Carolina Kasting volta ao ar na Band na reprise de “Valor da Vida”, novela que será exibida às 7 da manhã


A Band surpreende ao exibir a novela portuguesa ‘Valor da Vida’ no inusitado horário das 7 da manhã — tradicionalmente reservado ao jornalismo local nas principais redes de TV. A iniciativa marca nova tentativa de ocupar espaços não convencionais na grade, oferecendo ao público alternativa dramatúrgica logo nas primeiras horas do dia. A trama, protagonizada por Carolina Kasting, revisita temas densos e camadas morais complexas de heroísmo e vilania

*por Vítor Antunes

Mais uma vez, a Band surpreende com sua abordagem ousada na teledramaturgia. A partir desta segunda-feira, dia 30, a emissora passa a exibir a novela portuguesa “Valor da Vida”, no inusitado horário das 7 da manhã — momento tradicionalmente reservado ao jornalismo local nas principais redes de TV. A iniciativa marca uma nova tentativa de ocupar espaços não convencionais na grade, oferecendo ao público uma alternativa dramatúrgica logo nas primeiras horas do dia.

Valor da Vida” é uma produção portuguesa de Maria João Costa, marcada pela presença expressiva de atores brasileiros no elenco, como Thiago Rodrigues, Marcello Antony e Carolina Kasting. A atriz, que viveu na trama sua primeira protagonista fora do Brasil, conversou com o site celebrando o retorno da novela. “Tem uma trama fantástica que prende o telespectador. Camilla Vasconcelos, minha personagem, tem trajetória de heroína, fazendo o público se apaixonar por ela desde o início. Embora possua muitas camadas e no decorrer da novela tome decisões que a colocam na posição de vilã, o público já está com ela. Camilla é uma personagem tão profunda que, ao dar vida a ela, às vezes me parecia estar fazendo duas personagens: heroína e vilã na mesma pessoa. Foi uma experiência profissional incrível fazer uma protagonista em Portugal, país em que a população cresceu assistindo nossas telenovelas e as personagens que fiz na Globo. Pessoalmente também foi uma experiência maravilhosa. Morei um ano em Portugal com meu companheiro, Mauricio Grecco, e meus filhos. Tom ainda era bebê. Conhecer outra cultura e estreitar laços com Portugal foi muito bom para todos nós”.

Carolina Kasting volta ao ar na Band na reprise “Valor da Vida”, novela portuguesa que inaugura faixa de reexibições da emissora (Foto: Acervo Pessoal)

Desde sua participação em “Salve-se Quem Puder’ (2020), da Globo, Carolina não participa de uma novela completa. Hoje, sua atenção está voltada principalmente para as artes plásticas e para o aprofundamento acadêmico em teatro. “Quanto aos trabalhos atuais, venho de uma sequência de exposições coletivas e individuais, como a individual Ser Corpo Muitos Verbos, que realizei no Centro Cultural dos Correios, no Rio de Janeiro, em que apresentei performances na abertura para ativação de obras que ficaram expostas ao público. Estou fazendo graduação em teatro com a intenção de, no mestrado, falar sobre a articulação entre as artes cênicas e a arte performance”.

DESTRINCHANDO O VALOR DA VIDA

Camilla, protagonista de Valor da Vida, não é uma personagem de contornos simples. Como explica Carolina Kasting, trata-se de uma figura em constante movimento — moral, emocional, simbólico. “Ela transita entre o protagonismo e a vilania. Inicia a novela como heroína, mas, de repente, as coisas começam a dar errado e ela entra num caminho de submundo, de tráfico de órgãos, que é a proposta da autora, Maria João Costa”.

“Os estúdios de Portugal, quando comparados aos nossos, são como a Hollywood para nós. Eles não têm dinheiro, ainda que a proposta financeira a mim fosse muito boa. A ponto de eu e meu marido conversarmos e optarmos por levar a família toda para Portugal – Carolina Kasting

Segundo ela, a principal diferença entre as produções brasileira e portuguesa está na intensidade do ritmo de trabalho: “A produção de capítulos era intensa, chegava a ser com 42 cenas por dia”,

Carolina Kasting em “Valor da Vida”, novela que está de volta na Band (Foto: Divulgação)

Mesmo sem estabelecer distinções culturais profundas entre o fazer teledramatúrgico nos dois países, Kasting guarda a experiência com respeito e afeto. E aproveita a conversa para refletir sobre os caminhos que escolheu — e, sobretudo, os que decidiu não seguir. “Os personagens nos escolhem e não o contrário. É um movimento de vida, uma trajetória, um trabalho desencadeia outro. Há alguns ‘nãos’ que fazem muito sentido e fazem nossa carreira mais que os ‘sins’.”

Entre os “nãos” que marcaram sua trajetória, está a recusa a papéis no cinema, em um momento em que sua carreira na televisão ganhava força com Terra Nostra. “Eu disse muito ‘não’ ao cinema na época de Terra Nostra quando fui convidada. Eu avaliava muito em relação à qualidade das personagens e elas, infelizmente, ainda eram muito rasas, e a principal cena delas era de nudez e sexo. Não era uma personagem que se pudesse construir para interpretar aquilo, não me interessava. Acho que fui radical demais. Olhando para trás, eu podia ter feito algumas concessões para entrar no nicho do cinema. Porém, fiz uma trajetória consistente especialmente na Globo, o que é uma coisa rara — e isso foi determinante”.

Carolina Kasting: “Eu disse muito ‘não’ ao cinema” (Foto: Arquivo/Site HT)

Num tempo em que tudo parece girar depressa demais — cenas, temporadas, tendências — “Valor da Vida” reaparece às 7 da manhã, trazendo dramaturgia em vez da dureza das notícias. E é com essa mesma delicadeza firme que Carolina Kasting sustenta sua travessia: sem alarde, mas com convicção. Camilla, sua personagem, percorre luzes e sombras, vilania e redenção — e não é difícil enxergar, entre uma fala e outra, os vestígios de quem a interpreta. Há atrizes que seguem o fluxo; outras, como Carolina, desenham o próprio curso, mesmo que isso exija renunciar atalhos ou atravessar silenciosamente os bastidores. Seu trabalho, agora revisto, tem o gosto maduro de uma escolha que fermentou no tempo. E quando ela reaparece, não é para repetir o que já foi feito, mas para lembrar que o valor da vida, afinal, também mora nas pausas, nos desvios e nos silêncios.