Beth Goulart reflete acerca da falta de abordagem sobre envelhecimento na dramaturgia e boatos de que estaria em novela


Atriz celebra Clarice Lispector no espetáculo Simplesmente Eu, aproximando jovens da literatura e do teatro. Ela defende a valorização de atrizes maduras na TV e critica a escassez de papéis para mulheres acima de 50 anos. Sem previsão de voltar à televisão, estará no filme O Advogado de Deus e prepara um novo livro. Relembra a carreira na música, interrompida para priorizar a atuação, e papéis polêmicos como em Selva de Pedra e Olho por Olho. Beth também reflete sobre o ofício de atriz, marcado por estudo e entrega, e relembra seu início precoce no palco, e fala sobre que conselhos daria para ela própria no início de carreira

*por Vítor Antunes

Uma das obras centrais da literatura de Clarice Lispector (1920-1977) é “Perto do Coração Selvagem”. Beth Goulart volta a dar vida à mais brasileira das autoras e transforma o sentimento de atriz em algo que torna um coração mais doce que selvagem. Para Beth, chegou o momento em que Clarice se tornou pop, especialmente à medida que jovens mulheres redescobrem a escritora. “Vejo com alegria essa descoberta da Clarice. Sinal que sua obra é atemporal, e que ela fala com todas as gerações, em todos os tempos. Eu também sinto isso com relação ao teatro, o que me dá uma alegria em mim. Muitas jovens chegam lá em busca da Clarice e acabam descobrindo o teatro. Então eu fico muito feliz de poder de alguma forma fazer essa ponte, apresentar essas duas artes irmãs, né, que a literatura e o teatro têm uma relação íntima. E eu fico muito feliz de apresentar para uma nova geração a força, a potência da literatura da Clarice, a força feminina dela. O mundo descobriu que Clarice é pop”. “Simplesmente Eu, Clarice Lispector” fica em cartaz até 31 de agosto no Teatro Fashion Mall, no Rio de Janeiro, como parte da celebração dos 50 anos de carreira da atriz.

Embora sem previsão de voltar à televisão, recentemente seu nome foi ventilado para a nova novela das 19h, “Coração Acelerado”, o que ela negou: “Com relação à televisão, eu não sei. O destino a Deus pertence”. Beth também poderá ser vista em breve no filme de Wagner de Assis, “O Advogado de Deus”, adaptação de uma história de Zíbia Gasparetto (1926-2018), protagonizado por Nicolas Prattes. A atriz reflete sobre a ausência de mulheres maduras na TV, um espaço cada vez mais restrito para quem tem mais de 50 anos, especialmente no caso das atrizes. “De maneira geral, isso sempre acontece. As mulheres acabam sofrendo um pouquinho mais e na própria sociedade. Mas eu acho que seria importante a dramaturgia de alguma forma valorizar essa fase da vida, porque de fato estamos todos envelhecendo. A sociedade vai envelhecer. Então é importante que a sociedade aprenda a lidar com o envelhecimento de uma forma natural. O envelhecimento é um ciclo, faz parte e ela tem que aprender a lidar com a sua saúde, com as suas potencialidades de vida, com seus sonhos. A vida não acaba porque você envelhece, ao contrário, você tem que dar cada vez mais qualidade de vida a essa fase da vida. E eu acho que seria um tema muito interessante para a dramaturgia se debruçar”.

Acho que seria uma ótima escolha colocar personagens vivendo a maturidade. Não só como uma visão mercadológica, mas como uma visão existencial. O tempo é um aliado das pessoas, não é um inimigo. Então as pessoas têm que aprender a lidar com isso de uma forma mais leve e com mais possibilidades de compreensão – Beth Goulart

Beth Goulart prepara um novo livro para lançamento em breve (Foto: Nana Moraes)

Há quarenta anos sem lançar um álbum, a atriz não pretende retomar a carreira fonográfica. Ela lembra que, no passado, havia uma vigilância maior sobre quem tentava conciliar atuação e música, e acreditava-se que uma escolha anulava a outra. “Quando eu comecei, na época, não era comum atores cantarem, existia um certo preconceito e era preciso escolher ser uma coisa ou outra. Enveredei mesmo pela carreira de cantora, cheguei a gravar discos, mas não queria abrir mão da minha carreira de atriz. Quando eu senti que, de alguma forma, o mercado musical me exigia um tipo de dedicação que me faria abrir mão um pouco do meu trabalho de atriz, aí eu acabei abrindo mão desse rótulo, ainda que não tenha deixado de cantar. A música nunca esteve longe de mim”. Em 1981, Beth lançou “O Balão” no Festival da Canção da Globo e, no mesmo ano, teve a música “Vida” na trilha de “Baila Comigo”, composição de Milton Nascimento e Fernando Brant, tema do principal casal maduro da novela.

A MÚSICA, O PERIGO E O BAS-FOND

Duas novelas de Beth Goulart — uma intencionalmente, outra não — acabaram entrando para o rol das tramas polêmicas da história da TV: Selva de Pedra e Olho por Olho — a primeira da Globo, a segunda da Manchete.

A produção global causou repercussão em razão da insinuação de lesbianismo entre as personagens Cíntia, vivida por Beth, e Fernanda, interpretada por Christiane Torloni. A abordagem, incomum à época, gerou polêmica especialmente por se tratar de uma adaptação de uma novela escrita por Janete Clair e exibida em 1972, onde o tema era inexistente. “O lesbianismo foi uma invenção do Walter Avancini (1935-2001). O Avancini falou assim: ‘Olha, eu tenho que começar com essa novela, eu tenho que trazer para aqui agora. Eu quero o seu personagem trabalhando a sensualidade e em tudo’. Só que a primeira cena que eu fiz foi com a Christiane Torloni, e na novela as nossas personagens eram super amigas. Avancini, muito provocador, instruiu que a minha personagem seduzisse a da Torloni. Então, nós criamos uma aura de sensualidade que, na verdade, durou só os primeiros 10 capítulos, porque foi o tempo que ele dirigiu. Depois ele saiu da novela e largou a situação na mão do Dennis Carvalho, que mudou a trajetória da personagem. Porém, isso ficou marcado na novela inteira”.

A intenção de Avancini em retratá-las como lésbicas era tamanha que ele encomendou a música Perigo — cantada por Zizi Possi, bissexual, e escrita por Nico Rezende e Paulinho Lima — que falava de maneira velada sobre homossexualidade. Já “Olho por Olho”, da Manchete, exibida em 1988, foi uma das primeiras tramas a trazer como protagonistas personagens do bas-fond: prostitutas, michês e travestis. Também foi pioneira ao incluir uma mulher trans com papel de destaque, Dinorá (Claudia Celeste [1952-2018]). Cogitou-se que ela se tornaria uma das protagonistas, mas a recepção negativa — fruto do preconceito — acabou ofuscando-a. A novela foi um fracasso de audiência. “Eu vivia Paula, um personagem muito forte, que era prostituta da rua e que inclusive chega a ser morta pelo namorado. Ela lidava com o bas-fond, com as mulheres da noite e com os travestis. Paula era meio uma líder das prostitutas. O José Louzeiro, autor, era muito inteligente e soube colocar esses assuntos de uma forma interessante usando esse universo em cena”.

Christiane Torloni e Beth Goulart em “Selva de Pedra” (Foto: Nelson di Rago/Globo)

O AMOR BATEU NA PORTA

Ser atriz é algo como ser médium? Não é incomum que expressões assim surjam, ou que alguém diga sentir-se tomada por algum espírito enquanto atua. Beth, ao contrário, credita seu ofício ao estudo, à técnica e à singularidade da arte. “Eu não diria mediunidade. Eu diria que, quando você tem um ator no palco lidando com uma plateia, você tem uma ação única e especial. Ela jamais vai se repetir, porque aquele momento é único. Nós somos impactados uns pelos outros. O público é impactado entre si pelo próprio parceiro. Falar sobre mediunidade é falar sobre representar pessoas que existiram, que é o caso da Clarice Lispector, por exemplo. Eu acho que nós, artistas, de alguma forma, fazemos um exercício de sairmos de nós para nos aproximarmos de uma outra persona, de alguém que não somos nós. Mas, para que isso exista de verdade na frente do público, essa persona também tem que se aproximar de nós de alguma forma”.

Beth Goulart vive Clarice Lispector em montagem no teatro Fashion Mall (Foto: Fabian)

Se não há algo sobrenatural, talvez haja algo especial — qualquer coisa de predestinado. A atriz conta que, quando ainda estava em dúvida sobre qual nome usar profissionalmente — e nem sequer era atriz na primeira década de vida — foi “batizada” pelo jornalista Goulart de Andrade. “Estou com 64 anos. Comecei com 13 anos, em 74. A primeira vez que eu falei um poema de Fernando Pessoa no palco, por exemplo, tinha sete. Foi quando eu ouvi meu nome pela primeira vez. O Goulart de Andrade (1933-2016), que me conhecia desde pequenininha, viu uma apresentação minha de final de escola e me convidou para falar esse poema no programa dele. E me apresentou assim: pela primeira vez, a filha de Nicette Bruno e Paulo Goulart: Beth Goulart. Quando eu estreei com 13 anos na peça, aí foi a estreia profissional, com salário, tudo direitinho. Aí a Beth Goulart já estava estabelecida”.

Por ter começado a carreira muito jovem, Beth diz não ter problematizado isso — ao contrário. “A minha vocação apareceu muito cedo e eu era louca pela minha profissão. Eu, quando novinha, era, na verdade, um espírito mais velho num corpo de jovem. Porque eu gostava de ler Nietzsche, lia Shakespeare, Fernando Pessoa, Guimarães Rosa — era uma literatura mais densa. Eu fui ficando mais jovem a partir do momento que fui ficando mais velha. Então eu levava muito a sério a minha profissão. Eu não estava nem aí para as festinhas. Eu queria fazer teatro. Eu queria estudar. Além do teatro, teve uma época em que eu ia de manhã para a escola, à tarde gravava novela e à noite fazia teatro. E realmente, eu sempre gostei muito de estudar, de ler, de me aprofundar, tanto que continuei nas minhas pesquisas. Cada trabalho que eu faço é uma oportunidade de aprendizado”.

Beth Goulart torna a dar vida à escritora ucrano-brasileira (Foto: Fabian)

Mas, se a Beth de 64 anos pudesse aconselhar a menina em início de carreira, a recomendação seria: “Eu sugeriria a ela ser mais leve, a não levar tão a sério determinadas coisas da vida, se permitir errar, porque às vezes, quando a gente é muito jovem, a gente se cobra muito e aí sofre porque se cobra muito. Então, quando você se permite ser mais solto, mais leve, você brinca mais, escolhe mais o lado bem-humorado da vida. Você tira melhor um aprendizado sem tanto sofrimento. Então, sorria mais para a vida, que a vida vai sorrir para você de volta”.

Beth Goulart, que há décadas aprendeu a moldar a palavra e o gesto como quem acaricia a alma, leva consigo a marca luminosa do sorriso — esse traço que, embora tão seu, ela recomendaria cultivar ainda mais. À jovem que foi, e a todas as jovens que chegam agora aos palcos ou às páginas, ela diria para estampar a alegria como quem veste a luz, para ousar ser mais alegre do que parece possível, para deixar que a vida perceba e devolva o riso. Porque, no fundo, viver é também um ato cênico: e a alegria, quando externalizada, se torna não apenas presença, mas permanência.