Cinema & TV

Cannes 2015: em “Irrational man”, Woody Allen incorpora um Hitchcock filosófico e se diverte com a barriga de Joaquin Phoenix

Recebido com carinho, o 45º filme de Woody Allen marca seu retorno explícito às teses filosóficas num clima de thriller com humor negro, além de trazer o trio de atores Phoenix-Stone-Posey afinadíssimo

Publicado em 17/05/2015 | Por Alexandre Schnabl

*Por Flávio Di Cola, diretamente de Cannes

Todo mundo sabe que a “pessoa” Woody Allen está à procura do sentido da vida há exatamente 79 anos (ele nasceu em 1935). Enquanto não acha, o “diretor” Woody Allen continua nos brindando com uma sucessão de filmes cada vez mais divertidos e – paradoxalmente – mais amargos também. Após tê-lo visto pessoalmente entrando para a coletiva de imprensa no Palácio dos Festivais, aqui em Cannes, nesta sexta-feira à tarde com um passinho curto e a postura recurva, para depois ser sabatinado com as perguntas de sempre, pode-se até arriscar o vaticínio de que a sua aproximação com a velhice e morte ainda vai render outros filmes e cada vez mais embebidos pela filosofia pessimista do dinamarquês Soren Kierkegaard (1813-1855), por exemplo.

Neste sentido, a personagem do professor Abe Lucas, filósofo niilista e taciturno (Joaquin Phoenix) que vai dar um curso de – pasmem! – “estratégias éticas” numa pequena universidade do interior, representa aquela parte do próprio Woody Allen que está há décadas lendo e relendo as propostas dos grandes pensadores que ainda possam produzir alguma faísca que justifique – mesmo que miseravelmente – as nossas existências. Aliás, como professor de “estratégias”, Abe Lucas, antes de chegar ao ficcional Braylin College, já havia tentado de tudo para se manter motivado a viver: atuar como voluntário em situações de tragédia humana extrema, como as da guerra do Iraque ou a New Orleans pós-furacão Katrina, muita bebida e drogas, sexo livre com alunas ou inebriar-se com a vaidade intelectual trazida por livros publicados.

Este slideshow necessita de JavaScript.

Mas nada disso adiantou. Bonitão excêntrico e melancólico, Lucas logo provoca certo furor entre o ridículo staff da universidade e as alunas. Dessa legião de fãs, o roteiro de Allen faz emergir duas figuras que – simbolicamente – opõem-se sob o ponto de vista “ético”. De um lado, a predadora e desfrutável professora de química Rita (Parker Posey, magnífica) que seduz o desanimado professor com a sutileza de uma “Mae West cortejando Cary Grant”, como comparou o crítico Scott Foundas do Variety, ou num clima de patética frustração que lembra a Martha de Elizabeth Taylor em “Quem tem medo de Virginia Woolf?” (Who’s afraid of Virginia Woolf?, 1966), de acordo com Graham Fuller da revista Screen.

Este slideshow necessita de JavaScript.

Do outro lado, encontramos a linda e inteligente aluna Jill (Emma Stone, radiante, queridinha mais recente do cineasta), uma sílfide romântica que acredita poder “salvar” o mestre através do “amor”. As cenas de cama seguidas de “discussões de relação” (as abomináveis DRs), típicas do universo de Woody Allen, são conduzidas pelo diretor com a sua ironia de costume, mas aqui perturbadas por uma presença extra: a nada disfarçada barriguinha de chope de Joaquin Phoenix que – afinal – acaba ajudando na caracterização do decadente, misantropo e frustrado personagem vivido pelo ator.

Confira abaixo o trailer oficial (Divulgação)

Nesta altura do filme, Woody Allen introduz uma reviravolta completa lançando mão de dois artifícios de roteiro tipicamente hitchcockianos: o acaso como fator decisivo na vida e o desmonte tenso e minucioso de um “crime perfeito”. Dentro da perigosa linha do “relativismo moral” da filosofia sartriana que poderia justificar os meios através dos fins, o professor Lucas encontra, finalmente, uma poderosa razão para voltar viver a vida e justificar a sua existência: assassinar sem deixar pistas um juiz cuja atuação indecorosa num caso de separação estaria separando uma pobre mãe dos seus filhos. Estes – assim como o próprio juiz – são completos estranhos ao professor. Mas conhecê-los ou não pouco importa, pois o “crime” visa eliminar o “mal” para se chegar ao “bem”, alinhando finalmente a teoria filosófica à vida cotidiana, como Abe Lucas sempre almejou.

Paramos por aqui a fim de não sermos taxados como spoilers, mas podemos revelar que Woody Allen leva a trama a um final habilmente urdido em que as idéias éticas, morais e filosóficas desenvolvidas no espaço do filme acabam por se defrontar na busca de uma síntese, dando-se ainda ao luxo de prestar uma inesperada homenagem ao final do clássico de “Um corpo que cai” (Vertigo, 1958), obra-prima suprema do mestre dos mestres, Alfred Hitchcock.

Com James Stewart ao fundo, Hitchcock dirige Kim Novak em "Um corpo que cai" (1958): em sua nova produção, Allen presta homenagem ao diretor britânico no final de "Irrational man" (Foto: Reprodução)

Com James Stewart ao fundo, Hitchcock orienta Kim Novak em “Um corpo que cai” (1958): em sua nova produção, Allen presta homenagem ao diretor britânico no final de “Irrational man” (Foto: Reprodução)

Irrational man” tem sido comparado pela crítica especializada presente em Cannes a outras grandes obras de Woody Allen que lograram misturar com fineza e humor questões ético-morais que fundamentam a vida do homem contemporâneo com a eterna sedução do crime, como vimos em “Crimes e pecados” (Crimes and misdemeanors, 1989) ou “Ponto Final – March Point” (Match Point, 2005).

Este slideshow necessita de JavaScript.

Mas sob o ponto de vista mercadológico, a Sony Pictures Classics – distribuidora mundial do filme – parece estar preocupada com o desempenho de “Irrational man” nas bilheterias, apesar da dupla estelar Phoenix-Stone preencher a tela com uma química perfeita e do retorno de Woody Allen ao formato CinemaScope que valoriza ainda mais a fotografia solar de Darius Khondji e o desenho de produção de Santo Loquasto, habitual colaborador do diretor.

Para a major norte-americana, a pegada mais cerebral do filme pode afastar das salas um público menos afeito ao jogo sofisticado de idéias, enterrando a pretensão de mais um êxito financeiro em série, depois das boas arrecadações obtidas por “Blue Jasmine” (Idem, 2013) e “Magia ao luar” (Magic in the moonlight, 2014).

Este slideshow necessita de JavaScript.

Isso explica a presença de Woody Allen e Emma Stone no tapete vermelho de Cannes, pois “Irrational man” precisa da promoção e do boca-a-boca favoráveis que sempre encontrou neste território “amigo” formado por críticos e admiradores reunidos em Cannes. E no Brasil, onde o diretor é muito mais querido do que nos próprios Estados Unidos, já começou a torcida para que o último Woody Allen chegue logo às telas.

Este slideshow necessita de JavaScript.

Galeria do talento: o talentoso, carismático e temperamental Joaquin Phoenix, nascido no Porto Rico, tem uma carreira marcada por muitos personagens depressivos ou perturbados, como o professor Abe Lucas deste ultimo filme de Woody Allen. Relembre alguns deles: 

Este slideshow necessita de JavaScript.

*Flávio Di Cola é publicitário, jornalista e professor, mestre em Comunicação e Cultura pela UFRJ e ex-coordenador do Curso de Cinema da Universidade Estácio de Sá. Apaixonado pela sétima arte em geral, não chega a se encantar com blockbusters, mas é inveterado fã de Liz Taylor – talvez o maior do Cone Sul –, capaz de ter em sua cabeceira um porta-retratos com fotografia autografada pela própria  

Pesquisas relacionadas