Carla Marins celebra 30 anos de “História de Amor”, que volta à Globo e diz: ‘Minha personagem seria cancelada hoje’


A reapresentação de ‘História de Amor’ pela Globo trouxe à tona reflexões sobre Joyce, a marcante personagem de Carla Marins. Com suas atitudes explosivas e a relação conturbada com a mãe Helena (vivida por Regina Duarte), Joyce causou furor nos anos 90, mas, segundo a atriz, na era digital, provavelmente seria cancelada. A personagem enfrentou um relacionamento abusivo com Caio, algo então romantizado, mas que hoje seria amplamente criticado. Carla acredita que o texto de Manoel Carlos precisaria adaptar a intensidade de Joyce à sensibilidade contemporânea. Essa releitura destaca o quanto a teledramaturgia evolui junto com as mudanças sociais e culturais

*por Vítor Antunes

Com alguma surpresa, ‘História de Amor’ foi anunciada na Globo na última segunda-feira como a substituta de ‘Cabocla’, na sessão de Edições Especiais, exibida à tarde. ‘História de Amor‘ é, até agora, uma das novelas mais antigas a entrar na sessão, inaugurada durante a pandemia, e segue um fluxo importante: o sucesso de ‘Tieta’ no ‘Vale a Pena Ver de Novo‘, que pode ter motivado as reprises de novelas mais antigas. Uma das personagens mais marcantes da trama, além da primeira Helena de Manoel Carlos, vivida por Regina Duarte, e Joyce, interpretada por Carla Marins. Mais uma do rol das ‘filhas insuportáveis de Helena’. “Joyce foi um acontecimento mesmo. Na época, foi um estouro. Acho que as pessoas ficaram muito mobilizadas pela relação mãe e filha e por outras situações da novela também. Falo da relação mãe e filha porque isso era o mais forte na minha história. Tinha a relação afetiva dela com o Caio (Ângelo Paes Leme), mas essa coisa forte com a mãe. Lembro que muitas mães vinham falar comigo, dizendo: “Minha filha, não seja como a Joyce”. Mas acho que hoje, na era da internet, talvez a Joyce fosse cancelada. Eles iam querer matar essa personagem, eu não tenho a menor dúvida. Acho que o Manoel Carlos teria que diminuir um pouco a intensidade dela ou agir de alguma forma [mais cautelosa]”.

A atriz prossegue dizendo que outros personagens também poderiam passar pelo cancelamento. “Hoje percebo a relação abusiva que Joyce viveu com o Caio, algo naturalizado e pouco problematizado décadas atrás. Acho que o Caio também seria cancelado, e não torceriam para ela ficar com ele, mas sim com o personagem do Cláudio Lins, Bruno, um gentleman. Os relacionamentos abusivos e tóxicos nas tramas, tão nocivos e que vitimam tantas mulheres na vida real, eram naturalizados de certa maneira há décadas atrás, como se fosse apenas um romance. Joyce termina com o Caio, mesmo após toda a manipulação de que foi vítima.”

Carla Marins e Angelo Paes Leme (Foto: Arley Alves/TV Globo)

Carla conta dois bastidores curiosos da novela. Um deles está relacionado a um dos maiores segredos da trama: a maternidade de Helena, que não era mãe biológica de Joyce. Outro diz respeito à mudança de rota que a novela teve que seguir para se adequar ao horário das seis. Inicialmente, a história incluiria um relacionamento entre Joyce e Carlos (José Mayer), com mãe e filha envolvidas com o mesmo homem, algo que só aconteceria anos depois em ‘Laços de Família’. “Eu não sabia que a Joyce não era filha da Helena. Ninguém sabia disso. Só quem sabia era a Regina Duarte, o Ricardo Waddington e mais uma pessoa da equipe técnica. Quando tive a revelação de que eu não era filha dela, foi realmente um choque. No início da composição da novela, eu questionava o fato de a personagem da Regina ter cabelos lisos e os da Joyce serem enrolados, inclusive”.

Sobre a mudança na rota, Carla explica que, desde sua entrada no elenco, já havia uma mudança na relação entre Carlos, Helena e Joyce, que inicialmente formariam um triângulo amoroso. ‘O personagem mudou de rota. Quando começamos a gravar, essa mudança já tinha acontecido. Então, eu não senti muita diferença. A personagem era tão complexa, tinha tantas camadas, que aquilo foi só mais uma coisa que não fez falta, realmente. E acho que ficaria ainda mais cruel para Helena, embora tudo já tenha sido muito cruel para essa mãe.’

Carla Marins revela bastidores de “História de Amor” (Foto: Divulgação)

Atualmente, Carla tem se dedicado às atividades físicas e ao bem-estar, sem deixar de lado a profissão de atriz. “Gosto de novidade, de movimento, de encontros. Amo dar estímulos para meu cérebro: corrida, arte, meditação, tudo o que me tira do automático. Preciso me sentir viva. O corpo definido e a disposição vêm do treino bem completo, onde trabalho força, resistência, equilíbrio, ritmo, velocidade, flexibilidade, entre outras capacidades. Além do método “Treino com ciência”, criado pelo meu marido e mestre Hugo Baltazar”.

LAÇOS 

No momento em que vai ao ar, “História de Amor” marca os 30 anos da novela, os 92 de Manoel Carlos e um retorno – ainda discreto – de Regina Duarte à Globo. Datas e marcos que também têm significado especial para Carla Marins. “Esse retorno é uma homenagem ao Maneco. O texto dele me ajudava a ser uma adolescente de 17 anos, quando eu já tinha 27. O texto vinha completo, perfeito, e as cenas eram muito boas de fazer. Acho que a contribuição dele foi inestimável para a teledramaturgia brasileira. As personagens, as Helenas, tudo o que ele desenvolveu, das relações pessoais, familiares, esse Rio de Janeiro carioca, essa identidade nossa… Eu acho que é inestimável e vai ser assim para sempre no nosso coração. Ele é muito meticuloso, construía cena com início, meio e fim, fazia aquela curva dramática em cada cena. Diálogos dele são primorosos. Para cada personagem, ele tinha uma embocadura; não era o mesmo escrevendo. Ele era Joyce escrevendo para Joyce, ele era Helena escrevendo para Helena. É como se ele realmente vivesse todos os personagens.”

Carla Marins e Angelo Paes Leme (Foto: Arley Alves/TV Globo)

Carla explicou também por que foi escolhida para interpretar uma adolescente de 17 anos, mesmo tendo quase 30 na época. “Foi um desafio para mim quando me vi escalada pelo Paulo Ubiratan (1947-1998) para viver essa adolescente que engravida do primeiro namorado, no alto dos meus 27 anos na época. A Joyce era uma filha muito raivosa, com muitas questões. O Paulo me chamou para a novela por ser a Joyce uma personagem densa, com muitas cenas com a Regina Duarte e um volume absurdo de texto. Eles ficaram inseguros em colocar uma atriz menos experiente. Eu cortei o cabelo curtinho, fiz o cabelo encaracolado, engordei um pouquinho, fiquei bem bochechuda e deu tudo certo. E aí o negócio foi.”

Hoje, mãe de um adolescente, Carla reflete com sensibilidade sobre o contraste entre sua vida pessoal e a de sua personagem. “Hoje eu tenho um filho adolescente que, graças a Deus, é o oposto dela, não tem nada disso. Eu estou muito comprometida em criar um cara bacana. Eu sei o que eu passei e sei o que as meninas dessa geração ainda estão passando. Não tem jeito. Como o racismo é estrutural, o machismo também é estrutural na nossa sociedade. Eu o instruo: ‘Não seja tóxico com uma menina’. Eu oriento ele para ser amigo das meninas, para realmente gostar das mulheres e não apenas usá-las”.

Carla MArins viveu a voluntariosa Joyce em “História de Amor” (Foto: Divulgação/TV Globo)

Carla também relembra a mudança da Globo do Jardim Botânico para o Projac (atualmente chamados de Estúdio Globo), durante as gravações de “História de Amor”. “Eu creio que quando foi para o Projac, a coisa ficou mega industrial mesmo. Porém, por mais que tenha ritmo de fábrica, a gente colocava calor humano. Até então, a gente chamava de ‘obra’. Quando a gente mudou para o Projac, pouco tempo depois, já se falava: ‘Qual produto você tá fazendo? Qual produto você vai entrar?’. Eu acho que enquanto estava ali no Jardim Botânico, havia uma poesia; as coisas eram diferentes”.

Sobre a passagem do tempo, Carla reflete poeticamente sobre sua fase atual. “Eu tô achando essa década, a dos meus 50, muito interessantes. Eu tinha me proposto, no início dela, que essa seria a década das memórias mais incríveis. Achei que estaria muito ligada a viagens e descobertas, sempre algo muito para fora. Mas aí tive uma sacação: a grande viagem dessa década é para dentro, é para o autoconhecimento. É para olhar para tudo que já fiz, ver quanto tempo de vida ainda tenho e o que vou realizar. Quais são os meus desejos. É um momento de ajuste de rota. Tive isso na minha década dos 30, que foi uma década muito feliz, mas também de muito trabalho. Agora, estou vivendo uma fase muito feliz e realizada. Acho que, com essa mudança de leitura de vida, vou me tornar outra pessoa, mais vibrante e mais conectada com a realidade. Estou numa fase de busca de autenticidade, de autoconhecimento, arrumando a casinha para a chegada dos meus 60, que logo chegarão, e vivendo feliz, celebrando a vida. Quero estar o mais inteira possível. Não inteira-gostosa, mas inteira-plena, juntando os pedaços, para entender esse mundo e interpretá-lo, narrá-lo com minha arte”.

Carla Marins e Nuno Leal Maia em “História de Amor” (Foto: Divulgação/Globo)

Em “História de Amor“, a trama de Manoel Carlos transcende os limites do tempo, permanecendo viva nas memórias dos espectadores e nos relatos daqueles que a construíram. Para Carla Marins, Joyce foi mais do que um papel: foi uma oportunidade de explorar a intensidade das relações humanas e de transformar o texto magistral de Maneco em um reflexo de verdades universais. Três décadas depois, ela se encontra na plenitude de uma nova fase, guiada pelo desejo de narrar a vida com autenticidade. Entre os bastidores de ontem e os desafios de hoje, Carla revela que, assim como a arte, o autoconhecimento é uma jornada contínua, uma obra em eterna construção, onde o tempo não apaga, mas lapida. Afinal, a vida, como as novelas, é feita de ajustes, reencontros e o desejo constante de contar histórias que toquem o coração.