Carla Marins volta à TV, anuncia novela vertical, encara menopausa e amadurecimento e diz: “Velhice é pra comemorar”


Após 12 anos longe das novelas da TV Globo, Carla Marins retorna à emissora aos 57 anos e fala abertamente sobre menopausa, amadurecimento e autoconsciência. Na entrevista, a atriz explica por que se afastou da Globo para viver a maternidade, detalha sua atenção à saúde física e mental nesta fase da vida, com terapia, meditação e escolhas conscientes, revisita dores antigas, como a morte do pai e do padrasto de formas violentas, acontecimentos que atravessaram sua trajetória e anuncia novos projetos, como uma novela vertical, enquanto afirma que envelhecer não é perda, mas conquista: “Velhice é sinal de que a gente chegou. Isso é pra comemorar. Não vejo como um fim. Vejo como um desenvolvimento. Quero viver essa fase com potência, com autenticidade. Estou fazendo esse dever de casa. Não é fácil, a gente sente a cobrança, percebe o olhar do outro. Só que nessa fase, o olhar dos outros importa cada vez menos”

*Por Brunna Condini

Depois de 12 anos longe das novelas da TV Globo, Carla Marins retorna à emissora onde construiu boa parte da sua história profissional não apenas como atriz, mas como mulher em processo de transformação. Aos 57 anos, com mais de quatro décadas de carreira, ela vive a Xênica de ‘Três Graças’, no horário nobre, e fala de reencontro com a Globo, o trabalho e, sobretudo, consigo mesma. “É a volta de uma mulher madura, experiente, mas com a alegria e o entusiasmo dos meus 17 anos, quando iniciei profissionalmente”.

A atriz faz questão de contextualizar esse afastamento da Globo. “Fui mãe aos 40 anos (de Leon, hoje com 17 anos), e quis parar um pouquinho. Vivenciar essa maternidade. Fui a mãe que eu quis ser, não a mãe que eu pude ser”, diz. Nesse intervalo, trabalhou menos, fez escolhas conscientes e se permitiu experimentar outros formatos, emissoras e plataformas (streaming, Record e SBT), sem romper com a própria essência. É nesse contexto que ela revela que está entre os nomes cotados para uma novela vertical ainda este ano, e faz questão de esclarecer: não se trata do projeto ligado ao casal sáfico ‘Loquinha’, de ‘Três Graças’, que ganhará sua própria narrativa vertical em 2026. Para Carla, o novo formato representa inteligência de leitura de mercado e respeito ao público. “É ir onde o público está”, resume, entusiasmada com a multiplicidade de linguagens e possibilidades que se abrem.

Ao longo da entrevista, ela também abriu espaço para falar de perdas profundas, como a morte do pai quando ainda era bebê, a perda do padrasto na juventude, de formas brutais; e de como esses ‘fantasmas’, por muito tempo silenciados, pediram escuta. “Não escamoteiem o que sentem. Encarem. Isso traz crescimento”, aconselha. E divide sua vivência intensa com a menopausa dentre as grandes transformações da maturidade:

É um desafio voltar ao trabalho vivenciando essa fase: os hormônios mexem com o corpo e com a cabeça, vêm pensamentos negativos sem motivo aparente, e isso exige atenção, cuidado e consciência o tempo inteiro – Carla Marins

Carla Marins volta à Globo aos 57 falando de recomeço, maturidade, menopausa e da coragem de encarar o tempo e revela: "Vou fazer uma novela vertical esse ano" (Foto: Rodrigo Lopes)

Carla Marins volta à Globo aos 57 falando de recomeço, maturidade, menopausa e da coragem de encarar o tempo e revela: “Vou fazer uma novela vertical esse ano” (Foto: Rodrigo Lopes)

Ainda sobre a menopausa, que chegou para a atriz aos 55 anos — “A minha veio tardia” — Carla compartilha: “Percebo mudanças na cognição e até na memória. Às vezes também vêm sentimentos e pensamentos negativos, que me tomam, coisa que não acontecia antes”. A atriz conta que demorou a entender que parte do que sentia não era fragilidade emocional, mas um atravessamento físico e hormonal. “Pode baixar uma ansiedade e muitos pensamentos negativos, que às vezes me assaltam”.

A percepção do que acontecia, se deu em um processo que uniu escuta clínica e autopercepção. “Achei, em um primeiro momento, que era só uma questão mental. Falei: ‘vou fazer terapia porque estou pirando”. Foi a endocrinologista quem alertou para os exames e para a queda hormonal. “Quando entrou a reposição, percebi uma melhora incrível”. Depois disso, Carla decidiu manter a terapia e um cuidado maior com a saúde mental:

Veio tudo junto: a menopausa e a crise da meia-idade. E eu achei ótimo, porque é um avaliar de vida. É um momento da faxina. E dói. Não tem como não doer. Estou olhando para essa década de uma forma especial. É uma crise positiva. É uma década de muita tensão, de muito cuidado, mas de muita presença –  Carla Marins

Carla Marins volta à TV como a Xênica de 'Três Graças' (Foto: Divulgação/Globo)

Carla Marins volta à TV como a Xênica de ‘Três Graças’ (Foto: Divulgação/Globo)

Para atravessar o momento, passou a construir uma rotina de atenção constante ao corpo e à mente. “Comecei a meditar pra ordenar a cabeça. Se acordo e não medito, entro num automático que não é a realidade”. E destaca que os hormônios criam um estado de turbilhão interno. “Não é só no corpo, é muito mental também.” A meditação, explica, virou ferramenta para ancorar a razão. “Trago a mente para a realidade. Me escuto. Porque senão a emoção compromete a minha visão de mundo”, divide.

O sono também entrou no centro das preocupações. “Três horas da manhã, como um reloginho, eu acordo. E aí vêm os pensamentos intrusivos (risos)”. E descreve o esforço diário para não ser capturada por eles. “Faço terapia, medito, me exercito e tento trazer a mente para o agora. Isso tem me feito bem. Não dá pra ficar no automático na vida, e nesta fase, menos ainda”. Nesse processo de busca por mais consciência, Carla tomou uma decisão importante: parou de beber há três anos.

"Veio tudo junto: a menopausa e a crise da meia-idade. E eu achei ótimo, porque é um avaliar de vida. É um momento da faxina" (Foto: Rodrigo Lopes)

“Veio tudo junto: a menopausa e a crise da meia-idade. E eu achei ótimo, porque é um avaliar de vida. É um momento da faxina” (Foto: Rodrigo Lopes)

Quanto mais consciente estiver, mais rédeas tenho da minha estrutura psíquica e física. Foi difícil, porque a bebida é socializável. Agora tiro de letra. Me sinto fortalecida – Carla Marins

Apesar dos desafios, a atriz não problematiza a menopausa ou o envelhecimento: “Velhice é sinal de que a gente chegou. Isso é pra comemorar”. E observa, que o que está em jogo não é perda, mas transformação. “Não vejo como um fim. Vejo como um desenvolvimento. Quero viver essa fase com potência, com autenticidade. Estou fazendo esse dever de casa”.

A escolha da consciência

Ao falar desse processo de amadurecimento, Carla também toca em feridas antigas. “Muito jovem entrei no mercado de trabalho, com muita exposição. E por proteção, acabei colocando o ego na frente, me protegendo de algumas questões”, reflete. Segundo ela, esse mecanismo foi uma forma de sobrevivência diante de perdas precoces e profundas. A primeira delas aconteceu ainda na infância. “Perdi meu pai aos sete meses de idade. Não o conheci”, conta. A ausência dessa figura masculina deixou marcas que só mais tarde ganharam nome e escuta. “Essa perda foi muito séria pra mim”. Anos depois, um novo trauma. “Perdi o meu padrasto quando eu tinha 24 anos. E ambas as mortes foram trágicas. Foram em assalto e em assassinato”. Carla fala das duas perdas reconhecendo o impacto que tiveram em sua formação emocional. “Ao longo da minha vida, volta e meia olhei pra isso em terapia.”

“Velhice é sinal de que a gente chegou. Isso é pra comemorar" (Foto: Divulgação/Globo)

“Velhice é sinal de que a gente chegou. Isso é pra comemorar” (Foto: Divulgação/Globo)

Hoje, com mais maturidade, ela se permite revisitar essas dores de outro lugar. “Agora, com a minha idade, com a minha experiência, consigo mexer ali de novo”, diz, deixando claro que o processo é de elaboração consciente. E amplia a reflexão para além da própria história. “Todo mundo passou por algum trauma na infância, alguma questão que precisou escamotear pra estar na vida, pra sobreviver. Quando essas coisas voltam, dê atenção a elas, porque elas continuarão ali”. É nesse ponto que ela faz um convite direto, especialmente às mulheres que chegam à maturidade atravessadas por revisões internas. “A crise é pra gente crescer, se aprofundar, melhorar.” E conclui, com a mesma lucidez que atravessa toda a entrevista: “Não se afastem disso. É sempre melhor olhar”.

 Redescoberta, amadurecimento e cocriação

O retorno de Carla à televisão também passa pela redescoberta do público através das reprises. A atriz conta que a volta da novela ‘História de Amor’ ao ar no ano passado, teve um impacto direto nesse novo momento da carreira. “Veio com uma força total”, relembra. A visibilidade gerada pela reprise abriu caminhos concretos: “Aí pintou uma entrevista no ‘Encontro’, com a Patrícia Poeta, e a partir desse programa surgiu o convite para a novela”. Paralelamente, Carla vive outro tipo de reencontro, desta vez com a própria imagem no início da sua trajetória. ‘Hipertensão’ (1986), novela que marcou sua estreia na teledramaturgia, entrou para o catálogo do Globoplay em dezembro passado. “É uma loucura me ver com 17 anos, emocionante”, confessa.

Carla Marins e Ângelo Paes Leme em 'História de Amor' (Foto: Divulgação/Globo)

Carla Marins e Ângelo Paes Leme em ‘História de Amor’ (Foto: Divulgação/Globo)

E volta a falar do seu momento e de envelhecimento. “Não é fácil, a gente sente a cobrança, percebe o olhar do outro. Só que nessa fase, o olhar dos outros importa cada vez menos”. Carla frisa, que há uma libertação silenciosa acontecendo. “A libido está aqui, o desejo está aqui, o prazer está aqui, mas ele não passa mais pelo olhar do outro. O prazer, hoje, está ancorado na própria existência. Está em estar viva, em existir nesse mundo”. Como atriz, ela reconhece a desigualdade que atravessa o envelhecimento feminino: “Os homens amadurecem, mas as mulheres perdem valor.” Ainda assim, faz questão de marcar o contraste entre a pressão externa e o que sente internamente. “Por dentro, estou vibrando. Me sinto muito bem amadurecendo”.

Carla Marins no início da carreira, em sua primeira novela, 'Hipertensão' (Foto: Divulgação/Globo)

Carla Marins no início da carreira, em sua primeira novela, ‘Hipertensão’ (Foto: Divulgação/Globo)

Essa travessia passa, também, pela ideia de cocriação, conceito que a atriz incorpora à própria vida. Ela fala do retorno à Globo, dos novos projetos e das transformações pessoais como fruto de escolhas conscientes:

Manifestei essa novela, manifestei esse trabalho. A gente tem que desejar com o coração. Se manter no caminho, se manter ali – Carla Marins

Ao olhar para frente, Carla não fala em planos rígidos, mas em abertura. Quer fazer cinema, teatro, televisão, novos formatos, novas linguagens. “É muito louco como as coisas vão acontecendo quando a gente deseja. Estou super feliz com as coisas que vão rolar. Além da novelinha vertical, tem cinema e vou fazer um espetáculo com a Nathalia Thimberg“.

"Manifestei essa novela, esse trabalho. Estou super feliz com as coisas novas que vão rolar" (Foto: Divulgação/Globo)

“Manifestei essa novela, esse trabalho. Estou super feliz com as coisas novas que vão rolar” (Foto: Divulgação/Globo)