do Chacrinha, talvez até, quem sabe, com mais graça acrobática.” O Jornal dos Sports, na mesma toada, apontou que Dina não queria fazer a trama e que havia pedido para sair por estar “cansada demais.”
A novela teria custado a “pegar”, segundo reportagem da época veiculada pelo Fluminense. Rosemarie Muraro, em crítica publicada na Manchete, observou que Regina Duarte — que sempre apareceu como “virginal, meiga” e “que sempre acaba com véu de noiva casando, na igreja” — aparecia nessa novela fumando. O comportamento, segundo a crítica, gerou “muita reclamação.”

Regina Duarte deu vida a Simone Marques/Rosana Reis em “Selva de Pedra” (Foto: Divulgação)
SUCESSO
Segundo a coluna do Chacrinha (1917-1988) — sim, a dele próprio, no Fluminense —, a substituta de “Selva de Pedra” seria “O Bem Amado”, que acabou estreando às 22h e não às 20h. A substituta efetiva de “Selva” foi “Cavalo de Aço“. Nessa época, o diretor de “Selva”, Walter Avancini (1935-2001), declarou que deixaria de dirigir para se dedicar à escrita de novelas. Algo que ele nunca fez de maneira deliberada: passou a “reescrever” oficialmente os capítulos das novelas que dirigia na Manchete, como “Mandacaru” e “Xica da Silva.”
Segundo o JB da época, a novela foi gravada em Paris para ilustrar o momento em que Simone se torna Rosana Reis. Foram três dias de gravação, conforme a Revista Manchete. Perto do fim da trama, Regina Duarte exibiu, no Canecão, o musical “Regina Mon Amour.“

Regina Duarte em “Regina Mon Amour” (Foto: Reprodução/Manchete/Biblioteca Nacional)
Na época da estreia de “Selva de Pedra”, Milton Gonçalves concedeu entrevista ao Globo como um dos diretores da produção. Tal como em outras novelas daquela década — entre as quais “Escrava Isaura” e “Isauras Coragem” —, seu nome não foi devidamente creditado. Em “Isaura”, Milton recebeu crédito de co-diretor apenas no encerramento da trama. Ele também assinou a direção de “O Homem que Deve Morrer”, conforme reportagem de O Globo de 1972. Francisco Cuoco foi um dos que encerraram as gravações de “O Homem que Deve Morrer” num dia e começaram a gravar “Selva de Pedra” no outro — assim como Gilberto Martinho (1927-2001), Emiliano Queiroz (1936-2024), Arlete Salles, Lídia Matos (1924-2013) e Carlos Eduardo Dolabella (1937-2003.
A novela fez muito sucesso. Entre seus fãs ilustres, o ex-presidente Juscelino Kubitschek (1902-1976):
Eu queria muito te conhecer. Sofri muito com você e chorei por você no sábado.” — Juscelino Kubitschek a Regina Duarte, ao Jornal do Brasil, janeiro de 1973.
Em razão do êxito da novela, foi proposta à autora Janete Clair que adaptasse “Selva de Pedra” para o rádio, por meio da Rádio Nacional. A Globo não permitiu.
Marcos e Paulo Sérgio Valle, autores da trilha sonora — numa época em que as trilhas eram feitas sob encomenda e especialmente concebidas para cada novela, hábito que só deixou de existir em 1975 —, revelaram ter tido apenas 20 dias para produzir toda a trilha da trama. Os músicos, ainda que munidos do perfil da trama e das personagens, compuseram as músicas sem nunca terem visto os atores — com exceção dos casos relacionados a Dina Sfat. Em 1975, a trama foi reprisada em razão da censura a “Roque Santeiro.”

Carlos Eduardo Dolabella em “Selva de pedra” (Foto: Divulgação)
SIMONE É UMA CHATA!
“Nem Simone, nem Fernanda. Não me casaria com nenhuma das duas. Elas não são o meu tipo. São umas chatas! Gosto de mulheres com personalidade”, disse Francisco Cuoco (1933-2025) à revista Contigo. E complementou: “Ambas são muito incoerentes. Uma era meiga e bondosa e, por uma decepção, torna-se vingativa. A outra, de maravilhosa e compreensiva, vira mesquinha e má.” Já Regina Duarte acreditava que as razões da personagem eram compreensíveis, já que ela havia sido enganada pelo homem que amava e por isso havia perdido um filho. “Acho compreensível e agiria de igual maneira”.Tanto Carlos Vereza como Dina Sfat, dizia-se, apanhavam na rua pelas saudades desesperadas de seus personagens.

Dina Sfat em cena de “Selva de Pedra” (Foto: Divulgação)
Embora seja um nome comum, Simone experimentou uma explosão estatística nos anos 1970. Até o fim da década anterior, o Brasil não somava três mil Simones. Nos anos 1970, o número saltou para 135 mil. O salto coincide com o sucesso avassalador de “Selva de Pedra” (1972), protagonizada por Regina Duarte. Na década seguinte, o ritmo de batismos caiu, mas permaneceu alto — possivelmente influenciado pelo êxito da cantora Simone, cujo primeiro grande sucesso nacional veio em 1979. Proporcionalmente à população, o estado que mais concentra Simones é o Rio de Janeiro. Em 1986, para substituir “Roque Santeiro”, foi escolhido o remake de “Selva de Pedra” — igualmente uma das pouquíssimas novelas a registrar audiência total em seu último capítulo, assim como o fenômeno que vinha substituir.
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