*por Vítor Antunes (com Tião Uellington)
“Uma novela sobre o direito de viver” – foi assim que a imprensa da época definiu Sinal de Alerta, obra escrita por Dias Gomes (1922-1999), que retornou ontem ao Globoplay como parte do projeto Fragmentos. A frase não era apenas manchete: era do próprio autor, reconhecido por imprimir densidade política e social às suas narrativas. A censura vigente durante o regime militar interferiu diretamente no conteúdo e na forma da novela. Palavras como “tóxico” foram vetadas, o que impediu a exibição de um núcleo de personagens ligados ao universo das drogas. Além disso, por conta do Horário Eleitoral Gratuito, Sinal de Alerta foi deslocada para as 23h e, em determinados momentos, deixou de ser exibida. Futebol, basquete e transmissões especiais também fragmentaram a exibição, fazendo com que, ao fim da propaganda política, a emissora tivesse que condensar 72 capítulos em apenas 10. Em novembro de 1978, foi ao ar um extenso compacto da história exibido ao longo de duas semanas, antes da retomada com capítulos inéditos.
Lançada originalmente entre 1978 e 1979, a novela foi a última produção da faixa das 22h da TV Globo, extinta logo após o fim da trama – decisão que o autor lamentou publicamente: “Isso poderia impactar com o fim da renovação do gênero, já que aquele era o horário dedicado às obras mais diferentes, mais arrojadas”. Segundo o trabalho de conclusão de curso “O vídeo é uma fantástica máquina do tempo – A preservação e a rememoração do arquivo de entretenimento da Globo”, de Gabriel Sarturi, publicado pela Universidade Federal de Santa Maria (UFSM) em 2024, apenas seis capítulos originais de Sinal de Alerta foram preservados. Por isso, a volta da novela ao streaming será feita a partir desses poucos fragmentos, em mais um esforço de recuperação da memória da televisão brasileira.
À primeira vista, pode parecer surpreendente que uma novela brasileira de mais de 45 anos atrás tratasse de temas como poluição, especulação imobiliária, crescimento urbano desordenado e destruição ambiental. Mas esse era justamente o cerne de Sinal de Alerta, um folhetim ambientalista que, se hoje parece atualíssimo, à época foi pioneiro – e, por isso mesmo, sofreu as consequências de ousar demais.

Sinal de Alerta: Novela de Dias Gomes está de volta em Fragmentos, na Globoplay (Foto: Reprogução/Globo)
O aprofundamento de qualquer tema em novela depende da censura – Dias Gomes, em 1978
A trama de Sinal de Alerta foi inicialmente inspirada no bairro paulistano de Veleiros, mas adaptada para um bairro fictício do Rio de Janeiro, sem nome revelado. Muitas cenas, contudo, foram gravadas em Vila Isabel. “A poluição é apresentada como uma violência”, definiu Dias Gomes, dando o tom da narrativa. O protagonista Tião Borges, vivido por Paulo Gracindo (1911–1995), era um empresário disposto a aterrar a Baía de Guanabara para unir Rio e Niterói – uma alegoria ácida à especulação e ao crescimento urbano desenfreado, como já havia sido discutido em outra novela do autor, O Espigão.

PAulo Gracindo era o protagonista de “Sinal de Alerta” (Foto: Nelson di Rago/Globo)
Para mascarar os efeitos poluentes de sua fictícia fábrica, o personagem organizou um show popular gratuito. Inicialmente, a produção pensou em Waldick Soriano (1933–2008), mas quem acabou se apresentando na novela foi Agnaldo Timóteo (1936–2021), em um evento realizado no Clube Maxwell, em Vila Isabel.
Curiosamente, a novela também inovou em sua abertura: ao invés de uma música tema, utilizou sons urbanos para transmitir a sensação de poluição sonora. Ainda assim, uma canção foi criada especialmente para a trama: Salve o Verde, composta por Jorge Ben Jor e gravada por Quarteto em Cy e MPB-4, foi utilizada como trilha, mas não na abertura. “Sinal de Alerta” chegou a alcançar picos de audiência superiores aos de sua antecessora, “O Pulo do Gato”, e marcou cerca de 50 pontos em momentos específicos. Apesar de não ter sido considerada um sucesso comercial, foi eleita pela Associação Paulista de Críticos de Arte (APCA) a melhor novela de 1978. O ator Eduardo Conde (1948–2003) foi agraciado como revelação do ano.

Eduardo Conde foi agraciado com o prêmio de ator revelação (Foto: Nelson di RAgo/Globo)
Nos bastidores, a produção enfrentou uma mudança significativa: Dias Gomes deixou a condução da obra por volta do capítulo 89. Segundo o jornal O Fluminense, ele teria sido afastado para se dedicar a produtos especiais da segunda linha de shows da Globo. A partir de então, Walter George Durst (1919–1997) assumiu o texto – ele também colaborou com os trinta capítulos finais. O diretor Gonzaga Blota (1937–2023) retornou à equipe com essa reformulação. Ferreira Gullar (1930–2016), amigo próximo de Dias, também contribuiu de forma informal durante a fase inicial da obra – mais tarde, os dois voltariam a colaborar oficialmente em outras produções da emissora.
A força temática da novela repercutiu além da ficção. Em Contagem, Minas Gerais, um grupo de padres ambientalistas organizou uma procissão em defesa do meio ambiente, inspirados pelos personagens da novela. O protesto foi incorporado à trama, que passou a mostrar seus personagens fazendo uma passeata ecologista – uma rara retroalimentação entre realidade e teledramaturgia.

Personagens de Sinal de Alerta em protesto. Ação inspirou procissão em Minas (Foto: Nelson di Rago/Globo)
Entre o desgosto e o troca-troca: os bastidores turbulentos do elenco
Houve mudanças significativas no elenco ao longo da trama. Francisco Di Franco (1938-2001), Carmen Silva (1916–2008) e Rofram Fernandes entraram nos lugares de Mário Petráglia, Pepa Ruiz e Murilo Néri. Já Sandra Bréa (1952–2000), originalmente escalada para o elenco, acabou sendo substituída por Renata Sorrah. Sônia Regina, que participava de O Pulo do Gato, sofreu um acidente durante as gravações daquela novela e acabou sendo remanejada para Sinal de Alerta, que assumiu seu nome em meio à necessidade de reformulação do elenco.
Milton Gonçalves (1933–2022), um dos maiores atores de sua geração, não escondeu a frustração com o personagem que lhe foi destinado. Em entrevista à revista Amiga, declarou: “Foi mais um personagem que não vingou. O pouco que me foi dado, fi-lo com amor”. Seu depoimento ilustra bem a percepção de que, apesar da importância temática da novela, a construção dramática de certos personagens não acompanhava a potência da proposta.

Milton Gonçalves não gostou de fazer a novela (Foto: Nelson di Rago/Globo)
A figura de Rudi, interpretado por Jardel Filho (1928–1983), também enfrentou problemas. O ator teria sido monitorado de perto nos bastidores devido a “problemas de ordem sexual”, segundo relatos da época – uma referência, ainda velada, à homofobia que grassava nos corredores da emissora e na sociedade brasileira sob o regime militar. Já o personagem Nilo, vivido por Eduardo Conde (1948–2003), teria provocado desconforto na cúpula da Globo por retratar uma vida dupla, algo considerado ousado demais para o horário e para os padrões da censura vigente.
O diretor Daniel Filho, nome central na teledramaturgia da época, não guardou boas lembranças da produção. Como lembra Nilson Xavier no site Teledramaturgia, Daniel foi direto: “Eu me lembro que Sinal de Alerta não foi bem. (…) Ao procurar ser bastante crítica, a novela ficou sufocante para o espectador. Era uma novela em que todo mundo, praticamente, tossia, todo mundo estava coberto de poluição”.
De fato, a estética da novela seguiu uma proposta ousada. Walter Avancini (1935–2001), diretor experiente e inovador, optou por ambientações contrastantes. Segundo crítica do jornal O Fluminense, “os pobres são tristes, colocados em ambientes escuros demais, enquanto os ricos contam piadas, riem e se vestem de cores”. A crítica, no entanto, não compreendeu que essa discrepância era intencional: uma denúncia visual da desigualdade ambiental, onde os mais vulneráveis vivem à margem – literal e figurativamente – do bem-estar urbano.
Um detalhe curioso e pouco conhecido: todo o mobiliário que compunha a casa do personagem Tião Borges, interpretado por Paulo Gracindo (1911–1995), foi adquirido do espólio do ex-presidente João Goulart (1919–1976), falecido dois anos antes do início da novela. O gesto dava um tom simbólico e político ao cenário, uma espécie de herança da democracia que fora interrompida.

Personagem de Jardel Filho seria homossexual (Foto: Nelson di Rago/Globo)
A mensagem de Sinal de Alerta era clara. “Essa é a minha contribuição em defesa do meio ambiente, que é a defesa de uma vida mais humana, voltando para a descoberta do bem-estar do homem (…) minha novela pretende despertar consciências e discussões”, disse Dias Gomes à época. E completou, com a precisão de um visionário: “Quando o Dias Gomes fala em poluição, o público ainda não sabe o que é, mas quando tossir vai lembrar da novela”, afirmou o ator Rui Rezende.
A crítica social não se limitava à ficção. A empresa poluidora da novela, chamada Fertilit, passou a veicular propagandas para se defender das acusações implícitas feitas pela trama. Em resposta às críticas de que era responsável por degradações ambientais, o marketing da empresa reagiu: “A Fertilit produz verde”. A ironia é evidente: décadas depois, estratégias semelhantes seriam utilizadas por empresas envolvidas em tragédias reais, como Vale e Samarco após o desastre ambiental no Rio Doce, em Minas Gerais.
A repercussão da novela ultrapassou os limites da televisão. A Câmara Municipal de São Bernardo do Campo chegou a conceder congratulações a Dias Gomes pela abordagem da obra, exaltando seu caráter educativo: “pela abordagem realista e conscientizadora (…) um exemplo dos caminhos que pretende-se dar às novelas”.
O impacto de Sinal de Alerta, portanto, foi muito além de seus índices de audiência. Ao revisitar a obra hoje, o espectador reencontra um Brasil que, ainda sob os grilhões da censura e das contradições do regime militar, já debatia temas que se tornariam centrais no século XXI. E reencontra também um autor que, com coragem, denunciava as violências ambientais, sociais e institucionais. Como já escrevemos: Sinal de Alerta foi, e continua sendo, “uma novela sobre o direito de viver” – mas também, como toda grande obra, uma novela sobre o direito de resistir.
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