Bruna Spínola fala sobre ter vivido freira lésbica em “Dona Beja”: “Desloca a história do lugar da proibição”


“Dona Beja”, produção da HBO Max apostou em cenas de nudez, sensualidade explícita e relações homoafetivas, incluindo uma freira vivida por Bruna Spínola. A atriz destacou a complexidade de sua personagem, Eulália, marcada pela tensão entre repressão religiosa e afirmação do afeto. Segundo ela, a construção passou pelo corpo e pela disciplina, buscando tratar o desejo como experiência humana, não como transgressão. Bruna também avalia que há hoje mais espaço para personagens femininas ambíguas e menos idealizadas, refletindo uma mudança gradual na televisão

*por Vítor Antunes

Cercada de polêmicas – em parte herdadas da própria novela que a originou, exibida pela Manchete -, a nova versão da HBO Max de “Dona Beja” não tentou se afastar desse histórico. Ao contrário, parece tê-lo assumido como método. Reuniu protagonistas brancos e bem-sucedidos, investiu em cenas frequentes de nudez e sexo e incluiu relações homoafetivas, entre elas um casal masculino e outro feminino, este último formado por uma freira, vivida por Bruna Spínola. “Ela tem uma complexidade que me pegou de imediato. Vive num contexto de repressão, mas carrega uma clareza afetiva muito forte. Em momentos decisivos, afirma o amor – chama de sentimento puro – e chega a dizer que o diabo desconhece o amor. Isso me tocou, porque desloca a história do lugar da proibição para o do humano. É um desafio de delicadeza, coragem e nuance. E eu gosto quando a personagem pede isso de mim”.

Bruna também comenta o processo de construção de uma personagem atravessada por religiosidade e desejo — dois campos historicamente tensionados: “Fui muito pelo caminho da disciplina e do corpo. A religiosidade, naquele contexto, não é só crença; é regra, rotina, postura, silêncio, hierarquia. Trabalhei a contenção, a economia de gestos, a forma de ocupar o espaço, o olhar.”

Quis entender o desejo não como transgressão, mas como afeto, como algo que insiste em existir. A personagem não vive só culpa. Ela pensa, argumenta, sustenta as escolhas – Bruna Spínola

Bruna Spinola e Indira Nascimento em “Dona Beja”(Foto: Divulgação)

A ambientação de Dona Beja remete a um Brasil de outra época, onde o passado não é só cenário, mas regra. Um dos desafios da produção foi equilibrar a fidelidade histórica com um olhar contemporâneo sobre a sexualidade — tensão que atravessa a narrativa sem nunca se resolver por completo. É a própria Bruna quem explica: “Eu acho que o equilíbrio está em respeitar o contexto, sem reduzir as pessoas daquele tempo a caricaturas. A fidelidade aparece nos códigos sociais, no peso da religião, no risco real, na falta de liberdade. Mas o olhar contemporâneo entra na forma como a obra escolhe contar essa história com dignidade, sem tratar esse e outros afetos como erro. Isso é muito potente”.

Ao longo da carreira, a atriz transitou por diferentes perfis de personagens femininas e observa, com algum distanciamento, a mudança nesse percurso. “Sinto que, por um tempo, fiz muitas personagens mais ‘boazinhas’, talvez um pouco mais lineares. Tenho carinho por elas, porque aprendi muito ali. Aos poucos, foram chegando mulheres com camadas mais densas, com mais contradição, sombra e ambivalência — e isso é muito estimulante para uma atriz.” Ela ressalta, no entanto, que a transformação não é abrupta. “Mesmo nas mocinhas, eu já via uma evolução. A Cíntia, de Pega Pega, por exemplo, tinha uma virada, uma trajetória.”

Eu sinto que hoje existe mais espaço para personagens femininas que não precisam ser exemplares o tempo todo, e que podem ser mais humanas – Bruna Spinola

Há um relacionamento lésbico na trama de época exibida pelo HBO Max (Foto: Divulgação/HBO Max)

MÚLTIPLA

A carreira de Bruna tem se movido entre personagens intensas e universos bastante distintos — uma espécie de trânsito constante entre registros. Hoje, ela diz que o critério de escolha passa menos por estratégia e mais por reconhecimento. “O que me move é quando uma personagem me pega de verdade. Às vezes é o texto, às vezes é uma contradição, às vezes a sensação de que existe ali uma vida que eu quero investigar. Não penso isso como ‘escolher’ de forma racional, porque muitas vezes as coisas chegam, se apresentam, e o meu trabalho é perceber quando há verdade e quando aquilo tem espaço para eu criar. Gosto quando a personagem me dá trabalho, no melhor sentido — quando me obriga a escutar, pesquisar, sair do automático e encontrar humanidade em zonas mais difíceis.”

Nas redes sociais, Bruna também posta conteúdo sobre culinária — um interesse que não surgiu como estratégia, mas como extensão da vida privada. “A cozinha chegou de um jeito muito afetivo. Para mim, é memória, família, rotina, cuidado. Sempre cozinhei, mas, com o tempo, isso virou também uma linguagem de comunicação, um jeito de compartilhar um pedaço da minha vida que é real, cotidiano e, ao mesmo tempo, criativo.”

Bruna Spínola é arquiteta além de atriz (Foto: Pino Gomes)

Paralelamente, a atriz mantém um escritório de arquitetura — e trata as duas frentes menos como acúmulo e mais como contaminação mútua. “O desafio é logístico, porque são dois mundos muito intensos. Mas, ao mesmo tempo, uma área alimenta a outra. A arquitetura treina meu olhar para espaço, luz, atmosfera, narrativa visual. Penso muito em cena, em percurso, em sensação. E a atuação me coloca no centro do humano, do comportamento, do detalhe emocional. Isso reverbera quando projeto, porque casa não é só função — é vida acontecendo.” No fim, diz, o que há é uma continuidade: “Transito entre essas duas áreas porque ambas, cada uma à sua maneira, contam histórias. Uma com corpo e silêncio; a outra com espaço e luz.”

Para os próximos meses, o plano é sustentar esse equilíbrio. “Sigo muito dedicada ao meu escritório, a Vesari Arquitetura, que é uma frente criativa importante na minha vida. Temos projetos residenciais e comerciais e também a Vesari Kids, voltada ao universo infantil, que nasceu desse olhar de mãe e do desejo de criar espaços que acolham e funcionem no dia a dia.” No campo da atuação, ela lista os próximos movimentos: “Gravei recentemente o filme O Sentido da Vida, do diretor Juan Posada, que deve estrear em breve, e estou me preparando para dirigir o curta-metragem Pulsão, com Nathalia Dill. Gosto de alternar linguagens e lugares de criação — atuar, dirigir, desenvolver projetos autorais. A ideia para 2026 é seguir nesse movimento, buscando histórias com camadas, que me provoquem e que tenham algo humano para dizer.”