*por Vitor Antunes
O espiritismo segue sendo protagonista na cena pop e do audiovisual brasileiro. Prova disso é o longa “Sexo e Destino”, dirigido por Márcio Trigo, que tem Carol Macedo como uma de suas protagonistas. O filme traz, entre outros assuntos, além da questão religiosa, um tema espinhoso e ainda pouco discutido abertamente: a violência sexual dentro do lar. “É uma personagem extremamente intensa, que trata de temas muito difíceis, como violência sexual, traição, conflitos familiares e toda a confusão emocional que ela carrega. Ela atravessa uma dor muito grande durante todo o filme, mas consegue chegar ao perdão no final. Isso é muito difícil para qualquer ser humano. Será que conseguiríamos, em um momento crítico da nossa vida, perdoar algo tão intenso? Acho que o maior desafio foi trazer toda a verdade da personagem sem exageros, respeitando a dor dela e mostrando a força que nasceu de todas as dificuldades e da violência que enfrentou”, comenta.
A personagem sofre abuso do padrasto. Quantas meninas e quantas mulheres passam ou já passaram por isso, muitas vezes dentro da própria casa e praticado por alguém tão próximo quanto um pai ou um padrasto? Esse é um assunto que sempre merece debate. Ainda é pouco discutido de forma realmente eficaz. Precisa ser mostrado, mas com muita honestidade, responsabilidade e cuidado. Acho isso fundamental porque serve de alerta. Muitas pessoas passam por esse tipo de violência e nem percebem. Acham que é uma brincadeira, que é coisa da própria cabeça ou têm medo de contar para alguém. Espero que o filme funcione como uma forma de aprendizado e de alerta para todas as mulheres que passam, já passaram ou conhecem alguém que vive essa situação – Carol Macedo

Carol Macedo em “Sexo e Destino” (Foto: Renan Cardoso)
A personagem não é a primeira, no entanto, a levar Carol Macedo a se debruçar sobre temas dessa natureza. Em sua estreia em novelas, em “Passione” (2010), a atriz interpretava uma jovem explorada sexualmente pela própria avó — um assunto delicado demais para uma novela das nove, que exigiu que ela fosse emancipada para poder atuar. “Era aquela questão da avó que obrigava a neta a se prostituir. Imagina, em 2010, esse assunto numa novela das nove era muito forte, e eu era muito jovem. Na época, tive que ser emancipada para poder fazer essa personagem: eu tinha 15 para 16 anos. Tanto que não era falado explicitamente — dava a entender que a avó já tinha feito isso com outra neta. Na época, isso ainda não era tratado de forma tão explícita como é hoje, mas já estava começando esse movimento”
Sobre a experiência ao lado da atriz Daisy Lucidi, que interpretava a avó em “Passione”, Carol guarda boas lembranças, mesmo diante da dureza das cenas que dividiram em tela: “Ela era uma fofura de pessoa, não tinha nada a ver com a personagem. Era uma mulher maravilhosa, vaidosa, carinhosa, uma senhora super educada. Lembro que, quando eu tinha que gravar cenas em que brigava com ela, ficava mal depois. Até hoje me lembro de uma cena em que eu tinha que cuspir no rosto dela, e não conseguia. A gente repetia várias vezes, e ela dizia: ‘Pode cuspir, minha filha.’ Mas eu não conseguia — foi horrível para mim, porque ela era uma fofura demais. Foi como ter a avó que eu nunca tive. Foi maravilhoso gravar com ela”.

Carol Macedo acredita que ainda é necessário discutir violência contra a mulher (Foto: Renan Cardoso)
Para a atriz, o olhar do audiovisual para obras espíritas como “Sexo e Destino” é importante para revelar a pluralidade da fé ao grande público — e para aproximar quem ainda desconhece esse universo. “A arte, seja na novela ou no cinema, serve para mostrar às pessoas realidades que muitas vezes elas não conhecem. Para quem é leigo nesse assunto da espiritualidade, é interessante apresentar outras religiões, mostrar como elas funcionam e o respeito que existe dentro delas. ‘A Viagem’ é a minha novela favorita da vida. Tive contato com o kardecismo quando era mais nova, apesar de ter uma base católica na minha família. Hoje me considero espiritualista e transito por diferentes religiões. O kardecismo foi uma das que mais vivenciei na juventude. Acho muito bonito poder mostrar ao grande público um pouco desse outro lado”. A reflexão sobre as relações humanas e o peso do propósito espiritual nas escolhas de vida é, segundo Carol, um dos pontos mais potentes de “Sexo e Destino”.
Ela diz: “Acho muito interessante essa reflexão sobre as relações humanas. Muitas coisas que acontecem na nossa vida têm um propósito muito maior, e o filme mostra exatamente isso. Às vezes vivemos situações muito trágicas e, dentro da perspectiva espiritual, elas têm uma explicação. A própria trajetória da minha personagem é um grande exemplo disso. Tudo o que ela vive tem um porquê. Acredito que isso vai gerar muita identificação com o público. Hoje as relações estão muito rápidas e confusas, então acho importante falar sobre a responsabilidade emocional que temos com o outro e, principalmente, sobre tudo o que envolve esse mundo espiritual”
TROPICALÍSSIMA
Além de “Sexo e Destino“, Carol Macedo poderá ser vista em breve em mais um longa-metragem: “Tropicana”, dirigido por Joana Nin, que também assina o roteiro da obra ao lado de Claudia Lage. “Acabei de terminar um filme que se chama Tropicana. A minha personagem é a Lôdice, protagonista da história. Ela é a ‘morena Tropicana’, a Kelly. A trama se passa nos anos 1990 e conta a história de uma cantora da noite que decide tentar a vida nos Estados Unidos com a filha, durante o período da crise provocada pelo confisco da poupança no governo Collor. Chegando lá, ela percebe que as coisas não são tão fáceis quanto imaginava e acaba virando passista de uma churrascaria brasileira, algo muito comum naquela época. Tive que aprender diversos ritmos: dancei gafieira, samba de roda, o chamado samba de exportação e lambada. Gravamos grande parte do filme em Curitiba, além de cenas em Salvador, Florianópolis, Bahamas e Jamaica”.
Esta não é a primeira personagem da atriz a permear o universo da música. Outra foi a funkeira Solange, a Sol do Recanto, de “Fina Estampa” (2011): “A Solange veio com essa coisa da periguete, mas o universo dela era o funk. Era o sonho dela ser cantora de funk, famosa. Era uma história ligada a esse universo do funk, que não era tão explorado nas novelas. Este é um retorno a esse universo mais popular, especialmente depois de eu ter feito a Sol, de Fina Estampa, de 2011. É mais uma vez uma personagem ligada à música, uma artista popular, algo que sempre esteve presente na minha trajetória. A personagem também tem essa relação com a dança, assim como aconteceu em outros trabalhos”.

Carol Macedo revelou-se em Passione, de 2010 (Foto: Renan Cardoso)
Depois de viver uma personagem de destaque em uma das últimas temporadas de “Malhação”, Carol Macedo acredita ser importante que atrações voltadas ao público jovem voltem à grade da TV aberta. “Sinto falta de programas voltados para o público jovem. Falando como Carol e também como espectadora, acho importante porque é uma forma de debater os assuntos do dia a dia a partir do olhar dos jovens, que é muito diferente do olhar dos adultos. Gosto de acompanhar histórias de adolescentes e sinto que existe uma carência desse tipo de produção. Acho que Malhação não deveria ter saído do ar. De maneira geral, isso também é importante para nós, atores, porque cria oportunidades de aprendizado e revela novos talentos”.
LEO
Recentemente, Carol Macedo deu uma pausa na carreira para se dedicar à maternidade. Para a atriz, o retorno aos sets marca também a estreia em uma nova função, que hoje divide espaço com a profissão de atriz. “Estou voltando à vida normal, à rotina de mãe, porque agora a atriz também tem outra profissão, que é ser mãe. Sempre tive o sonho de ser mãe, mas sempre imaginei que isso viria na hora certa — e veio assim. Acho que eu estava preparada para viver o que vivo hoje. Quando o Leo nasceu, decidi ficar um ano e meio totalmente dedicada a ele. Não trabalhei nesse período, fiquei focada 24 horas sendo mãe. Foi maravilhoso, porque eu queria estar presente em tudo: nas trocas de fralda, nos banhos. Tenho uma pessoa que me ajuda, mas eu não deixava ela fazer nada — eu fazia tudo, e ela ficava só por perto. Até hoje, mesmo voltando ao trabalho, tento me dedicar ao máximo a esse meu lado mãe. É difícil, mas incrível. A cada fase que ele entra, brinco que é como uma fase de videogame: fica mais difícil, mas a gente também vai aprendendo a lidar melhor com a situação”.

Carol deu uma pausa na carreira para ser mãe (Foto: Renan Cardoso)
Sobre o desafio de ser mãe de menino, Carol enfrenta questões peculiares, especialmente num momento em que se debate uma educação antimachista desde a primeira infância. “Fomos aprendendo aos poucos, desde os cuidados com o corpo dele quando bebê até lidar com a energia diferente que os meninos têm — as brincadeiras de luta, de escalar. Aprendi vendo vídeos de psicólogas e conversando com a pediatra dele. Criar um menino feminista é algo que já incluo na educação dele desde bebê. Ele tem 2 anos e 10 meses e já entende quando converso com ele: ‘Filho, não pode bater em menina, não pode bater em mulher, homem não bate em mulher’. São coisas que vou colocando aos poucos na educação dele, e peço para o pai dele fazer o mesmo — que um homem também dê o exemplo nas pequenas coisas dentro de casa e nas conversas que tem com o filho. Acho que isso é o principal. Fui criada por um pai que, apesar de ser bem mais velho — vim do segundo casamento dele —, sempre foi muito cuidadoso comigo, com minha irmã e com minha mãe. Um cara quase feminista sem saber. Mesmo vindo de uma cultura mais antiga, com aquele machismo mais velado, ele sempre teve muito cuidado com as mulheres da família — comigo, com minha irmã, minha mãe, as irmãs dele. É algo que vivi dentro de casa e que quero muito passar para o meu filho”.
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