Bola de cristal? Novelas de Gloria Perez anteciparam trends e polêmicas que hoje bombam na web e temos como provar


Uma trend de fotos com famosos em Polaroid viralizou há 1 semana nas redes sociais – a princípio, em registros bem-humorados: montagens de fãs com seus ídolos ou de grupos que recriaram imagens impossíveis de capturar na vida real. Um revival que já havia sido encenado em na novela ‘Travessia’ (2022). Gloria Perez parece ter antecipado o impacto da inteligência artificial e do metaverso. Reconhecida como uma autora visionária, ela consolidou-se por prever debates que só anos depois ganhariam relevância. Da gestação por substituição em ‘Barriga de Aluguel’ à transição de gênero em ‘A Força do Querer’, suas novelas abriram espaço para pautas que antes soavam como ficção ou tabu. Já em 1995, ‘Explode Coração’ abordava o namoro pela internet, enquanto ‘O Clone’ trouxe reflexões sobre o Islã em pleno cenário de pós-11 de setembro

*por Vítor Antunes

Nos últimos dias, uma trend tomou conta das redes sociais, especialmente no X (antigo Twitter) e no Instagram. Trata-se do revival de uma ferramenta de inteligência artificial que permite a criação de fotos simulando encontros entre pessoas que nunca estiveram juntas – ou que, pela passagem do tempo, não poderiam mais estar. A princípio, a brincadeira viralizou em registros bem-humorados: montagens de fãs com seus ídolos ou de grupos que recriaram imagens impossíveis de capturar na vida real. Um dos exemplos mais comentados foi o das Paquitas, cujos admiradores produziram cliques virtuais ao lado das assistentes de palco da Xuxa, tanto na juventude quanto nos dias atuais. Mas a tendência rapidamente ganhou contornos mais íntimos e emocionais: muitos usuários passaram a usar a ferramenta para “abraçar” parentes já falecidos, recriando uma presença física que a vida real não permite mais.

O recurso foi tão longe que chegou também ao universo das celebridades. Circulam imagens de Elis Regina (1945-1982) ao lado dos filhos, como se a cantora ainda estivesse viva. O resultado, que mistura nostalgia, afeto e tecnologia, reacendeu debates sobre limites éticos e emocionais do uso da inteligência artificial. Curiosamente, a televisão brasileira já havia ensaiado esse futuro. Em 2022, Gloria Perez colocou em cena, na novela “Travessia”, uma sequência em que Chiara (Jade Picon) abraça a mãe, personagem de Grazi Massafera, por meio da inteligência artificial e do metaverso. À época, a cena foi alvo de críticas e até de certo deboche por parte do público, mas hoje soa como um prenúncio do que se tornaria realidade pouco tempo depois.

Elis Regina abraça filhos na Polaroid através de IA (Foto: Reprodução/Instagram @dj.zepedro)

O site Heloisa Tolipan resgatou o episódio e destacou outras ocasiões em que Gloria Perez pareceu “profetizar” tendências. Seja ao abordar temas sociais ainda pouco discutidos, seja ao antecipar movimentos culturais e tecnológicos, a autora reiteradamente mostra que sua ficção, longe de ser mero entretenimento, tem servido como espécie de radar para transformações que mais cedo ou mais tarde atravessam o cotidiano de todos nós. Não é a primeira vez. Ao longo da carreira, Gloria acumulou momentos em que ousou abordar temas considerados incômodos, improváveis ou “científicos demais” — mas que, anos depois, se tornaram parte do cotidiano. Confira!!

“Barriga de Aluguel” (1990): do impossível à regulamentação

Ainda nos anos 1980, logo após o sucesso de Partido Alto (1984), Glória apresentou à Globo a sinopse de “Barriga de Aluguel”. A emissora rejeitou o projeto, classificando-o como ficção científica — algo considerado inimaginável no Brasil da época. A autora tentou emplacar a trama na Manchete, mas a sinopse já estava registrada na Globo. O folhetim só viria ao ar em 1990, no horário das seis, com elenco formado por nomes em ascensão, como Cláudia Abreu, Cássia Kis e o então modelo Victor Fasano, além de veteranos como Beatriz Segall, Renée de Vielmond e Mário Lago.

O que parecia fadado ao fracasso virou um dos maiores sucessos do ano, ao lado de Pantanal, na Manchete. A novela levantou uma questão inédita para a teledramaturgia brasileira: a quem pertence o bebê gerado em útero de substituição — à mãe genética ou à gestante?

Hoje, a prática é reconhecida no Brasil como gestação por substituição voluntária, indicada para pessoas que não podem engravidar. Fora do país, tornou-se um recurso comum, inclusive com doadores anônimos. Casais famosos recorreram ao método: o humorista Paulo Gustavo (1978-2021) teve filhos por barriga de aluguel nos Estados Unidos, e, mais recentemente, os influenciadores Lucas Rangel e Lucas Bley aguardam a chegada de Mia, gerada pelo mesmo processo.

Cassia Kis e Claudia Abreu disputam o filho em ‘Barriga de aluguel’

“Carmem” (1987): HIV além dos estigmas

Em Carmem”, exibida em 1987, Glória enfrentou outro tabu: o HIV em pessoas heterossexuais. À época, o vírus era quase exclusivamente associado a homens gays. A discussão sobre o impacto da epidemia em mulheres era praticamente inexistente. Na trama, a autora criou a personagem Lucimar (Theresa Amayo [1933-2022]), infectada após uma transfusão de sangue. Uma abordagem ousada e pioneira que antecipou dados atuais: hoje, a maior parte do crescimento das infecções ocorre justamente na população heterossexual. Muitas mulheres são contaminadas por parceiros em relações extraconjugais, refletindo a vulnerabilidade feminina diante da epidemia. De acordo com dados da Unaids, agência da ONU para o combate à Aids, em 2023, 44% das novas infecções no mundo ocorreram entre mulheres e meninas.

Thereza Amayo em cena de “Carmem” (Foto: Reprodução/RTP)

Transexualidade em pauta – de Explode Coração a A Força do Querer

Em 1995, quando as discussões sobre identidade de gênero eram raras no Brasil, Glória Perez ousou colocar o tema em “Explode Coração”. A personagem Sarita Vitti, interpretada por Floriano Peixoto, não era vista como travesti, nem como transformista, tampouco como gay. Ficava num limbo de representações que nem mesmo o movimento LGBT da época aceitava. Muitos militantes viam a figura como caricata, um pastiche. Hoje, no entanto, parte da crítica revisita o personagem sob outra perspectiva: a de uma mulher trans, ainda que o entendimento à época fosse rudimentar.

Floriano Peixoto em “Explode Coração” foi Sarita Vitti (Foto: Reprodução/Globo)

Mais de duas décadas depois, em “A Força do Querer” (2017), Glória voltou ao tema com mais profundidade. A transição de Ivana para Ivan (Carol Duarte) foi um dos momentos mais marcantes da teledramaturgia recente. O público acompanhou o processo, compreendeu suas etapas e, em grande parte, torceu para que Ivana encontrasse sua identidade como Ivan. Reportagens da época destacaram a comoção e o ineditismo: era a primeira vez que uma novela de grande audiência mergulhava com seriedade na vivência trans.

A autora ainda convidou pessoas trans para participarem da novela, como o influenciador Tarso Brant e o então ator, hoje deputado, Thammy Miranda — esta último não aceitou participar. Se em 1995 a abordagem parecia incompreensível, hoje a transexualidade está no centro do debate público. Em 2025, o Brasil já conta com parlamentares trans em cargos legislativos, e o tema esteve até no carnaval: a escola de samba Paraíso do Tuiuti homenageou Xica Manicongo, considerada a primeira pessoa trans registrada na história do país.

Carol Duarte deu vida a Ivan/Ivana em “A Força do Querer”, onde a transsexualidade foi um dos temas (Foto: Divulgação/Globo)

O namoro pela internet – Explode Coração

Ainda em “Explode Coração”, Glória abordou algo que parecia distante: a possibilidade de namorar pela internet. Em 1995, poucos brasileiros tinham acesso à rede, e a ideia soava quase como ficção científica. Hoje, o quadro se inverteu: a internet é onipresente, a ponto de jornais tradicionais existirem apenas em versão digital e de a comunicação virtual se tornar parte indispensável da vida cotidiana.

Era inacreditável, na época,  que Júlio (Edson Celulari) e Dara (Tereza Seiblitz) pudessem se conhecer, e namorar, através das redes. Hoje o impacto nos relacionamentos é evidente. Aplicativos como Tinder e Happn popularizaram encontros casuais e namoros, enquanto o Grindr transformou a dinâmica da sociabilidade gay. Segundo dados da Statista, 16,7 milhões de brasileiros usaram serviços de namoro online em 2024, e a projeção é de que o número chegue a 18 milhões até 2028. O que era exceção na ficção virou rotina na vida real.

Em “Explode Coração”, Tereza Seiblitz viveu Dara. Uma moça que, embora gostasse das tradições ciganas, queria estudar e se “urbanizar” (Foto: Jorge Baumann/DIvulgação TV Globo)

O funk em evidência – Partido Alto (1984)

O funk carioca começou a se consolidar em 1979, impulsionado pelos bailes da equipe Furacão 2000, liderada por Rômulo Costa e Verônica Costa. Inicialmente ligado ao breakdance em clubes de bairro, o movimento cresceu até chegar à televisão. Na novela “Partido Alto” (1984), Glória retratou esse universo, especialmente em cenas ambientadas no bairro do Encantado, Zona Norte do Rio. Era o prenúncio de um gênero que, anos depois, se tornaria um dos pilares da música popular brasileira. Nos anos 1990, o funk explodiu nos bailes de periferia, e no século XXI passou a disputar espaço com o pop global.

Hoje, artistas como Anitta e Ludmilla, que surgiram no funk, são nomes reconhecidos internacionalmente, levando o gênero a palcos de todo o mundo.

O Islã e o sucesso de O Clone (2001)

Em 2001, quando “O Clone” estreou, o mundo ainda estava em choque com os atentados de 11 de setembro, atribuídos à rede terrorista liderada por Osama Bin Laden (1957-2011). Havia receio de que a trama, ambientada em parte no universo islâmico, sofresse rejeição do público. O que ocorreu foi o contrário: a novela tornou-se um dos maiores sucessos da história da Globo, conquistou enorme repercussão internacional e ajudou a desmistificar preconceitos em torno do Islã. Passadas duas décadas, o islamismo é a religião que mais cresce no planeta. Um estudo do Pew Research Center, de 2017, apontou que até o final do século XXI o número de muçulmanos deve superar o de cristãos, tornando o Islã a religião com mais fiéis no mundo. Enquanto a população global deve crescer 35% entre 2010 e 2050, a de muçulmanos deve aumentar 73%.

Na América Latina, a expansão é mais modesta, mas significativa: a região deve ter um crescimento populacional de 27% até 2050, enquanto o número de seguidores do Islã tende a aumentar 13%. Ainda assim, o contraste com o resto do mundo mostra como Glória Perez mais uma vez antecipou um debate que se tornaria global.

Elenco de “O Clone” numa vivência islâmica. Religião é uma das que mais cresce no mundo (Foto: Reprodução/Globo)