*Por Brunna Condini
Com os capítulos finais de ‘Dona Beja’ disponibilizados desde segunda-feira (23), na HBO Max, a trajetória de Carminha, vivida por Catharina Caiado — jovem que, no início da trama, enfrenta a pressão estética social na Araxá (MG) do século XIX, por ser vista como fora dos padrões — se revela para além de uma personagem de época: é um retrato potente sobre desejo, corpo e liberdade feminina. Para a atriz, esse percurso encontra eco direto no público, especialmente entre mulheres mais jovens. “Tenho recebido muitas mensagens no Instagram, principalmente de meninas”, conta. Entre os relatos, o impacto vai além da identificação individual e atravessa relações familiares. “Carminha foi muito importante entre eu e minha mãe”, escrevem. Catharina também destaca que a forma como esses temas chegam através da novela, sem autopiedade e com leveza, ampliam o alcance da personagem: “O humor é uma força de vida”.
Catharina é estreante em novelas, mas veterana no teatro, onde acumula 20 anos de trajetória. Umbandista, ela revela que foi chamada para um teste após ser vista em uma ‘gira’ do seu terreiro por um dos autores de ‘Dona Beja’. Segundo a atriz, o encontro teve um caráter quase espiritual: “Fui para lá nesse dia, porque era dia do meu orixá de frente. Um dos autores me viu girando e falou: ‘acho que ela é a Carminha’”. A partir dali, veio o convite para o teste e uma certeza íntima: “Nunca duvidei que eu ia passar. É muito louco falar isso, mas acho realmente que a gente tinha que se encontrar. Eu e a Carminha”, diz, ao lembrar de um processo que mistura identificação, entrega e transformação pessoal.

Catharina Caiado vive Carminha em ‘Dona Beja’ e reflete corpo e liberdade; atriz também fala de maternidade e transformação pessoal (Foto: Kenny Hsu)
Se na ficção Carminha descobre o próprio corpo como território de liberdade, na vida real o processo de Catharina não foi muito diferente. A atriz de 37 anos diz que chegou ao papel em um momento profundamente atravessado pela maternidade, e por uma relação em transformação com o próprio corpo. “Eu era recém-mãe (de Theodora, de 7 anos) quando peguei esse papel. Foi muito natural quando engordei depois da gravidez e foi assim que encontrei a Carminha”, lembra.
A artista destaca que a personagem atravessa o folhetim entre repressões e descobertas, mas recusa um lugar que, historicamente, costuma ser imposto às mulheres. “Ela não é vítima. E já desistiu de agradar a mãe (Augusta, interpretada por Kelzy Ecard), que busca nela ideais do que não conseguiu ser: passiva, feminina, carinhosa e delicada. E a Carminha, no fundo, é tudo isso. Mas ela precisa do amor, tanto, que quando ele aparece (através do Honorato de Gabriel Godoy), ela se entrega completamente”. Sobre as inseguranças vividas pela personagem com o corpo, a atriz observa: “É outro tempo, mas essa cobrança sobre as mulheres ainda é muito atual. Não vivi a opressão que a Carminha experimenta, mas entendo que lugar é esse”.

Catharina Caiado é a surpreendente Carminha em ‘Dona Beja’ (Foto: Divulgação)

Catharina Caiado é a surpreendente Carminha em ‘Dona Beja’ (Foto: Divulgação)
Catharina fala sobre a experiência de viver cenas de amor com erotismo em seu primeiro grande trabalho no audiovisual:
Não foi uma questão pra mim fazer minha primeira novela com cenas nua com um corpo que eu não tinha até então. Acho que tudo isso foi muito libertador – Catharina Caiado
E salienta que a maternidade representou uma virada concreta de percepção: “Foi um lugar de revolução. Não tem como você passar batida quando descobre a força do seu corpo. Pari sem anestesia, não poque quis, porque teve que ser assim… isso tudo me nutriu e me nutre diariamente”. Mas o olhar sobre o corpo não se dissocia da realidade mais ampla que atravessa as mulheres. Catharina não romantiza o processo e reconhece as tensões que seguem presentes. “É muito difícil para as mulheres não pertencerem. São séculos tentando agradar, ter o reconhecimento. Ninguém quer não ser amado”, analisa. Em meio a esse cenário, entender-se fora de um certo padrão ainda exige posicionamento constante: “É uma luta diária afirmar que eu quero seguir como uma mulher com curvas”.

A atriz Catharina Caiado e a filha Theodora (Foto: Arquivo pessoal)
Sem idealizações, a atriz equilibra consciência e afeto: “Não estou falando de um lugar de que eu sou absolutamente livre. Preciso trabalhar, preciso pertencer minimamente”. Ainda assim, sustenta o ponto que, para ela, se tornou central nesse processo: “Mas eu tenho muito amor pelo meu corpo”. E divide sua identificação com a personagem de ‘Dona Beja’:
O que talvez mais me aproxime da Carminha seja essa recusa a se vitimizar diante da vida – Catharina Caiado
Na novela, a personagem cresce sob o peso de um olhar materno que oprime, molda e tenta conter, mas que, paradoxalmente, também ajuda a definir quem ela é. “Sinto que o olhar da mãe é muito decisivo na nossa formação de identidade”, analisa. Ainda assim, Carminha não se resume a dor: “Talvez o fato dela ter muita vontade de viver faça com que se desidentifique dessa violência que vive”. É nesse movimento que a personagem encontra sua virada, na descoberta de si. “A grande revolução da novela é essa mulher que vive à altura do próprio desejo e do próprio corpo”, define.

Grazi Massafera e Catharina Caiado nos bastidores de ‘Dona Beja’ (Foto: Reprodução/Instagram)
Voz autoral
Depois de um encontro tão intenso com Carminha, Catharina já mira os próximos passos, e começa por um projeto profundamente pessoal. A atriz prepara o longa ‘Vórtice’, que escreveu a partir dos próprios diários do puerpério, e que mergulha em uma perspectiva pouco explorada da maternidade. “Veio a vontade de ver a maternidade na tela para além da sobrecarga e da exaustão. O desejo está ali”, afirma. “Escrevi com a Bárbara Duvivier, que também dirige ao lado da Duda Medeiros, e vou protagonizar com a Manuela Llerena“.

“Eu tenho muito amor pelo meu corpo” (Foto: Reprodução/Instagram)
A história acompanha duas mães, que ao se encontrarem por acaso, iniciam uma jornada que atravessa afeto, descoberta e liberdade: “É um filme também erótico, mas muito mais em um lugar de resgate do feminino”. Além do projeto, Catharina também negocia novos trabalhos no cinema e celebra o momento de chegada ao audiovisual. “Estou chegando e quero viver histórias”, diz, sem esconder o desejo de continuidade. E, depois de uma estreia tão marcante, deixa claro o tipo de trabalho que espera encontrar pelo caminho: “Seria incrível encontrar outras personagens femininas tão potentes e complexas quanto Carminha”.

Sobre projeto autoral para o cinema: “Veio a vontade de ver a maternidade na tela para além da sobrecarga e da exaustão. O desejo está ali” (Foto: Reprodução/Instagram)
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