Carol Duarte atua em “Enfim Sós”, comédia da Netflix sobre ansiedade e trabalho precário da geração millennial


Carol Duarte usa a série Enfim Sós para refletir sobre um dos principais dilemas da geração millennial: jovens na casa dos 30 anos que, diante da ansiedade, da instabilidade profissional e da perda de poder de compra, acabam retornando à casa dos pais. A atriz destaca que sua geração enfrenta um cenário mais precário do que o vivido por seus pais, com empregos marcados pela uberização e menos garantias trabalhistas. Segundo ela, mesmo a formação universitária já não assegura a ascensão social que representava para gerações anteriores. Carol relaciona esse contexto ao aumento dos casos de ansiedade e depressão, agravados pela pressão de trabalhar cada vez mais para manter o básico. A artista também critica a lógica do “cada um por si”, impulsionada por algoritmos e redes sociais, defendendo a importância do coletivo em uma sociedade cada vez mais fragmentada

*por Vítor Antunes

Uma das questões da geração millennial é o que costuma ser chamado de a dor desta geração: a ansiedade, o trabalho exaustivo e a diminuição do poder de compra. Essa questão, inclusive, é uma das que norteia a série “Enfim Sós”, da Netflix, que tem, além de Andrea Beltrão e Fabio Assunção, Carol Duarte no elenco. “É uma comédia dramática que fala dos filhos lá com seus 30 anos que voltam para a casa dos pais, porque as coisas começam a dar meio errado. Eles voltam e atrapalham um pouco a vida dos pais. É uma comédia dramática, familiar, ao mesmo tempo amorosa e engraçada, bem reconhecível.” Inclusive, quando Carol nos concedeu esta entrevista, estava no set da série.

Não é incomum que nas redes sociais se aponte que ciom 30 e poucos anos os pais já haviamcomprado carros e apartamentos enquanto os jovens adultos desta geração, mal conseguem pagar o aluguel. “O mundo foi mudando muito. Nossos pais, que construíram a vida na década de 80, 90, tinham um Brasil muito diferente. O sistema financeiro começou a ficar mais complexo e tudo me parece mais difícil. Fico às vezes chocada com os dados: nunca tivemos tantos bilionários no mundo. As coisas estão ficando cada vez mais discrepantes e precárias. Temos cada vez menos poder de compra e essa coisa toda da uberização deixa todo mundo com menos proteção, menos suporte. Agora é cada um por si — você é o empresário de si mesmo, o que vejo como uma grande furada. Muita gente está em depressão, com ansiedade porque ninguém dá conta de pagar as contas trabalhando 16 horas sem nenhuma garantia, sem nada. Os níveis de depressão estão aumentando no mundo. E falando da minha geração, dos 30 e poucos, muita gente fez faculdade — pelo menos a classe média baixa da qual venho fez faculdade —, mas isso também não está garantindo muita coisa, o que antigamente garantia.”

“Enfim Sós”, é uma comédia dramática da Netflix com Carol Duarte, Fábio Assunção e Andrea Beltrão (Foto: Rafael Salvador)

Recentemente, Carol voltou ao audiovisual em “Os Outros“, da Globoplay, e deseja retornar, em breve, às novelas. “Já faz um tempo que fiz novela — acho que elas mudaram um pouco. Amei fazer novela, acho que é um exercício de ator super intenso. Você fica nove meses no ar, coloca quase um longa por dia. É uma dramaturgia aberta, isso muda muito. Aprendi demais, foi um exercício muito intenso. Aprendi muita coisa na novela, porque nunca tinha entrado no sete. Era do teatro de São Paulo, fazia teatro, e quando vi, estava no sete — foi uma experiência muito bonita na minha vida. Depois de 2016, principalmente, a pandemia mudou muito. Foram dez anos em que um monte de coisa mudou. Para mim, como atriz, acho que a minha excelência, o que desejo, é sempre estar em cena, fazendo. O ator precisa estar em exercício. Eu gosto, adoraria fazer uma novela. ‘Os Outros’ já foi um pouco uma retomada, uma reaproximação com a TV, que é uma coisa que eu gosto.”

FORÇA DE MULHER

No caso de Carol Duarte, ainda que tenha acumulado tantos e tão variados trabalhos antes e depois de Ivan/Ivana em “A Força do Querer” — e lá se vão dez anos desse marco —, ela agora volta à TV em “Os Outros“, série que trata, entre outras coisas, da intolerância em absoluto. “A série aborda também a dificuldade de lidar com o outro, com aquele com quem preciso dividir espaço. Esse é um tema da humanidade. As guerras estão aí, as disputas estão aí, até hoje.”

A atriz traça um paralelo com o atual momento político e de grande rispidez que vivemos, especialmente às vésperas de novas eleições. “A democracia tem disso. A gente vai ter que conviver no mesmo país com opiniões extremamente divergentes, uma delas que elimina parcelas da população. Fico muito impressionada ao pensar que às vezes a discussão está muito primária, muito anterior — ter que garantir a sobrevivência. Ultimamente ando vendo os dados das mulheres sendo agredidas e a nossa conversa precisa ser muito pedagógica, muito anterior. Porque se ainda temos que discutir ‘me respeite, me deixe’… Claro que muita coisa mudou desde os anos 60, 70, com todos os movimentos e ondas feministas. Mas quanto ainda estamos com problemas — avançamos, mas vem uma onda conservadora, vem uma onda que não deixa avançar, que desvaloriza…. Não é simples”.

Hoje parecemos estar vivendo uma ignorância orgulhosa de sê-la – Carol Duarte

Carol Duarte deu vida a Ivan/Ivana em “A Força do Querer”, onde a transsexualidade foi um dos temas (Foto: Divulgação/Globo)

TUDO O QUE SE GRITA

Em meados do mês passado, Carol pôde ser vista na Virada Cultural de São Paulo com “A Visita”. “A montagem estreou no fim de 2023, já fizemos temporada em São Paulo, já fizemos aqui na Vinha — foi uma temporada super legal —, e agora estamos fazendo apresentações pontuais. Fizemos no interior de São Paulo e agora na Virada.”

Numa época em que o Instagram é uma plataforma em que todos se expõem, Carol opta pelo caminho contrário: discrição, fazendo dele uma vitrine com uso dosado e inteligente. “Decidi no meu Instagram fazer uma coisa radical, que é um portfólio para mim. Se você quiser ver meus trabalhos, entra lá. Não fiquei investindo muito nisso por uma questão de personalidade mesmo. Não consigo produzir muito conteúdo pessoal no meu Instagram, mas consigo dividir meus trabalhos, dividir uma coisa ou outra de pensamento, coisas que acho importante divulgar, coisas que acho importante falar com o público — às vezes umas coisinhas com pessoas da minha vida. Mas decidi: se você entrar lá, vai ver os meus trabalhos, ver fotos legais. Agora não somos mais só nós os que estamos lidando com essa complexidade. Todo mundo tem que ter uma rede social, tem que falar, tem que aparecer. Acabou abarcando a todos. Médicos têm que ter Instagram. Todo mundo está escravizado. E a gente também está na mão de algoritmos — não de um algoritmo democrático, mas de um dono de uma empresa que tem seus interesses financeiros. Não é que a gente está na mão de alguém que quer a evolução do mundo. Muito pelo contrário.”

Carol Duarte vê tempos de intolerância (Foto: Rafael Salvador)

O que se deseja de uma atriz é que ela seja diferente de suas personagens. Mas Carol, ainda que seja efetivamente distante de suas mulheres, tem um ponto em comum com elas: a inconformidade e a luta por ser o que se quer ser. “Acho que a gente só se comove, só se sensibiliza com aquilo que é próximo a nós. Todas as personagens que fiz — a Eunice, de ‘Vida Invisível’, as das novelas, agora a Patrícia em ‘Os Outros‘ — têm um universo muito diferente do meu. E eu gosto disso. Meu início no teatro, meu fascínio, sempre esteve em uma outra forma de vida, em outra relação com o mundo. De alguma maneira, fico querendo experimentar essas outras formas. Gosto de entrar no que é diferente de mim. Falta fazer tudo — tenho sempre a sensação, quando começo um trabalho, de que não sei fazer. Isso é cansativo, desesperador, mas me coloca instigada e é o que me faz mergulhar num abismo que até então eu não conhecia. Ando sempre me perguntando: para onde essas personagens podem me levar? O que desejo daquele trabalho? Porque é sempre um mergulho, uma viagem bem louca.”

Uma pessoa que tem como profissão emocionar não cobra pedágio de si mesma por se emocionar. E Carol fala o que a emociona antes de ela emocionar o outro. “O que me emociona — vou falar uma coisa bem concreta. Se estou num lugar com muita gente, num estádio de futebol, com muita gente olhando para uma coisa só, gritando uma coisa, eu me emociono. É toda coisa que se grita — dependendo do conteúdo, obviamente. Quando me sinto parte de um coletivo.”

Carol Duarte se reaproxima da TV com “Os Outros” (Foto: Rafael Salvador)

Como artista, Carol Duarte parece encontrar sentido justamente naquilo que hoje se torna cada vez mais raro: a experiência do coletivo. Em meio a um mundo marcado pelo ruído dos algoritmos, pela fragmentação das relações e pelas disputas que atravessam a vida contemporânea, ela segue movida pela curiosidade, pela inquietação e pelo desejo de mergulhar no desconhecido. E talvez seja por isso que se emocione quando milhares de vozes se unem em um mesmo grito: porque, no fundo, sua trajetória também é uma busca constante por aquilo que nos conecta — essa centelha humana capaz de transformar indivíduos dispersos em uma única respiração compartilhada.