Carlos Vereza volta ao teatro e fala sobre cancelamento de artistas que opinam sobre política: “Um exílio midiático”


“Quem dera fosse um debate, mas é algo mais canibalístico. Ninguém levanta questões baseadas numa premissa filosófica ou ideológica. É mais um ressentimento de ambos os lados, em que um gesto raivoso é respondido por outro gesto raivoso”, diz o ator que lamenta o fim do debate ideológico profundo e fala da superficialidade das redes sociais e da atual geração. Com mais de 50 anos de carreira, defende que o talento deve prevalecer sobre alinhamentos políticos. Para ele, arte é investigação e justiça histórica. Carlos Vereza retorna aos palcos na peça ‘Lotte Zweig, a Mulher Silenciada’, na qual interpreta Stefan Zweig e propõe que o escritor e sua esposa foram assassinados, e não suicidas, como se afirmou oficialmente. O ator assina texto, direção, trilha e luz do espetáculo, baseado no livro ‘Stefan Zweig Deve Morrer’.

*por Vítor Antunes

Incontestavelmente, Carlos Vereza é um dos nomes mais importantes da teledramaturgia nacional – e não só dela, mas também do teatro e do cinema. É o nome por trás de Miro de “Selva de Pedra” e até mesmo de “Policarpo Quaresma“, do filme homônimo. Agora, Vereza, volta aos palcos vivendo Stefan Zweig (1881-1942), icônico romancista e biógrafo austriaco, na peça “Lotte Zweig, a mulher silenciada“, na qual divide a cena com Hana Kolodny. Vereza atua, escreve e dirige a montagem, bem como fez o desenho de luz e a trilha sonora e traz uma versão nova sobre a morte do autor e de sua esposa, tidos como oriundas de um suicídio.

Carlos Vereza nos conta que a premissa surgiu por conta de um livro de Deonísio da Silva, “Stefan Zweig Deve Morrer”. “Vi que poderia estudar sobre Stefan Zweig, um escritor renomado na década de 1940, especialmente pelas biografias. Descobri que ele veio para o Brasil fugindo do nazismo e foi morar em Petrópolis, na Região Serrana do Rio. Na época, o que aconteceu com ele e a mulher, Lotte, foi considerado um suicídio duplo. No entanto, ele deixou uma carta que serve como um contra-álibi da versão oficial, na qual afirmava que se mataria”, relata, acrescentando: “Porém, encontraram os dois corpos, o dele e o da Lotte, o que despertou suspeitas em alguns setores da intelectualidade. Surgiu, então, a hipótese de que não se tratava de um suicídio duplo, mas de um assassinato, pois Stefan incomodava muito o Terceiro Reich com suas posições, livros e conferências. Ele incomodava muito o nazismo. A suspeita que foi se consolidando é de que ele e Lotte foram assassinados em Petrópolis por um comando nazista, com a complacência da ditadura que vigorava no Brasil naquela época, o Estado Novo. Escrevi essa montagem “Lotte Zweig, a Mulher Silenciada”, em homenagem a ela”.

Apesar de estar há algum tempo afastado das telenovelas, ele rejeita a ideia de ruptura ou de qualquer tipo de renúncia definitiva. Enxerga o ofício de ator como um organismo em trânsito constante — e, por isso, permeável a todos os formatos. Sua última foi “Os Dias Eram Assim” (2017). “Sou um ator. Meu mercado de trabalho abrange o teatro, o cinema, as novelas, os períodos de férias. Mas isso não depende apenas de mim. Existe uma dialética nesse processo: por vezes, o mercado não está disposto a aceitar certos profissionais por discordância ideológica ou de ponto de vista. Isso é um absurdo — mas ocorre, infelizmente. Não se trata de algo pontual. Acontece com muitos. Se o macartismo tivesse surgido aqui, veríamos algo semelhante”.

Carlos Vereza analisa o silenciamento da opiniões de artistas (foto: Divulgação)

As opiniões de Vereza sobre política sempre levantaram uma série de reflexões – especialmente num momento em que a agressividade ordena o debate sobre filosofia e política. O cancelamento é cada vez mais frequente. “Esse é um problema grave. O cancelamento não pressupõe discussão filosófica, ideológica ou de posições contrárias. O cancelamento é simples: não se fala mais na pessoa, não se lê mais, não se discute mais a obra — simplesmente cancela-se. A pessoa fica em um exílio midiático, no sentido mais profundo do termo. Não se fala mais nela. Está cancelada e pronto”.

Para ele, essa cegueira travestida de opinião, impacta na carreira de algumas pessoas, já que alguns atores também viram suas opiniões se refletirem na maneira como foram lidos pelo público, pelas redes sociais e pelas emissoras. Para ele, o fato de ter uma opinião assertiva, contundente, pode ter influenciado na forma como você é percebido. “Sem dúvida. O cancelamento ideológico existe. É um fato. O talento passa a ser relegado a um plano secundário quando você não compactua com a ideologia de quem está no poder — seja esse poder político, seja um poder artístico de manipular uma escalação ou uma produção de elenco. Esse é um poder fantástico. A própria palavra “cancelamento” é nova. Ela não existia há 10 ou 15 anos. É muito contemporânea, embora o ato de cancelar já existisse, de certa maneira”.

Ele prossegue dizendo: “Quem dera fosse um debate, mas é algo mais canibalístico. Ninguém levanta questões baseadas numa premissa filosófica ou ideológica. É mais um ressentimento de ambos os lados, em que um gesto raivoso é respondido por outro gesto raivoso. A história fica de lado, em off. Não temos mais grandes filósofos ou debatedores como na época, por exemplo, de Carlos Lacerda (1914-1977) — com quem eu não concordava ideologicamente, mas reconheço que era um grande debatedor. Ele levantava questões ideológicas profundas. Também não há mais jornalistas como Otto Maria Carpeaux (1900-1978). Esses grandes debatedores, mesmo em posições contrárias, vinham com todo um contexto histórico, sociopolítico, ideológico. Tratavam a questão em sua dimensão mais ampla e profunda.

Hoje, não é mais um debate. Virou um xingamento recíproco de nível muito baixo, sobretudo amplificado por essa antropofagia das redes sociais. Vemos com alguma frequência a questão do cancelamento atingir artistas e políticos – Carlos Vereza

Carlos Vereza em “Lotte Zweig”, peça que contesta a história oficial (Foto: Divulgação)

GERAÇÃO

Com mais de 50 anos de carreira, Vereza estabelece um comparativo entre a sua geração e a atual, de grande transformação e muito influenciada pelas redes sociais. “Com todo o respeito à geração à qual pertenço: era uma geração que lia”, enfatiza. “Essa geração do TikTok parece ter aversão ao livro, à leitura. Como é possível realizar um trabalho com um mínimo de complexidade? Por exemplo, estou lendo agora Hannah Arendt (1906-1975) e sua filosofia. Como interpretar Hannah Arendt sem estudar Sêneca, os filósofos contemporâneos de Shakespeare, ou compreender quem foi Elizabeth I? Por que Shakespeare situa Hamlet na Dinamarca e não na Inglaterra? Obviamente, ele fugia da censura violenta de sua época. Ele sabia que, ao ambientar a história na Inglaterra, poderia ser censurado de forma severa — uma censura que não era apenas literária, mas poderia levar à prisão ou até à deportação”.

Outra questão muito discutida atualmente diz respeito à escalação de influencers para trabalhar como atores e em razão da quantidade de seguidores nas redes sociais, algo que vem ganhando força.

Um artista pode ter 20 milhões de seguidores, mas isso não significa que esse público o acompanhará em outras esferas de sua atuação. Esses seguidores acompanham pela rede social, mas não necessariamente irão ao teatro, assistirão a um filme, ou lerão uma obra desse artista. É um equívoco. Trata-se apenas de um número – Carlos Vereza

Para Vereza, os influenciadores são apenas um número (Foto: Divulgação)

PALCO

No segundo semestre, Carlos Vereza mergulha na montagem da peça e a ela deve dedicar seu tempo com exclusividade. Seu trabalho é também uma espécie de justiça histórica, uma tentativa de nomear o que, por décadas, foi silenciado. Não há complacência em seu olhar. Há a urgência de quem sabe que o tempo da omissão terminou. O ator defende a ideia de que o casal Zweig — Stefan e Lotte — não tirou a própria vida por desespero, mas sim por ter sido empurrado para a morte por forças muito mais densas, políticas, e cruéis do que sugere a versão oficial. “Acredito que Lotte merece ser revisitada — não apenas por quem ela foi, uma grande intelectual, mas também pelo contexto histórico ao qual esteve submetida, marcado por uma censura violenta e arbitrária. Ela foi vítima, junto com Stefan, de uma violência física. Estou convicto de que o casal foi assassinado na época da ditadura do Estado Novo, de Getúlio Vargas. Como explicar que um casal tão conhecido, sobretudo Stefan, tenha sido morto em Petrópolis? A hipótese do suicídio era mais confortável e conveniente. Alegar suicídio eximia o governo de qualquer responsabilidade. Era uma solução palatável: ‘o casal se suicidou, ponto final’. Mas não: eu acredito que foi assassinato”.

Sua fala ganha corpo, ganha tempo, como se devolvesse à memória o direito de inquietar o presente. A paixão pela investigação — estética, moral, política — move seu ofício. Para Vereza, a cena não é só encenação, mas território onde verdades abafadas podem, enfim, respirar.  “Agora, imagine a repercussão internacional da morte de um homem considerado, à época, um dos maiores biógrafos — além de escritor brilhante. Basta ler as biografias que ele escreveu, sobretudo de libaneses e norte-americanos: são obras-primas. De repente, ele desaparece, morre. A versão confortável para a época, agora sendo desconstruída, começou a ruir com o livro “Stefan Zweig Deve Morrer”, de Deonísio da Silva. Com minha peça “Lotte Zweig, a Mulher Silenciada”, essa questão voltou à tona. Levanta-se a hipótese de que talvez o casal não tenha cometido suicídio. É preciso considerar isso”.

Carlos Vereza defende a ideia de que o casal Zweig — Stefan e Lotte — não tirou a própria vida por desespero (Foto: Divulgação)

O artista não se furta a assumir a autoria integral do que propõe. “Em todos os meus trabalhos, quando dirijo, ou mesmo quando estou atuando e posso dirigir, valorizo muito a complementação da luz. Para mim, a luz é um personagem. Ela não é apenas um recurso para contar uma história. Dependendo de como é feita e manipulada, pode contribuir muito para a narrativa. Na montagem da peça, pensei também na luz — em alguns momentos, uso uma iluminação que remete a documentários, especialmente em cenas próximas à estante. É uma luz que lembra preto e branco. No restante do espetáculo, uso uma luz de ficção, colorida, bonita, para contrastar com a crueldade do relato da morte dela e do marido. É um contraste que permite ao espectador refletir”.

Carlos Vereza está desde 2017 fora das novelas (Foto: divulgação)

Na borda entre o político e o espiritual, o ator também reflete sobre perdas recentes que o tocaram de modo pessoal. Fala com reverência e dor sobre a morte de Divaldo Franco, figura central do espiritismo no Brasil e a quem ele credita grande parte de sua formação espiritual. “Para mim, Divaldo Franco foi o mais influente palestrante espírita de sua época — e também da nossa. Mesmo enfrentando problemas de saúde e as limitações da idade, ele seguiu sendo um orador brilhante. Não vejo outro como ele. Chico Xavier se destacou mais pelas psicografias e pelas revelações feitas através de seus mentores, como Emmanuel. Já Divaldo, como orador, sempre foi desenvolto. Sem dúvida, sua ausência é sentida. Pode ser que existam outros nomes surgindo, mas, pessoalmente, não conheço nenhum com a mesma presença”.

Ele encerra com a precisão seca de um aforismo, escolhendo para definir seu estado de espírito uma frase do escritor franco-argelino Albert Camus (1913-1960) — uma sentença que, para ele, contém o lamento justo de um tempo cada vez mais árido de sentido: “Os homens morrem e não são felizes”.

Em um tempo em que o ruído costuma abafar o pensamento, Carlos Vereza continua a falar com clareza, mesmo que sua voz soe dissonante — ou justamente por isso. Sua arte, atravessada por décadas de cena, não se acomoda: tensiona, provoca, investiga. Há em sua trajetória algo que escapa à cronologia e se inscreve numa ética do fazer — aquela que insiste em perguntar, mesmo quando a resposta é desconfortável; que ilumina, mesmo quando a sombra parece mais conveniente. Vereza atua como quem devassa arquivos, como quem levanta véus — não para impor verdades, mas para permitir que elas respirem, mesmo que dolorosas, mesmo que esquecidas.