Camila Travaglini problematiza violência a animais e relata ter passado pressão psicológica por stalking


Atriz e modelo, Camila atua como ativista da causa animal, defendendo o tema de forma contínua. Ela comenta a repercussão nacional pela morte do cão Orelha, em Praia Brava, Florianópolis (SC), violentamente torturado por um grupo de adolescentes. Com quase 150 mil seguidores, ela também tornou pública sua experiência como vítima de stalking, tratando o tema como uma forma grave de violência ainda pouco debatida. No campo profissional, reflete sobre autenticidade, estratégia e os preconceitos enfrentados na transição da moda para a dramaturgia. Atualmente, aposta em projetos autorais no cinema e no teatro, incluindo o filme “A Mulher na Caixa”, previsto para estrear ainda no primeiro trimestre do ano

*por Vítor Antunes

Mais do que uma supermodelo, é fundamental ser uma supercidadã. Essa é a vocação de Camila Travaglini, que atua como modelo, atriz e ativista da causa animal. A defesa dos direitos dos animais não ocupa um lugar periférico em sua trajetória pública; ao contrário, orienta escolhas profissionais e posicionamentos que ela faz questão de sustentar de forma contínua. O tema ganhou novo fôlego no debate público, impulsionado pela repercussão da morte do cão Orelha, em Praia Brava, Florianópolis (SC), violentamente torturado por um grupo de adolescentes. O caso provocou indignação nacional e reacendeu discussões sobre violência, impunidade e políticas efetivas de proteção animal e desvendou o véu de quem é realmente comprometido com a causa animal ou não. Para Camila, “existe, sim, um avanço na conscientização de pessoas verdadeiramente comprometidas com a causa. Mas também há muito oportunismo, onde a pauta vira estratégia de imagem, sem compromisso real com mudanças estruturais. A defesa animal exige constância e ações práticas — não apenas discurso. A causa não pode ser tendência; precisa ser responsabilidade”.

Camila Travaglini acredita ser importante discutir a causa animal (Foto: Divulgação)

Com quase 150 mil seguidores nas redes sociais, Camila também tornou pública, recentemente, uma experiência pessoal marcada por violência psicológica: ela é vítima de stalking – recentemente dois homens foram presos por stalking às atrizes Ísis Valverde e Daniele Suzuki. O tema, ainda pouco debatido no país, aparece com frequência diluído em narrativas que minimizam seus efeitos. Para ela, no entanto, trata-se de uma violação grave e persistente. “É uma experiência aterrorizante e ainda não teve um fim. É invasiva e emocionalmente esgotante. Stalking não é apenas insistência: é uma violação contínua de limites, que gera medo, insegurança e desgaste psicológico. É crime! E as pessoas precisam dar mais atenção a esse crime que se torna cada vez mais recorrente e vemos muito mais as pessoas que passam por esse tipo de episódio vindo a público expor. O que não é fácil pois muitas vezes, ou na maioria delas, há sentimentos medo, vergonha ou culpa. Lidei buscando apoio, documentando os fatos e entendendo que silenciar só fortalece esse tipo de violência”.

Ainda é um tema pouco debatido e muitas vezes minimizado, especialmente quando acontece com mulheres. Precisamos tratar stalking como o que ele é: uma forma séria de violência – Camila Travaglini 

ASSINATURA

Num mundo cada vez mais atravessado por performances calculadas e discursos moldados para agradar algoritmos, Camila reflete sobre o desafio de equilibrar autenticidade e estratégia em um mercado profundamente impactado pelas redes sociais. Para ela, trata-se menos de uma oposição e mais de um ajuste fino, permanente, entre convicção pessoal e leitura de contexto. “Autenticidade sem estratégia pode se perder; estratégia sem autenticidade se esvazia. O equilíbrio está em saber quem eu sou, o que defendo e até onde estou disposta a ir. As redes sociais são ferramentas, não o centro da minha vida. Não sou pautada por likes. Uso a estratégia para proteger minha verdade, não para moldá-la ao que performa melhor. A longo prazo, a coerência é o que sustenta qualquer trajetória. Creio que o público sabe identificar”.

Camila Travaglini foi alvo de stalking (Foto: Divulgação)

Embora a migração de modelos para a dramaturgia já não seja novidade, e muitas vezes tratada como um debate superado, o preconceito associado a essa transição segue presente, ainda que de forma menos explícita. No meio artístico, a passagem da moda para a atuação continua sendo submetida a desconfianças que raramente se assumem como tal. “Existe um preconceito silencioso, muitas vezes travestido de ‘critério técnico’, que deslegitima trajetórias. A moda é frequentemente vista como superficial, quando, na verdade, é uma linguagem poderosa de expressão, narrativa e construção simbólica. A dramaturgia exige verdade, escuta e entrega — e isso não é incompatível com quem vem da moda. Aos poucos isso vem mudando, mas ainda é um território que exige afirmação constante’”.

Há dez anos, Camila passou a lidar com um tipo específico de projeção pública ao se tornar sósia oficial de Gisele Bündchen em uma campanha publicitária. Desde então, aprendeu a administrar tanto o elogio quanto a cobrança que acompanham esse tipo de associação no universo da moda. “Recebo esse comparativo com naturalidade, orgulho mas também com alguma distância. É um elogio, claro, e sou muito grata e feliz!mas as comparações algumas vezes podem ser limitantes. Meu trabalho não se sustenta em semelhanças físicas, mas em escolhas, posicionamentos e construção de trajetória. Creio que hoje lido com ela de forma muito mais consciente, sem permitir que isso define quem eu sou ou onde quero chegar”. Natural de Osasco, na região metropolitana de São Paulo, ela faz questão de reafirmar suas origens como parte constitutiva de sua identidade, mesmo diante da constante associação à imagem da supermodelo internacional.

Camila Travaglini era sósia de Gisele Bündchen (Foto: Divulgação)

Camila investe ainda mais na carreira de atriz, ampliando sua atuação para além dos papéis convencionais. “Tenho projetos ligados à dramaturgia, à criação autoral e também a iniciativas que cruzam arte e posicionamento social. Meu foco está em trabalhos que tenham densidade, que provoquem reflexão e que dialoguem com temas contemporâneos. Não me interessa produzir por volume, mas por sentido. Quero estar em projetos que me desafiem artisticamente e eticamente”.

Entre esses projetos está o longa-metragem “A Mulher na Caixa”, produção da ArteBarata Filmes, dirigida por Filipo Carotenuto e Aldo Pedrosa. O filme, que transita entre o mistério, o suspense e o terror psicológico, tem previsão de estreia no primeiro trimestre de 2026. “A Mulher na Caixa” é um trabalho profundamente simbólico e desafiador. Ele fala sobre contenção, silenciamento e sobre os espaços — físicos e subjetivos — em que as mulheres são colocadas. É um projeto que exige muito mais do que técnica: exige presença, vulnerabilidade e consciência. Para mim, foi um processo de confronto interno e externo, porque não é possível atravessar essa obra sem ser atravessada por ela”.

Ao articular moda, arte, ativismo e posicionamento ético, Camila Travaglini constrói uma trajetória que se distancia da lógica da exposição vazia e se ancora na coerência entre discurso e prática. Seja ao defender a causa animal, ao expor a violência do stalking ou ao escolher projetos artísticos que tensionam silenciamentos e desigualdades, sua atuação pública revela uma recusa em tratar temas complexos como mera tendência. Em um cenário marcado pela volatilidade das narrativas e pelo apelo imediato das redes sociais, Camila reafirma que relevância. Para ela, não se mede por engajamento momentâneo, mas pela capacidade de sustentar, no tempo, escolhas que tenham sentido social, densidade artística e responsabilidade cidadã.